Katy Perry pede desculpas por apropriação cultural: “eu estou me educando”

Katy Perry pede desculpas por apropriação cultural: “eu estou me educando”

Desde que lançou seu mais recente álbum, “Witness”, na sexta-feira passada, Katy Perry se manteve trancada em uma casa cheia de câmeras (uma experiência a la “Big Brother Brasil”), mostrando como é o seu dia a dia, e oferecendo um olhar mais próximo de quem ela realmente é quando não está vestindo a persona que criou desde que começou sua carreira.

No local, a cantora tem promovido conversas interessantes sobre uma variedade de assuntos, os quais cobrem doenças mentais, direitos LGBT, feminismo, auto-cuidado, política e racismo. Sobre este último tópico, se você acompanha o trabalho da artista, provavelmente sabe que ela foi acusada de apropriação cultural não só uma vez, mas várias vezes

Em 2013, durante o American Music Awards, Katy apresentou sua nova música na época, “Unconditionally”, e fez uma performance vestida de gueixa, em um cenário que apresentava referências chinesas e japonesas. No clipe de “Dark Horse”, ela utilizou a cultura egípcia para montá-lo, enquanto em “This Is How We Do”, a cantora usou penteados de pessoas negras sem se importar com o quanto aquilo ofendia a população que é sempre mal vista quando usa o mesmo estilo de cabelo.

Esses são alguns dos exemplos que mais chamam a atenção, mas em outros momentos, ela já utilizou um bindi [apetrecho indiano colocado no local do ‘terceiro olho’] e usou roupas de indígenas em uma de suas idas ao Coachella.

Quando questionada sobre apropriação cultural pela revista Rolling Stone, em 2014, Katy Perry ficou na defensiva e afirmou que sua intenção era de “apreciar” culturas, uma desculpa que muita gente ainda usa até hoje.

“Acho que vou ficar apenas com o basebol e cachorro-quente. É isso”, ela disse. “Sei que essa é uma frase que vai me ferrar depois, mas não se pode mais apreciar uma cultura? Todos temos que ficar nas nossas próprias linhas? Eu não sei”.

Esse é um discurso ofensivo e que incomodou muita gente. Mas, aparentemente, a voz de “Chained to the Rhythm” mudou de opinião sobre o assunto, graças a uma amiga que a ensinou o que significa apropriação cultural.

“Veja, eu cometi muitos erros”, ela disse em entrevista para o podcast de DeRay Mckesson, do movimento Black Lives Matter, durante o último final de semana. “Até no meu clipe ‘This Is How We Do’, sobre como eu usei meu cabelo. Eu tive uma conversa com uma de minhas anjas empoderadas, Cleo [Wade], sobre o por que de eu não poder usar meu cabelo daquela maneira, ou a história por trás daquele penteado. E ela me falou sobre o poder nos cabelos das mulheres negras, como ele é lindo e a luta que elas enfrentam. E eu ouvi. Eu não sabia. Eu nunca vou entender algumas coisas, por ser quem eu sou. Eu nunca vou entender, mas eu posso me educar. E isso é o que eu estou tentando fazer”.

Mais tarde DeRay perguntou se ela entendia as críticas que recebeu, e a cantora respondeu que tinha “muitos privilégios brancos”. Depois, a cantora falou sobre sua apresentação vestida de gueixa. 

“Quando eu tive a intenção de apreciar a cultura japonesa, eu fiz de maneira errada com uma performance. E eu não sabia que tinha errado até ouvir as pessoas dizerem isso. Às vezes, é preciso que alguém diga, com compaixão e amor: ‘ei, essa é a origem disso, entende?’ E não virem apenas com respostas prontas. Às vezes, é difícil ouvir isso, e seu ego só quer virar a cara para elas. Eu tive muita sorte de ter bons professores e amigos que vão me responsabilizar, mesmo quando eu dizia que não era feminista, porque eu não sabia o que significava aquela palavra. Uma pessoa me pegou e não me fez passar vergonha ou me julgou. Minha amiga me disse: ‘querida, eu te amo. Eu só quero te mostrar o que diz o dicionário sobre o que é ser feminista. E é igualdade”.

Depois de assistir a esse pequeno trecho da entrevista, tenho algumas observações a fazer. Primeiramente, é extremamente positivo que Katy Perry, uma das maiores pop stars do planeta, esteja disposta a reconhecer seus erros e pedir desculpas. Não é muito comum, ainda, que celebridades façam essa reavaliação de postura, portanto, é bacana ver alguém com tanta influência disposta a ter uma conversa sobre seu complicado histórico envolvendo raça.

Isso não quer dizer, porém, que não há problemas na fala da cantora. Embora ela reconheça seus privilégios e erros, ela fala como se os grupos marginalizados tivessem sempre que ser gentis para chamar sua atenção para questões importantes. Embora eu, pessoalmente, acredite no poder da gentileza, essa não é uma obrigação que grupos oprimidos devam assumir, pois muitas pessoas estão cansadas de ser invisibilizadas e não ter suas vozes escutadas. E, vale lembrar, que Katy Perry possui muitos recursos e uma grande equipe para ajudá-la a tomar decisões, logo, ela não pode sempre jogar a carta da inocência e pedir desculpas. Afinal, depois de ser criticada várias vezes pelo mesmo erro, o pedido de desculpas pode parecer superficial. Esse é um ponto que ficou na orelha de muitas pessoas no Twitter. 

Por fim, cabe uma dúvida: será que a conversa com DeRay Mckesson teria sido diferente, caso fosse uma mulher negra entrevistando-a? Para muitos, a discussão poderia ter sido outra, mas o apresentador do podcast foi ao Twitter pedir para que ouvissem toda a entrevista, e não apenas alguns minutos de um bate-papo.

Tradução: “Eu convidei Katy Perry para conversar no podcast, por conta de seu papel na campanha presidencial da Hillary Clinton, como ela vê arte + ativismo e seu passado sobre raça. Eu convidei Katy, como fiz com muitos outros em março e abril, quando o podcast finalmente foi lançado. Todas as agendas levaram a esse final de semana”.

Tradução: Pelo que eu vi até agora, parece que há dois minutos de uma hora de entrevista no Twitter. Eu encorajo todos a assistir tudo. Agora, eu sempre entendi a forma como nós falamos/pensamos sobre o mundo como uma parte de qualquer mudança, especialmente com artistas, por isso a convidei”.

Tradução: Eu comecei a conversa com a Katy sobre seu trabalho na campanha da Hillary Clinton e por que ela sente que precisa usar sua plataforma para causas. E eu perguntei a ela sobre sua criação religiosa. Eu não sabia como ela foi criada até eu perguntar. Ainda estou processando essa parte da conversa. E, sim, nós falamos sobre raça, apropriação, o que ela está fazendo para crescer e aprender. E eu perguntei uma/duas perguntas sobre música”.


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