IZA abraça a sua multiplicidade no álbum “Dona de Mim”

13. janeiro 2019 POP 0
IZA abraça a sua multiplicidade no álbum “Dona de Mim”

“Sempre fiquei quieta, agora vou falar”. Esse é um dos versos de “Dona de Mim”, uma das músicas que compõe o álbum de mesmo nome de IZA, lançado em 2018. E a cantora tem muito o que falar em seu primeiro disco, o qual conta com 14 faixas, misturando vários ritmos, ao mesmo tempo em que consegue forma um trabalho coeso e de peso para o cenário pop brasileiro. A voz de IZA dá vida ao álbum, e junto das letras, mostra-se uma mulher forte, frágil, decidida e cheia de camadas. 

Não é um mundo fácil para ser uma mulher – especialmente se você é negra. E embora o feminismo tenha permitido que mais e mais mulheres possam ser ouvidas, as negras enfrentam um desafio duplo ao enfrentar o machismo e o racismo, tendo de provar o tempo todo o quão boas elas são. Logo, o sucesso de IZA não aconteceu da noite para o dia, mas em 2016, quando começou a postar vídeos de covers no Youtube, onde foi despontando e chamando a atenção.

Em dois anos, depois singles de muito sucesso ( como “Te Pegar” e o hit “Pesadão”), a carioca lançou seu álbum de estreia – sem medo de abraçar sua identidade, desafiando também a visão reducionista da mídia sobre mulheres negras, que insiste em retratá-las de maneira estereotipada e/ou unidimensional. IZA é múltipla e “Dona de Mim” é a prova disso.

O material abre com “Ginga”, parceria da cantora com o rapper Rincon Sapiência, e que havia sido lançada pouco tempo antes do disco. A faixa dá o tom do que IZA preparou para todo o álbum, apresentando uma mensagem que lembra a importância de lutar para ter o que se quer, além do orgulho por suas origens. “Ginga” traz o pop, R&B e o rap em harmonia, trabalhando em sintonia com um vídeo que celebra a estética negra, contando apenas com dançarinos negros e elementos da cultura africana.

E vale dizer: “Dona de Mim” traz vários ritmos negros, como o rap, hip-hop, o soul e o reggae, uma evidência clara da cantora em celebrar a música e a cultura criadas por negros.

Em seguida vem “Bateu”, colaboração com Ruxell, que também produziu o disco. Aqui, temos IZA cantando sobre fumar maconha, um tema não muito comum para as mulheres que estão no mainstream. Mas quebrar tabus é algo comum para a cantora carioca, feminista assumida, que também canta abertamente sobre sexo oral na música “No Ponto”, na qual ela diz ainda que vai “guiar” seu parceiro a encontrar o ponto G.

E se sexo não é assunto difícil para ela, demonstrar que é mesmo dona de si e uma mulher forte é fácil feito respirar. “Pesadão” já faz isso muito bem e em “Engano Seu”, a narrativa se mantém, na qual a artista canta com confiança para o cara que olha para ela: “o que tu quer sou eu/ sei que-sei que-sei que-sei que sou desejo seu”. Essa é a mesma confiança que ela leva para “Você Não Vive Sem”, explorando a força do seu vocal, ainda que o boy esteja brincando com os sentimentos dela.

Mas toda sua força está presente mesmo é na faixa-título, “Dona de Mim”, na qual recorda o quanto lutou para estar onde chegou. Na letra, IZA canta que erra como qualquer pessoa, mas é justamente sua fé inabalável que a mantém de pé e na luta para não desistir do caminho que está trilhando. Indo além, ouvir uma mulher negra dizer “não me limite, que eu quero ir além”, é muito forte e empoderador, pois eis aqui mais uma demonstração de que ela não vai entrar em ‘caixinhas’, tampouco se curvar ao racismo e ao machismo. Em 2016, com sua primeira canção, “Quem Sabe Sou Eu”, IZA cantava que sabia o quanto “meu corpo te incomoda”, tendo a noção do quão difícil seria colocar seu corpo negro e feminino em evidência em uma mídia ainda muito ‘branca’. Assim, é edificante vê-la com um primeiro álbum, cantando que sabe do seu valor e que quer conquistar muito mais.

Já nas faixas “Saudade Daquilo”, “É Nóix”, “Toda Sua” e “Lado B”, ela demonstra seu lado romântico, explicitando também que é uma mulher como todas as outras, sendo forte e em busca um amor para chamar de seu. Ou seja, empoderamento, relacionamentos e vulnerabilidade podem caminhar juntos – ainda que os difamadores do feminismo não acreditem isso. Melhor deixar para IZA “confundir a mente deles”, né?

“Corda Bamba”, parceria com Ivete Sangalo, e “Linha de Frente”, música que fecha o álbum, dão continuidade à mensagem que abre o disco com “Ginga”: equilíbrio e persistência para realizar seus sonhos.

Com “Dona de Mim”, IZA se coloca como um dos principais nomes da música pop brasileira, celebrando suas origens e sua feminilidade, com muita identidade e poder. “Se você tem boca, aprende a usar”, ela canta em um dos versos da música que dá nome ao seu primeiro trabalho – um conselho provavelmente dado a ela em algum momento, que soube muito bem incorporá-lo à sua própria vida.

Dá pra afirmar que cantora não está mais reerguendo seu castelo, mas levantando seu império. E não com ferro e martelo, mas com sua voz e sua música.