Já faz tanto tempo…

Já faz tanto tempo…

Já eram quase 18 horas da tarde; hora do espetáculo da natureza. Era assim que Clara se referia a melhor hora do dia: o pôr do sol. Depois de um dia corrido, ela se daria ao prazer de fazer algo que gostava. O dia começou como todos os outros: levantou cedo para o trabalho. À tarde, levou a mãe para uma consulta no médico. Voltou ao escritório, depois buscou a mãe e, então, ficou com ela até agora pouco. Estava tão cansada, que foi ao seu local preferido do parque da cidade para ver o sol se pôr. E o curso de inglês que fazia às quartas-feiras ficava bem ao lado. Logo, já estava perto da última obrigação do dia.

Pelo vento gelado que batia seu rosto, seria mais uma noite gelada de inverno. Ela não se importava; sempre gostou do frio. Ainda bem que levou um casaco a mais. “Mãe é mãe, né?”, pensou consigo. E o sol ia se pondo. “Daria uma bela foto no Instagram”, refletiu. Pegou o celular, mas guardou-o na bolsa. Não queria dividir com centenas de pessoas aquele momento. Era seu momento. Nem tudo o que fazia precisava ser compartilhado.

Fechou os olhos por dois segundos e sentiu de novo a brisa bater no rosto. Tão logo os cerrou, as preocupações do dia seguinte entraram em sua mente: trabalho, compras de supermercado e jantar com as amigas.

Um tempo só para ela, como este, estava ficando raro. Nem os finais de semana ela não tinha mais, afinal, tinha namorado, o João. Estão juntos desde a faculdade. 6 anos já. O namoro não vai bem. Clara não sabe dizer o que mudou, mas parece que o encanto deu uma diminuída. Ou será que sumiu? O fato é que não tem se sentido como antes. Talvez fossem as cobranças que chegaram com a idade? Ela tem 28 anos e as imposições sociais vieram junto com o fim da vida acadêmica: uma carreira bem sucedida, dinheiro, casamento, filhos…

E tudo piorou depois que as amigas começaram a casar. O jantar de amanhã é justamente para ouvir tudo o que a Luiza tem para contar sobre a lua-de-mel na África do Sul. De repente, o casamento, que era algo tão distante e incerto, agora, para Clara, virou uma cobrança diária. Os pais, o irmão, as amigas, todos querem saber quando ela vai finalmente casar. “Nunca”, pensava com raiva.

Então, quando tinha a oportunidade de cultivar esses momentos onde ela podia ficar sozinha e fazendo algo que gosta, ela o fazia. Clara merecia. O dia-a-dia ficou tão corrido e as obrigações, que eram tão distantes, agora batiam incansavelmente à sua porta.

O sol foi embora.

As luzes do parque foram acendendo. Era hora de cumprir a última etapa do dia: a aula de inglês. No caminho até o carro, reparou que o vento derrubou várias folhas secas das árvores. Como era gostoso pisar sobre elas e ouvi-las quebrando sob seus pés. Sorte grande: duas coisas que gostava de fazer num dia só. Momentos como esses, fazendo algo que lhe agrada e sozinha têm sido raros. Fazia tempo que não assitia ao pôr do sol. Fazia tempo que não pisava em folhas secas. Fazia tempo que virara adulta.


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