Kerry Washington defende cena de aborto exibida em “Scandal”

01. fevereiro 2016 Televisão 0
Kerry Washington defende cena de aborto exibida em “Scandal”

[Este texto contém spoilers da quinta temporada de “Scandal”]

Kerry Washington, a Olivia Pope da série “Scandal” não tem medo de se envolver com política, seja na atração televisiva criada por Shonda Rhimes, seja na vida real. “Para mim, política é algo muito pessoal”, ela conta à revista Women’s Wear Daily. “A política não é essa ideia abstrata. As leis são as regras que ditam como vivemos nossas vidas. O que comemos é  político. Como nos vestimos é político. Onde vivemos é político. Todas essas coisas são influenciadas por decisões políticas, e é importante ser parte do processo”, acredita a atriz graduada em sociologia e antropologia pela Universidade George Washington.

Seu envolvimento com a política já a levou a trabalhar numa comissão de ‘artes e humanidades’ do presidente Barack Obama. “Comecei a trabalhar na casa Branca de verdade muito antes de trabalhar na Casa Branca de mentira”, ela diz em referência ao seriado “Scandal”.

E através de sua personagem na atração televisiva, Kerry tem conseguido trazer temas “complicados” para rodas de discussão fora das telas, como foi o caso do aborto realizado por Olivia Pope no último episódio antes da pausa da série, exibido em novembro passado, nos Estados Unidos. Nele, a gerente de gestão de crises descobre que está grávida de Fitz Grand (Tony Goldwyn), presidente fictício do país.

A cena do aborto é curta, mas não passou sem críticas dos telespectadores. Entretanto, a exibição do procedimento e da escolha de Olivia Pope em realizá-lo foram defendidos por Kerry Washington. “[O aborto] é uma realidade e é, em várias ocasiões, uma escolha muito difícil de se fazer. Foi assim para a Olivia também”, contou a atriz à Women’s Wear Daily, acrescentando que é preciso que esses momentos sejam exibidos pela mídia. “Ao não vê-los, temos uma ideia de que há algo vergonhoso a ser conversado. É importante que nossas histórias reflitam as experiências humanas”, concluiu. Ela também agradeceu a Shonda Rhimes por não ter medo de tocar em tópicos considerados tabus.

Em 2014, Shonda falou sobre o aborto na mídia para a revista TIME. “É uma questão polarizadora, obviamente”, disse a criadora da série. Para ela, a televisão pode começar conversas importantes em níveis nacionais, os quais produtores não deveriam ignorar. “Por ser uma questão polêmica, porque as pessoas estão debatendo-a, ele [o aborto] deve ser discutido. E eu não sei por que isso não acontece.”

Nos Estados Unidos, o aborto é um direito de todas as mulheres, diferente do que acontece no Brasil (ele é apenas legal em caso de estupro, anencefalia e quando a gravidez oferece risco de morte à mãe), apesar de que o procedimento acontece em clínicas clandestinas, o que leva à morte de muitas mulheres no país, sendo a maioria delas negras e pobres. Nossa mídia poderia tocar no assunto de uma maneira verdadeira, de forma que incentivasse um debate nacional acerca do tema, tirando o estigma sobre o procedimento e sobre as mulheres que recorrem a ele.

No ano passado, o “Profissão Repórter”, da Rede Globo, até dedicou um programa inteiro sobre o aborto, contudo, muito do espaço dado foi para pessoas contrárias à prática, o que não é bem fomentar uma boa discussão sobre o tema, mas culpabilizar ainda mais as mulheres que precisam dele.

É por isso que o exemplo da série “Scandal” foi muito positivo, afinal, não escondeu uma realidade para diversas mulheres, ainda mais se tratando de uma mulher negra. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, são elas a maioria das mulheres que recorrem ao aborto, entretanto, não são elas quem passam por ele nas séries televisivas americanas, mas mulheres brancas e ricas, como evidencia um estudo sobre a representação do procedimento na mídia.

Abortos não determinam o caráter da mulher que precisa dele, tampouco são motivo para vergonha. A cena em ‘Scandal’ foi curta, mas suficiente para tocar num assunto que precisa ser conversado e mudar as percepções sociais acerca de quem recorre a ele.

Bom trabalho, Kerry Washington e Shonda Rhimes!