Indústria da moda começa a abrir as portas para pessoas trans

24. agosto 2015 Estilo 2
Indústria da moda começa a abrir as portas para pessoas trans

Foi em julho deste ano que a modelo trans Andreja Pejic tornou-se o rosto da marca de cosméticos Make Up Forever. O fato poderia passar despercebido, não fosse essa a primeira vez em que uma marca de maquiagem coloca uma pessoa trans como garota-propaganda de seus produtos.

Dois meses antes, Pejic disse à revista Cosmopolitan que a indústria da moda precisava entender melhor as experiências de pessoas trans, contudo, ela vê uma mudança positiva acontecendo. “É importante lembrar que estamos vivendo numa ótima época, onde nossas histórias estão sendo contadas e a representação está melhorando, mas é preciso mais para melhorar e mudar a vida das pessoas”.

O feito histórico realizado por Andreja Pejic abriu um precedente para que essa indústria, marcada pela falta de diversidade, possa incluir mais modelos trans em suas peças e campanhas.

Recentemente, a ativista transfeminista Maria Clara Araújo tornou-se o rosto da marca brasileira Lola Cosmetics, repetindo o feito de Pejic. “Quando a gente fala de uma mulher trans ser o rosto propaganda de uma marca de maquiagem, isso é algo muito importante para a representatividade. Ali não é a Maria Clara. É uma mulher trans que pode ser vista por outras meninas como uma representatividade boa”, afirma a militante ao Portal da Band.

A importância de ter Maria Clara Araújo como garota-propaganda de uma marca é justificada pela forma como pessoas trans são tratadas socialmente e na mídia. “Dentro do nosso contexto brasileiro, a trans só é representada em contextos específicos que são: na delegacia, na questão de serem presas; na prostituição; e na ridicularização, em programas de humor e afins”, explica ao site da Band.

O Brasil lidera o ranking de países que mais matam travestis e transexuais no mundo, portanto, dar visibilidade a uma trans possibilita um novo olhar sobre essas pessoas, tanto pelo lado de dentro da comunidade trans, que cria novas perspectivas e vê sua humanidade reconhecida e validada, quanto pelo lado de fora, que aprende a enxergar essas pessoas de uma maneira respeitosa. “Ver as mulheres trans em atividades como modelo, de ser o rosto de uma marca de maquiagem, é trazer humanidade para nós”, conta Maria Clara. “Porque existe um contexto que leva essas meninas, como eu, a não serem modelos. Eu sou a segunda [mulher trans] do mundo a ser rosto de uma marca de maquiagem. Então, por que eu sou a segunda do mundo? Por que as pessoas nunca contrataram uma mulher trans para ser rosto de uma marca de maquiagem? Por que as pessoas evitam ter a sua marca relacionada à mulher trans?”

O que Maria Clara quer, a partir dessa campanha, é que questionemos esse sistema que invisibiliza e exclui pessoas trans da sociedade. “Por que as pessoas trans não estão no cinema interpretando elas mesmas? Por que pessoas trans não estão trabalhando em bancos, em farmácias, supermercados? Acho extremamente importante, a partir desse meu pioneirismo no Brasil, nos questionar porque as pessoas trans não estão convivendo com a gente no nosso dia a dia”, finaliza ela ao Portal da Band.

Indústria da moda começa a abrir as portas para pessoas trans
Maria Clara Araújo em foto da campanha para a Lola Cosmetics

Contudo, outra marca quer continuar com esses questionamentos. A & The Other Stories, da gigante H&M, convidou “5 pessoas trans criativas para contar uma história que amplia nossa visão de gênero na moda”. “Acho muito estranho quando nascemos, a primeira coisa que somos, mesmo antes de termos um nome ou uma identidade, é sermos homem ou mulher, antes ainda de você saber qualquer coisa sobre a pessoa que acabou de nascer”, diz a modelo Valentijn de Hingh no vídeo da campanha. “Nascer homem ou mulher define muito o que você pode ser na vida. E eu não quero viver sob essas restrições. Quero me libertar delas”.

Além de Hingh, a outra modelo escolhida é Hari Nef. A fotografia ficou a cargo de Amos Mac, a estilista é Love Bailey e a maquiadora é Nina Poon, todas pessoas trans. “A moda teve um grande papel no meu processo de construção de identidade”, afirma Nef. “A moda pode ser ampliada para uma audiência maior e, talvez, ela perca sua reputação de clube esotérico e assustador, que não permite a participação de pessoas que não são magras, brancas, cisgênero, sem deficiência e ricas”.

Em um comunicado à imprensa, a diretora criativa da & The Other Stories, Sara Hildén Bengtson, acredita que “o mundo da moda está abraçando modelos transgênero e isso é ótimo”. “Mas não conseguimos não nos perguntar como o olhar tradicional da moda pode mudar se mantivermos a mesma equipe por trás das câmeras. Então convidamos cinco pessoas maravilhosamente criativas para fazer nossa última história”.

À revista WWWa modelo Valentijn De Hingh acredita que a visibilidade de pessoas trans na moda é importante, mas não pode ser apenas uma tendência passageira. “Às vezes, transmitir uma mensagem política, tendo o apoio de uma marca comercial pode ajudar, de verdade. A única coisa para nos preocuparmos é de que não seja temporário. Não pode ser uma tendência ter pessoas trans numa campanha jovem, e então não tê-las mais nas próximas duas estações”, lembra De Hingh. “Acho que, da forma como as coisas estão acontecendo agora, parece que mesmo se for temporário, ainda haverá conscientização sobre nossas histórias e problemas”.

muito para ser feito, mas a mudança já começa a ser vista nas fotos e nas passarelas.

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