Kerry Washington: “Ser representada é ser humanizada”

Kerry Washington: “Ser representada é ser humanizada”

Kerry Washington, a querida Olivia Pope do seriado “Scandal”, foi homenageada com o prêmio de “Vanguarda”, no GLAAD Media Awards, premiação que reconhece representações da comunidade LGBT, no dia 21 de março.

Ao subir ao palco, a atriz fez um lindo discurso sobre interseccionalidade, a importância de histórias inclusivas e de respeito à individualidade de cada um.

“Vou dizer algumas coisas”, começou Washington, “e pode parecer que eu estou tentando convencê-los de algo que vocês já concordam, mas vou dizer assim mesmo. Não só por nós, mas porque na segunda-feira de manhã, as pessoas clicarão num link para ouvir o que aquela mulher da série “Scandal” disse numa premiação. Então, eu acho que algumas coisas precisam ser ditas”.

“Não temos acessos iguais à educação, ao sistema de saúde ou outras liberdades básicas, como casamento, um processo eleitoral justo e um sistema de contratações justo. Agora, você deve achar que nós, que fomos separados de todos os nossos direitos como cidadãos, iríamos nos unir e lutar a luta justa… Mas a história nos diz que não. Frequentemente, nós não nos unimos.

Mulheres, pessoas pobres, negros, pessoas com deficiência, homens gays, lésbicas, pessoas trans, pessoas interseccionais – nós fomos colocados uns contra os outros e nos fizeram sentir que há assentos limitados na mesa para aqueles de nós que fazem parte da categoria ‘outro’. Como resultado, ficamos com medo um dos outros.

Nós competimos uns com os outros, julgamos uns aos outros. Às vezes, traímos uns aos outros. Às vezes, dentro da nossa própria comunidade, escolhemos quais de nós são melhores para nos representar, e quem não deveria nem ser convidado para a festa.

Enquanto somos os ‘outros’, somos ensinados que, para ter sucesso, é preciso rejeitar aqueles ‘outros’, ou então nunca pertenceremos.

Sei que recebo esse prêmio por interpretar segmentos da sociedade que, em geral, são deixados à margem. Mas como mulher e como negra, eu nem sempre tenho muita escolha sobre isso. Mas eu também fiz a escolha de participar de histórias da comunidade LGBT, escolhi interpretar diferentes tipos de pessoas em diferentes situações. Na minha carreira, nunca tive medo de fazer papéis de pessoas que são julgadas, mal-interpretadas e que não tiveram acesso total à cidadania como seres humanos.

Mas aqui vai uma grande ironia: eu não decido fazer minhas personagens como uma escolha política. Ainda assim, minhas personagens acabam se tornando afirmações políticas, porque ter sua história contada, enquanto mulher, enquanto negra, enquanto lésbica, pessoa trans, ou qualquer outra minoria, ainda é uma ideia muito radical.

Há muito poder em story telling; há muito poder em um story telling inclusivo e representações inclusivas. Precisamos de mais representação da comunidade LGBT na mídia, precisamos de mais personagens LGBT e mais histórias sobre pessoas LGBT. Nós precisamos de uma representação mais diversa de personagens LGBT. E quando digo isso, quero dizer: muitos outros personagens LGBT, vivendo todo tipo de vida. Isso é importante: precisamos contratar mais pessoas LGBT para trabalhar na frente e atrás das câmeras.

Em 1997, quando a Ellen fez sua famosa ‘declaração’, os Estados Unidos passaram o ‘Defense of Marriage Act’ [uma lei que permitia aos Estados dos país a recusarem-se a reconhecer o casamento homoafetivo realizado em outros Estados] alguns meses antes, onde casamentos civis não eram legais em outro Estado. Mas vamos lembrar também que, 30 anos antes, a Suprema Corte decidia que a proibição do casamento inter-racial era inconstitucional. Desde então, pessoas heterossexuais, dos dois sexos, podiam casar com quem quisessem. Então, quando negros me dizem, hoje, que não acreditam em casamento gay [faz uma cara de ‘não faz sentido, né?’], a primeira coisa que eu digo é ‘por favor, não deixe ninguém fazer você votar contra seu próprio interesse ao alimentar essas mensagens de ódio’.

E então eu digo: ‘as pessoas costumavam a dizer a mesma coisa para você e seu amor. E se nós deixarmos o governo legislar sobre amor durante nossa época, quem você acha que é o próximo?’. Não podemos dizer que acreditamos na humanidade de outra pessoa, se virarmos as costas para a realidade, a existência e às verdades dos corações de outras pessoas. Precisamos ser aliados. E precisamos ser aliados nessa indústria, porque ser representada é ser humanizada.

E enquanto houver alguém em algum canto sentindo-se menos humano, nossa própria definição de ‘humanidade’ está comprometida e estaremos todos vulneráveis. Precisamos enxergar o outro, todos nós, e precisamos enxergar a nós mesmos. E precisamos continuar sendo corajosos, a quebrar paradigmas, até que as coisas sejam como são. Até que não sejamos mais os ‘primeiros’, ‘exceções’, ‘raros’ e ‘únicos’. No mundo real, ser o ‘outro’ é a norma. No mundo real, o normal é ser singular, e a mídia precisa refletir isso. Obrigada ao GLAAD por lutar a boa luta. Deus os abençoe”.

Depois de Shonda Rhimes, temos mais uma mulher para adorarmos, né? Obrigado, Kerry Washington! <3