Já faz 30 anos desde que uma mulher negra venceu o Globo de Ouro de ‘Melhor Atriz em Filme Dramático’

08. janeiro 2017 Cinema 0
Já faz 30 anos desde que uma mulher negra venceu o Globo de Ouro de ‘Melhor Atriz em Filme Dramático’

O Globo de Ouro acontece no próximo domingo (8), premiando os melhores do cinema e da televisão americana, segundo a Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood.

Em 2017, o evento chega à sua 74ª edição, fazendo mais pela diversidade do que o Oscar fez em tempos recentes, mas de maneira geral, ainda há muito o que melhorar. No que diz respeito à quantidade de diretoras que receberam o Globo de Ouro, o número é muito baixo: apenas uma, Barbra Streisand, em 1984, pelo filme “Yentl”. Ao todo, somente 5 mulheres foram indicadas na categoria, e como nenhuma foi indicada neste ano, Barbra permanecerá uma vencedora solitária.

A situação não melhora muito na categoria de roteiro: até hoje, apenas 21 mulheres foram indicadas, sendo que somente 7 delas foram vencedoras. E no que diz respeito às categorias de atuação, caso elas não fossem divididas por gênero, é possível afirmar que pouquíssimas atrizes receberiam indicações.

E olhando de perto as categorias de atuação em ambos os gêneros, quando se trata de raça, é nítida a falta de diversidade dentro do Globo de Ouro. Em 1986, Whoopi Goldberg se tornou a primeira e única mulher negra a vencer na categoria ‘Melhor Atriz em Filme Dramático’, por seu trabalho em “A Cor Púrpura”. Em 2017, quase 31 anos depois, Ruth Negga, que atuou em “Loving”, pode vir a ser sua sucessora. Porém, de acordo com as previsões da mídia americana, é pouco provável que ela repita o feito de Goldberg.

Na verdade, a premiação possui um histórico de ‘desprezo’ pelo trabalho de artistas negras. Em 74 anos, somente 8 mulheres negras concorreram na categoria de ‘Melhor Atriz em Filme Dramático’: a primeira foi Claudia McNeil, em 1962, por “A Raisin In The Sun”. Depois dela, vieram Diana Ross (1973, com “O Ocaso de Uma Estrela”), Cicely Tyson (1973, com “Sounder – Lágrimas de Esperança”), Whoopi Goldberg, Halle Berry (2002, com “A Última Ceia”; e 2011, com “Frankie & Alice”), Gabourey Sidibe (2010, com “Preciosa”), Viola Davis (2012, com “Histórias Cruzadas”) e Ruth Negga (que concorre neste ano com “Loving”).

E quando se trata de mulheres latinas e asiáticas, elas ainda receberam bem menos indicações. Fernanda Montenegro (1999, com “Central do Brasil”), Salma Hayek (2003, com “Frida”) e Ziyi Zhang (2006, com “Memórias de Uma Gueixa”) foram as únicas. Todas as outras foram mulheres brancas e poucas negras. E isso não quer dizer que elas não mereceram os prêmios e indicações que receberam, mas existe uma persistente desvalorização do trabalho de mulheres negras, latinas, asiáticas e de outras minorias étnicas.

Já entre os homens, mais atores negros concorreram ao Globo de Ouro, mas vale dizer que dois deles colecionam várias indicações ao prêmio: Denzel Washington possui 7, a última veio neste ano, no qual concorre por sua performance no filme “Fences”. Ele venceu uma vez, em 2000, com o longa “The Hurricane – O Furacão”. Em seguida, vem Sidney Poitier, que recebeu 5 indicações em sua carreira, levando o troféu para a casa em 1964, com “Uma Voz nas Sombras”, mesma produção que deu a ele seu primeiro Oscar.

Além deles, outros atores negros que concorreram por suas atuações em ‘Filmes Dramáticos’ foram James Earl Jones (1971, com “A Grande Esperança Branca”), Dexter Gordon (1987, com “Por Volta da Meia Noite), Forest Whitaker (1989, com “Bird”; e 2007, com “O Último Rei da Escócia”), Morgan Freeman (1995, com “Um Sonho de Liberdade”; e 2010, com “Invictus”), Djimon Hounsou (1998, com “Amistad”), Will Smith (2002, com “Ali”; 2007, com “À Procura da Felicidade”; e 2016, com “Um Homem Entre Gigantes”), Don Cheadle (2005, com “Hotel Ruanda”), Chiwetel Ejiofor (2014, com “12 Anos de Escravidão”), Idris Elba (2014, com “Mandela”) e David Oyelowo (2015, com “Selma”).

Até hoje, somente um ator asiático foi indicado na categoria: John Lone, em 1988, pelo filme “O Último Imperador”.

A diversidade é relativamente maior entre os artistas indicados em ‘Melhor Ator/Atriz em Filme de Comédia ou Musical”. Contudo, mais uma vez, há menos mulheres de minorias étnicas concorrendo do que homens.

Ao todo 9 mulheres, entre negras, latinas e asiáticas, concorreram na categoria, sendo que apenas uma, Angela Bassett, venceu. Ela disputou o troféu em 1994, com o filme “Tina”.

Já entre os homens de minorias étnicas, 12 concorreram, dos quais 3 saíram vencedores: o mexicano Cantinflas, em 1957, por “A Volta ao Mundo em 80 Dias”; Morgan Freeman, em 1990, por “Dirigindo Miss Daisy”; e Jamie Foxx, em 2005, por “Ray”, mesmo filme que deu a ele o Oscar no mesmo ano.

E eis uma fato surpreendente (ou não): enquanto artistas de minorias étnicas são poucos entre os indicados em papéis principais, eles já são mais numerosos na categoria ‘Melhor Ator/Atriz Coadjuvante’.

Com as indicações deste ano para Viola Davis (“Fences”), Naomi Harris (“Moonlight”) e Octavia Spencer (“Estrelas Além do Tempo”), ao todo, 28 atrizes de minorias étnicas concorreram ao Globo de Ouro. Dessas, somente duas foram premiadas: Jocelyne Lagarde, em 1967, por “Havaí”; e Whoopi Goldberg, em 1991, por “Ghost: Do Outro Lado da Vida”.

Ao mesmo, 27 homens de minorias étnicas concorreram na categoria, tendo 4 deles recebido o prêmio: Louis Gossett Jr., em 1983, por “A Força do Destino”; Haing S. Ngor, em 1985, por “Os Gritos do Silêncio”; Denzel Washington, em 1990, por “Tempo de Glória”; e Eddie Murphy, em 2007, por “Dreamgirls – Em Busca de Um Sonho”.

Os números são decepcionantes e enfurecedores, mas esse não é um problema exclusivo do Globo de Ouro ou de premiações, mas de Hollywood como um todo, que oferece poucas oportunidades para mulheres e para artistas de minorias étnicas.

O problema de diversidade na indústria cinematográfica é antigo e persistente, e que não será solucionada de um ano para o outro. Mas, com esperança, e com o ativismo de organizações e dos próprios artistas, é possível que possamos ver mais mulheres, negros, latinos, asiáticos e LGBTs recebendo reconhecimento por seus trabalhos e contribuições à cultura.

A cerimônia do Globo de Ouro acontece neste domingo, 8 de janeiro.