Leslie Jones sofre ataques racistas no Twitter – e o que a rede social vai fazer a respeito?

Leslie Jones sofre ataques racistas no Twitter – e o que a rede social vai fazer a respeito?

A este ponto, você provavelmente já sabe que “Caça-Fantasmas” está nos cinemas. É um reboot do clássico da década de 80, e acusado de “arruinar as infâncias” de adultos que não entenderam que cresceram e fizeram questão de garantir que o trailer do filme fosse o mais odiado do Youtube. Tudo isso porque o elenco principal é composto por mulheres e não mais por homens. E vale destacar: mulheres brilhantes. Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e Leslie Jones têm trabalhado com comédia há anos, o que, com certeza, contribuiu para o sucesso do longa em sua estreia e para as críticas positivas.

E embora elas sejam grandes comediantes, isso não as impediu de receber uma enxurrada de comentários negativos e misóginos, que foram feitos desde o dia em que o diretor da obra, Paul Feig, anunciou seus nomes, até agora após a estreia. E além da misoginia, há ainda o racismo. Ontem (18), Leslie Jones foi cruelmente atacada no Twitter por pessoas que utilizaram ofensas racistas contra ela.

“Vou expôr tudo o que vocês estão fazendo e espero a ida das autoridades atrás de vocês, como vocês estão me perseguindo”, disse a atriz em uma mensagem.

Leslie Jones tornou-se, assim como outras mulheres negras famosas, como Taís Araújo, Cris Vianna e Maju Coutinho, mais um alvo de racismo nas redes sociais. Assim como no mundo real, a internet não está livre de preconceitos, sejam eles quais forem, podendo ainda ser algo muito maior quando um grupo ataca diretamente uma única pessoa, como aconteceu com a comediante americana. Infelizmente, ela não foi – e nem será – a única.

Um estudo feito pelo think tank Demos, em 2014, que avaliou o Twitter por um período de 9 dias em novembro de 2012, estima que 10 mil ofensas racistas são feitas por dia na rede social. Dessas, de 500 a 2.000 delas foram direcionadas a outras pessoas.

Uma parceria da organização Women, Action, & the Media (WAM!) com o microblog verificou que o discurso de ódio foi o maior tipo de assédio, seguido do compartilhamento de informações privadas de terceiros. No Brasil, segundo um levantamento da ONG SaferNet, realizado em 2014, houve um aumento de 34,15% das páginas consideradas racistas na internet, as quais surgiram principalmente durante o período de Copa do Mundo e das eleições daquele ano.

E o Twitter faz pouco para assegurar um ambiente livre de discursos de ódio, mas ao menos sabe disso. Um memorando interno que vazou no ano passado mostrou uma preocupação do ex-CEO da empresa, Dick Costolo, para conter a perseguição às pessoas – especialmente minorias – na rede social. Contudo, como se viu no caso de Leslie Jones, o microblog falhou em frear as ofensas que a comediante recebeu. Ao menos alguns tweets foram apagados, provavelmente pelo fato de que a pessoa em questão é uma celebridade.

Tradução: “Twitter, eu entendo que você tem a liberdade de expressão. Mas tem que haver algumas diretrizes quando você propaga o ódio dessa maneira”.

Há poucos meses, o Twitter atualizou a sua ferramenta de denúncia ao assédio na plataforma, porém não é o suficiente. Como resolver o problema, eu também não sei, mas como lembrou Leslie em um de seus tweets, ignorar os comentários não funciona.

Tradução: “OK, eu fui chamada de macaco, recebi fotos da bunda deles, recebi ainda uma foto com sêmen na minha cara. Estou tentando descobrir o que significa humano. Eu desisto. Parece que, quando você pensa: ‘OK, provei meu valor’, você é atingida por uma pá de ódio. Estou entorpecida. Sei que existe racismo. Mas eu fui ingênua em acreditar que algumas coisas estava mudando. Ainda vivemos em um mundo onde nós precisamos dizer: ‘as vidas dos negros importam’. Sou mais humana e real do que vocês pensam. Eu trabalho duro. Não sou diferente de qualquer um de vocês que têm o sonho de fazer o que amam”.

E se existe um pouco de amor, depois do desabafo da atriz, a hashtag #LoveForLeslieJ foi criada para oferecer algum conforto a Leslie Jones, que decidiu sair da rede social. “Eu saio do Twitter com lágrimas nos olhos e muita tristeza. Tudo o que eu fiz foi um filme. Você pode odiar o filme, mas a merda que eu recebi hoje: errado”.

Se a partida da atriz é definitiva, isso ainda é incerto. Por enquanto, torcemos para que o discurso de ódio tenha um fim no microblog. Pelo menos o atual CEO do Twitter, Jack Dorsey, deu alguma esperança. “Oi, Leslie, estou seguindo você. Me mande uma mensagem direta quando você puder”.