É inaceitável que Kevin Spacey assuma-se gay para se proteger das acusações de assédio sexual

31. outubro 2017 Famosos 0
É inaceitável que Kevin Spacey assuma-se gay para se proteger das acusações de assédio sexual

Desde que os casos de abuso, assédio sexual e estupro envolvendo o produtor Harvey Weinstein começaram a surgir, mais e mais mulheres tiveram coragem de denunciar seus agressores. Não só elas, alguns homens também optaram por romper com o silêncio e relataram suas histórias, como foi o caso de Terry Crews e, mais recentemente, Anthony Rapp.

Rapp é assumidamente gay, atua no seriado “Star Trek: Discovery” e ficou conhecido por estrelar a peça “Rent”, na Broadway. Na noite de domingo (29), ele revelou ao Buzzfeed News que o também ator Kevin Spacey fez “avanços sexuais” contra ele quando tinha apenas 14 anos. Hoje, aos 46 anos, o artista resolveu abrir sua história.

Anthony conheceu Kevin em 1986, quando atuava na peça “Precious Sons”. Tempos depois, o Frank Underwood de “House of Cards” convidou o então garoto de 14 anos para uma festa em seu apartamento. Segundo recordou, ele era o único adolescente no local e o evento estava entediante. Tarde da noite, quando percebeu que todos haviam embora menos ele, Rapp tentou sair do apartamento, mas foi impedido por Spacey.

Trecho do Buzzfeed News a seguir:

“Lembro que pensei: ‘todo mundo se foi. Bem, eu também deveria ir para casa’, disse Rapp. Spacey, ele recorda ‘estava parado na entrada, balançando. Minha impressão quando ele veio ao quarto foi que estava bêbado’. Rapp não lembra de Spacey dizer alguma coisa para ele. Em vez disso, Rapp disse que ‘ele me ergueu como um noivo pega uma noiva na soleira. Mas eu não escapei dali inicialmente, porque eu pensava: ‘o que está acontecendo?’ E aí ele deitou em cima de mim. Ele estava tentando me seduzir’, disse Rapp. ‘Eu não sei se eu usaria esse linguajar. Mas eu estava consciente de que ele estava tentando fazer sexo comigo’.

Rapp recorda como tudo aconteceu – Spacey aparecer na porta, ir até o quarto, levantá-lo e colocá-lo na cama – em uma ação desajeitada, com Spacey em cima dele. Ele disse que Spacey ‘estava pressionando em mim’, e que lembra que Spacey estava ‘fazendo força com seus braços’. Mas embora não se lembre quanto tempo Spacey ficou em cima dele, Rapp contou que conseguiu escapar pouco depois”.

Na mesma noite em que a entrevista de Anthony Rapp foi divulgada, Kevin Spacey soltou uma nota, afirmando que estava “horrorizado” ao ouvir a história dele, mas que não tem lembranças desse encontro. “Porém, se eu me comportei da forma como ele descreve, eu devo a ele a mais sincera desculpa por algo que foi um comportamento de bêbado”. 

E se essa não já não é uma forma problemática de pedir desculpas (afinal, ele transfere para o álcool a culpa por seus atos), o ator ainda completou sua nota revelando o que há muito tempo se especulava: ele é homossexual. “Eu amei e tive encontros românticos por toda a minha vida com homens e agora escolho viver como um homem gay”.

Essa é a pior forma para ‘sair do armário’ que já vi. No geral, esse é um momento de celebração e de orgulho de quem somos. Porém, Kevin Spacey só o fez para ter o controle da narrativa midiática e desviar o foco das acusações de assédio sexual e pedofilia. Ele não é a vítima aqui, mas Anthony Rapp, que contou ao Buzzfeed que até hoje fica mal ao ver a cara do homem que tentou abusar dele quando era adolescente.

Há anos especula-se sobre a sexualidade de Spacey, mas ele sempre evitou falar sobre o assunto ou dizia frases vagas sem realmente admitir sua orientação sexual. E tudo bem. Revelar sua orientação sexual é algo particular de cada um, apesar de que é muito positivo quando grandes personalidades o fazem, pois permitem um outro olhar para a comunidade LGBT. Não só isso, eles fazem com que a própria comunidade possa ver que há um mundo de possibilidades esperando por eles também.

Mas Kevin nunca admitiu nada antes, seja por medo de ferir sua carreira, ou apenas por conveniência, o ator teve uma trajetória brilhante, mas pouco fez pelas vidas de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans. Agora que é oportuno dizer a verdade, ele usa a “carta” da orientação sexual para desviar a atenção e ganhar a empatia do público, principalmente de LGBTs.

Porém, isso não vai acontecer, uma vez que a declaração do artista ganhador de 2 prêmios Oscar foi muito mal recebida. E não apenas porque é nítida sua tentativa de escapar de qualquer acusação contra ele, mas porque suas palavras reforçam um estereótipo perigoso que confunde homossexualidade e pedofilia. 

Essa é uma das maiores lutas que travamos com a sociedade: que ela entenda que nós não somos abusadores de crianças ou pervertidos. Mas Kevin faz nossos esforços irem na contramão ao assumir-se gay ao mesmo tempo em que precisa lidar com acusações de assédio contra um homem que era apenas um garoto quando se conheceram. É inaceitável essa atitude do ator. 

Se a questão envolvendo sua orientação sexual fosse realmente importante, então, ele teria assumido anos antes, dando fim às especulações sobre sua vida pessoal. Mas, orientado por uma equipe precisa correr para salvar sua imagem, usou uma comunidade vulnerável para se apoiar e ganhar o controle sobre a forma como a mídia e as pessoas conversam sobre ele. É uma tática grosseira, irresponsável e até cruel, pois não se importa com as vidas de LGBTs que não têm os mesmos privilégios e tampouco podem escolher quando vão ‘sair do armário’.

Não vamos nos iludir: a história de verdade é a de Anthony Rapp. São suas palavras e sentimentos que precisam ser amplificados. Kevin é quem precisa escutar e se responsabilizar por seus atos.


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