Lupita Nyong’o fala sobre sua luta para aceitar seu cabelo – e ela não foi a única negra a passar pelo mesmo

20. fevereiro 2018 Estilo 0
Lupita Nyong’o fala sobre sua luta para aceitar seu cabelo – e ela não foi a única negra a passar pelo mesmo

Estamos bem animados com o filme do “Pantera Negra”, pois dentre outras coisas, podemos ver Lupita Nyong’o em cena de novo. A última vez que a vimos foi em “Rainha de Katwe”, lançado em 2016. Mesmo que ela estivesse presente em “Mogli: O Menino Lobo” e “Star Wars: O Despertar da Força” e “Os Últimos Jedi”, apenas sua voz era escutada. 

Já na nova produção da Marvel, ela surge como a independente Nakia, em toda sua beleza e com os cabelos ao natural. E quem a vê exibindo seus cabelos crespos, mal imagina que ela levou muito tempo (e esforço e dinheiro) para aceitar seus fios como eles são.

“Eu não amava meu cabelo quando eu era criança. Ele era mais claro que a minha pele, o que me fazia não amá-lo tanto assim”, disse a atriz, que é capa da revista Allure. “Eu tinha muita inveja das meninas com o cabelo mais grosso, comprido e exuberante. Quando virei pré-adolescente, eu comecei a implorar para minha mãe deixar eu fazer relaxamento no meu cabelo. Ela não deixava, mesmo que o cabelo dela estivesse desse jeito”.

Foi entre os 13 e 14 anos que a mãe de Lupita permitiu que a filha fizesse o que queria com seu cabelo.

“Eu me senti muito melhor, pois ele era mais fácil de domar. Todas as meninas da minha turma tinham feito relaxamento. Poucas tinham o cabelo natural, então, eu me sentia mais aceita”, continuou. “Meu cabelo ficou dessa maneira por boa parte da minha adolescência, e foi uma experiência completamente diferente. A manutenção é um comprometimento. Eu tinha que cuidar da aparência dele uma vez por semana e, então, retocá-lo uma vez por mês. Eu me lembro de fazer coisas doidas, como dormir com a minha cabeça acima da cabeceira da cama, para que meus cachos não bagunçassem no dia seguinte. Eu tinha essas dores terríveis no pescoço, porque eu estava determinada a deixar meu cabelo o mais intocado possível”.

Um dia, o pai da artista brincou com ela, dizendo que ela deveria raspar a cabeça. Pois bem, foi o que ela vez. A mãe não gostou tanto do que viu, mas com o tempo acabou aceitando a escolha da menina. O pai, pelo contrário, riu ao ver que ela levou o seu comentário ao pé da letra. 

“Foi como uma aposta comigo mesma: eu consigo viver sem meu cabelo? Ele raspou tudo. Foi amedrontador, mas muito libertador, pois eu fiquei completamente careca”, completou Lupita.

Ao se mudar para os Estados Unidos, a ganhadora do Oscar tinha um novo desafio para seus cabelos: além de morar em uma cidade fria do Estado do Massachusetts, ela não tinha onde cuidar de seus fios, uma vez que não havia um local especializado em cabelo afro. Isso fazia com que ela fizesse tranças em seu cabelo, quando visitava a família no Quênia, para que não tivesse que se preocupar em cuidar das madeixas enquanto estudava nos EUA. 

Hoje, Lupita diz amar seu cabelo exatamente como ele é, que seus fios estão o mais comprido que já teve em mais de uma década.

“Eu amo o meu cabelo. Eu o amo porque eu aprendi a adorar as coisas que posso fazer com ele. É como se ele fosse argila nas mãos certas. A argila pode ser suja nas mãos erradas, mas ela pode ser arte nas mãos certas”.

Transição capilar

A história de Lupita ressoa com a história de tantas outras mulheres negras. A forma negativa com a qual ela via seu próprio cabelo vem da imposição de padrões estéticos, os quais são ainda mais nocivos para mulheres que não possuem traços eurocêntricos. Mas com o crescimento das redes sociais, que permitem que todos possam ter uma voz, mais e mais mulheres negras compartilham a alegria de poder assumir seus cabelos e traços com orgulho.

Mulheres famosas como Taís Araújo e Ludmilla, por exemplo, compartilharam nas redes sociais como foi relação com seus cabelos (a segunda afirmou que foi “criada achando que cabelo crespo, cacheado e enrolado era a coisa mais feia do mundo e que aquilo não era normal”) até optarem pela transição capilar. 

Esse processo é sobre estética, mas vai muito além disso. A transição capilar também diz respeito à autoestima e identidade. Para entender melhor como ela funciona, conversei com a arquiteta Tamires Alcântara, que começou o procedimento em dezembro de 2015, e o terminou em janeiro de 2017. Hoje, ela ostenta com orgulho seus cabelos crespos.

Quando pequena, e assim como Lupita Nyong’o, Tamires tinha uma relação complicada com seu cabelo. Logo aos 6 anos começou a fazer relaxamento nos fios, cuidados por sua mãe.

