Para Jessica Chastain, a representação feminina nos filmes do Festival de Cannes foi “perturbadora”

Para Jessica Chastain, a representação feminina nos filmes do Festival de Cannes foi “perturbadora”

Jessica Chastain foi um dos nomes do juri do Festival de Cannes deste ano, que ficou marcado pela polêmica envolvendo a Netflix e o cinema tradicional, e pelo histórico prêmio dado a Sofia Coppola, vencedora na categoria de Direção. Em mais de 70 anos, ela foi apenas a segunda mulher a receber tal reconhecimento, o qual foi dado pela primeira vez em 1961 à cineasta Yuliya Solntseva (com o filme “Chronicle of Flaming Years”).

Na edição de 2017, além de Coppola, somente outras duas mulheres concorreram na competição principal: “Radiance”, de Naomi Kawase, e “You Were Never Really Here”, de Lynne Ramsay. É um número baixo, mas que não difere muito dos anos anteriores em Cannes ou em Hollywood. 

E a falta de mulheres trabalhando como diretoras, roteiristas e produtoras no cinema afeta a forma como as histórias são contadas – especialmente histórias sobre mulheres. É o que apontou um estudo divulgado no ano passado: quanto mais mulheres houver atrás das câmeras, melhor é a representação feminina na frente delas.

Essa é a preocupação de Jessica Chastain, que em uma coletiva de imprensa depois do festival de cinema francês, criticou a forma como as mulheres foram representadas nos filmes que teve de avaliar neste ano.

“Essa foi a primeira vez que eu assisti 20 filmes em 10 dias, e eu amo filmes. E uma coisa que eu vou realmente levar comigo dessa experiência é como o mundo vê as personagens femininas. Como eu as vi representadas, para ser sincera, foi muito perturbador”, disse a atriz. “Com algumas exceções”, completou.

“Na maioria das vezes, eu fiquei surpresa com a representação de personagens femininas nesses filmes. E eu espero que, quando incluirmos mais mulheres para contar histórias, teremos mais mulheres que eu conheço do meu cotidiano: proativas, com suas próprias agências, que não vivem pelos homens à sua volta, que têm as suas próprias opiniões”, concluiu.

A falta de diretoras no cinema foi uma das discussões em Cannes neste ano, em parte por conta de Nicole Kidman, que apresentou quatro projetos diferentes no festival, sendo dois deles dirigidos por mulheres (incluindo “O Estranho Que Nós Amamos”, de Sofia Coppola). A atriz afirmou que colaborará com diretoras a cada 18 meses.

“Essa é a única maneira de mudar as estatísticas, quando outras mulheres começarem a dizer que vão escolher uma mulher. Então, a cada 18 meses, é preciso ter uma diretora na equação”, disse a artista. “Nós, enquanto mulheres, temos de apoiar as diretoras. Com esperança, isso vai mudar com o tempo. Todo mundo continua dizendo que as coisas estão diferentes agora, mas não estão”.

Segundo um levantamento feito pela Iniciativa de Mídia, Diversidade e Mudança Social, da Escola Annenberg de Comunicação, mostra que o percentual de mulheres assinando a direção de filmes entre 2007 e 2016 não variou muito, ficando entre 4% e 5% (no ano passado ficou em 4,2%).

A figura é ainda mais desanimadora para mulheres de minorias étnicas, que são praticamente apagadas por Hollywood: das 45 obras cinematográficas lançadas no período, apenas 3 foram dirigidas por mulheres negras e outras 3 por asiáticas.

Essa não foi a primeira vez que Jessica Chastain cobrou melhores condições de trabalho para mulheres. Além de se manifestar pela igualdade salarial entre homens e mulheres em Hollywood, a indicada ao Oscar também ajudou a criar uma produtora voltada para produções feitas para e sobre mulheres, e escreveu um texto para a revista The Hollywood Reporter sobre a importância de mulheres atuando atrás das câmeras.

“Algumas pessoas talvez digam que uma mulher não pode dirigir isso, ou que um homem não pode dirigir aquilo. Eu não gosto disso. Olhe para a Kathryn Bigelow: ela faz filmes incríveis de ação. Ou Anthony Minghella, que dirigiu os mais lindos e sensíveis romances”, disse a artista. “Para mim, o sexo não diz a forma como alguém dirige – mas eu sei que quando você tem um cenário com um gênero predominante, seja ele masculino ou feminino, esse não será um lugar saudável. Eu imagino que seja igual em qualquer ambiente de trabalho: quando você tem ambos os gêneros representados, então você tem um ponto de vista mais saudável. Essa energia é ótima, todos trabalhando juntos como uma comunidade, e todos participam da troca de ideias. Você não sente uma hierarquia, você não vê ninguém se sentindo excluído ou assediado ou humilhado. Às vezes, ao ser a única mulher em um set de filmagem, você se sente como um objeto sexual”.


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