Lea DeLaria acredita que sapatões são as párias da comunidade LGBT

Lea DeLaria acredita que sapatões são as párias da comunidade LGBT

A série original do Netflix, Orange Is The New Black”, finalmente dedicou um de seus episódios para contar a história de Big Boo, interpretada pela atriz Lea DeLaria. Na terceira temporada, vemos o dolorido passado da personagem, que nunca teve o apoio e a aceitação dos pais por ser lésbica. Ou melhor, sapatão (butch lesbian).

Contudo, sua história pessoal tem muito a ver com aquela retratada na ficção. “Refletiu tanto a minha vida, que foi algo assustador”, revelou Lea ao TV Guide. “Mas eu te digo uma coisa, se você é sapatão como eu, temos experiências parecidas. Há muitas experiências comuns entre sapatões. As roupas são sempre uma grande luta para a gente. Eu costumava correr no domingo de Páscoa. Eu corria e me escondia, porque sabia que eles [os pais] iriam me fazer usar um vestido”, disse a atriz em referência à série, onde sua personagem é obrigada a usar vestidos durante a adolescência para agradar seus pais.

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Mas, ao contrário de “Orange Is The New Black”, seus pais deram-lhe o apoio necessário. “Eles aprenderam”, contou ela durante um painel do seriado. “Eles me escutaram de verdade. Eles se tornaram pessoas que entendem que estar confortável na minha própria pele e não pedir desculpas por ser quem eu sou é algo importante nesse mundo. E eles foram me entendendo e eu os entendendo. Nós nos amamos muito e fomos muito próximos até o dia em que ambos morreram. Essa é a única diferença entre a história de Boo e a minha. Infelizmente, a história da Boo, é muito comum. Comum demais”.

Lésbicas, em geral, são alvo de perseguição social, e as sapatões como DeLaria acabam sendo ainda mais marginalizadas por não se curvarem aos papéis de gênero, esperados para mulheres. E muitas delas sofrem uma violência cruel, que deixa marcas terríveis, física e emocionalmente. O chamado estupro corretivo, que visa mudar a orientação sexual delas. Um estudo recente e inédito, feito pela Faculdade de Medicina do ABC, mostra que 18% de mulheres lésbicas, bissexuais ou que se identificam com o gênero masculino sofreram ou vão sofrer esse tipo de violência. O Hospital Pérola Byington, Centro de Referência da Saúde da Mulher, atende ao menos uma vez por mês, uma vítima de estupro corretivo.

Não somente a família e a sociedade as excluem e violentam, como o próprio movimento LGBT também o faz, algo apontado pela própria DeLaria. “Sapatões e gays que ‘dão pinta’ demais são as párias da minha comunidade. Há muita assimilação da classe média de gays que não gostam disso [sapatões e gays afeminados]. Eles nos varrem para debaixo do carpete, como um segredo sujo…”, afirma a atriz ao TV Guide. “Precisamos superar essa auto-aversão que temos e essa homofobia internalizada. Não precisamos imitar o mundo hétero. Não precisamos imitar ninguém. Precisamos ser nós mesmos. E quanto mais aceitarmos quem somos, mais as pessoas nos aceitarão”.

Lea DeLaria acredita que sapatões são as párias da comunidade LGBT

Ainda assim, Lea DeLaria comemora as realizações da comunidade LGBT (como a aprovação do casamento igualitário em todo o território americano e a representação de homossexuais na mídia, por exemplo), e dá ao seriado parte dos créditos por isso. “O que fizemos é uma grande parte dos direitos conquistados pela comunidade LGBT, lutando por eles e conquistando nossos direitos”, afirmou a atriz durante um painel em julho passado. “É sobre conquistar os corações e mentes das pessoas, e Orange Is The New Black é uma parte importante do que tem acontecido na nossa comunidade”.

“Eu moro em Bushwick, um gueto no Brooklyn, e uma senhora de 80 anos apareceu empurrando sua neta para mim. Cinco anos atrás isso não aconteceria. É uma mudança maravilhosa e eu agradeço Orange totalmente por isso”.

Interpretando a detenta lésbica Big Boo, DeLaria (ao lado de outras personagens lésbicas da série) tem retratado aspectos da vivência lésbica. Nessa terceira temporada, por exemplo, a personagem, em uma cena de sexo, utiliza uma cinta com um pênis ao transar com uma antiga namorada. “Isso nunca foi feito na televisão antes, então isso é algo grande”, afirma a atriz ao TV Guide. O apetrecho sequer é citado durante a cena, e vale dizer que ele não tem a ver com a falta de um homem na relação sexual. “O fato de estar fazendo sexo com um dildo nesse episódio, da maneira certa, do jeito que sapatões fazem, é maravilhoso. Quero dizer, quando você vê isso, a não ser em, talvez, filmes pornôs?”, diz ela à revista Cosmopolitan.

“A que ponto chegamos, né? Parece que morri e fui ao paraíso feminista sapatão”, brincou DeLaria ao TV Guide. “Estive na televisão por 20 anos. Nós não temos que fazer nada nesse programa, exceto dizer o que está escrito no roteiro. É maravilhoso. E toda semana, a todo tempo, nós aparecemos para as filmagens que eles produzem, e é divertido, é hilário, tocante, emocionante, real e honesto. Você não vê isso nessa indústria”, lembra a atriz.

E a honestidade com que Orange Is The New Black retrata a pluralidade do ser mulher ressoa com a vida de Lea DeLaria. Recentemente, ela se despiu – em todos os sentidos – em um vídeo, onde fala abertamente sobre sua vida, a saída do armário, carreira e seu orgulho em ser gorda. “Sou uma mulher gorda. Ponto final. Vivemos numa sociedade gordofóbica, que espera, principalmente das mulheres, certas coisas, especialmente algo sobre o peso delas. E é uma merda”, diz a americana em determinado momento. “A obesidade é um problema. Eu sei disso. Ela causa várias coisas que as pessoas precisam se conscientizar, certo? Mas o outro lado da moeda é que a maioria das vezes ela é genética e não há nada de errado com isso. Simples assim. Ser gorda não é feio. Na verdade, é muito bonito”.

Aos 57 anos, DeLaria diz que a maior realização de sua vida foi “chegar onde cheguei, nessa indústria, sem nunca estar dentro do armário”. Ela, que é uma das poucas sapatões com grande visibilidade na mídia, prepara-se, agora, para se casar com sua noiva, a editora de moda Chelsea Fairless. A atriz confessou à revista Out que fará um grande casamento. “Não há nada que possamos fazer sobre isso”, brincou. “Sou italiana! Chelsea terá uns 10 convidados e eu terei 60. E há ainda o elenco e a equipe [de Orange Is The New Black] e os amigos. Mas vamos tentar ter menos de 200 convidados”.

Por fim, a atriz deseja que a conotação “sapatão” perca o sentido negativo e que as mulheres como ela recusem ser invisíveis, assim como Big Boo faz no seriado. “Eu lutei por isso por toda minha vida”, diz a personagem a seu pai no episódio em que sua história é contada. “Estranhos, namoradas, porra, até contra meus pais. Todos pedindo para que eu seja algo que eu não sou. Tem ideia de como é isso? Toda sua existência ser negada? ‘Opa, seria melhor se você fosse invisível’. Bem, eu me recuso a ser invisível, pai. Nem por você, nem pela mamãe, nem por ninguém”.

Lea DeLaria acredita que sapatões são as párias da comunidade LGBT

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