“Passávamos um produto de cheiro muito forte que ficava na minha cabeça de 10 a 15 minutos, só para ‘soltar os cachos’ e facilitar na hora de fazer penteados”, recorda. “Eu me lembro que desembaraçar o cabelo para passar esse produto era muito angustiante. Eu sempre soube que minha mãe fazia pro nosso bem, mas era horrível sofrer tanto por um cabelo. Nessa época eu não escovava os fios, então só parecia que eu tinha cachos mais abertos e um cabelo menos crespo”.

A partir dos 10 anos, ela começou a frequentar um salão, também com a mãe, para fazer escova nos cabelos. A cabeleireira não era especialista em cabelos afro (o que parece ser uma dificuldade encontrada por mulheres negras em todo o mundo), “mas sabia bem como deixá-los extremamente lisos, que era o que nos interessava”.

“A rotina era a mesma: de 3 em 3 meses, nos deslocávamos até lá para alisar, vez ou outra para hidratar, seguido de um secador bem quente e depois a prancha. E assim foi a minha rotina capilar por 15 anos, dos 10 aos 25, alisando incessantemente para esconder a raiz crespa do cabelo, ter uma franja que fosse mais maleável e um cabelo que se mexesse ao vento. Tudo coisa da minha mente, porque na verdade eu só estava me anulando, fingindo estar satisfeita com um cabelo que continuava a me dar trabalho, principalmente quando ‘vencia’ o prazo do alisamento ou em dias muito úmidos”.

“Eu cresci vendo pra todo canto que o cabelo liso era o mais bonito, e que o cabelo crespo era ‘duro’ e difícil de cuidar. Quem podia me convencer do contrário? Sim, várias vezes eu perguntei ‘Deus, o que eu fiz pra ter um cabelo assim?'”, lembra a arquiteta.

A mudança na vida de Tamires aconteceu depois da troca de salão, dessa vez para um que sabia cuidar de cabelos afro.

“Quando digo que representatividade importa, é porque ela importa SIM”, ela diz, recordando também que o esforço e tempo despendidos para a manutenção dos fios alisados a fez repensar se valia mesmo a pena continuar com a prática. No novo salão, ela ouvia muitos elogios (“cheguei a ouvir o seguinte: ‘Seu cabelo é tão lindo, olha, só: de molhar a raiz ele se enrola pedindo pra voltar ao natural’, lembra), o que a ajudou a fortalecer sua autoestima. Ver outras clientes com diferentes penteados, além de fazer buscas no Youtube sobre como cuidar dos cabelos crespos e cacheados contribuíram para que ela começasse a repensar sua relação com seu cabelo.

Foi depois da formatura, em 2015, que ela deu início ao seu processo de transição capilar. 

“Minhas maiores inspirações são minhas amigas Carol e Izabel, e minha irmã Ana Carolina. A Carol começou o processo de transição capilar bem antes de mim, estando ainda na faculdade. Então, acompanhei sua transformação de cabelo alisado a cabelo natural. E a Izabel optou por deixar os cabelos naturais alguns meses antes de mim, então, percorremos parte do processo juntas”, diz Tamires. “As duas têm os cabelos cacheados, bem diferentes dos meus, mas a inspiração maior não foi em relação a aparência, mas em relação à força de vontade de continuar com o processo de transição, de não importar com o que as pessoas comentavam ou com a raiz crescendo natural e o resto do cabelo ainda liso. Minha irmã começou a transição capilar um dia depois de mim. Juntas, descobrimos a textura do nosso cabelo, nossos cachos, os melhores cremes e, o mais importante, que somos lindas ao natural”.

O processo todo levou 1 ano e um mês; cujo período é visto por Tamires como sendo “uma etapa gostosa e de muito alívio”.

“O prazer de sair de casa com os cabelos molhados em um dia muito quente, de poder correr na chuva, arrumar em pouco tempo, gastar minha tarde com outras coisas ao invés de ficar secando o cabelo, tudo isso eu só fui descobrir aos 25 anos de idade”, recorda. “Passei a entender melhor como funcionavam os meus fios, que eu podia cortar hoje para tirar algumas partes lisas mas que dali alguns meses ele estaria natural e enroladinho como era do início”.

E se Lupita Nyong’o, Taís Araújo e Ludmilla estão muitos mais felizes com seus cabelos hoje, Tamires também está com os seus. Depois de muito brigar com sua aparência, ela também aprendeu a valorizar e amar seus traços e seus fios – e serve como inspiração para tantas outras mulheres negras, e que possam estar considerando a transição capilar.

“Meu cabelo é minha identidade, minha força, é representatividade. Sinto que chegar nos lugares com ele solto é mostrar para as crianças negras que estiverem por lá, que elas podem ser como eu: felizes com seus fios naturais, sem precisar passar por tanta angústia para deixá-los adequados para a sociedade, que independente do que a gente tem por fora, o mais importante é a nossa essência”, afirma a arquiteta. “Eu quero que as pessoas entendam que não é só um tipo de cabelo que é bonito. Pode alisar, pode deixar natural, mas o mais importante é estar satisfeito consigo mesmo, sem se importar com o que foi colocado como padrão de beleza. Eu não poderia ter feito escolha melhor. Aquela criança que questionava o porquê de ter nascido com um cabelo assim, agora entende: foi um presente de Deus”.