Aquela vez em que uma indígena rejeitou o Oscar em nome de Marlon Brando

28. janeiro 2016 Cinema 0
Aquela vez em que uma indígena rejeitou o Oscar em nome de Marlon Brando

De todas as coisas do mundo que mereciam uma continuação, com certeza, a falta de diversidade do Oscar não estava na lista. E ainda assim, pelo segundo ano consecutivo, todos os atores e atrizes indicados à premiação são brancos, o que gerou protestos por parte de artistas negros, tendo alguns deles anunciado que boicotariam a cerimônia no dia 28 de fevereiro, como foi o caso do diretor Spike Lee, e o casal Jada Pinkett e Will Smith.

A situação forçou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a adotar medidas para diversificar seus membros, cuja maioria é composta por homens (94%) brancos (77%) com uma idade média de 62 anos. Entre as ações que serão tomadas pela organização, estão o fim da filiação vitalícia e a remoção do integrante que não trabalhar na indústria cinematográfica nos últimos 10 anos.

É válido dizer que essas medidas mexem com a estrutura da Academia, mas não impacta o sistema de Hollywood de fazer filmes. A menos que haja uma mudança sistêmica, a indústria cinematográfica vai continuar a oferecer pouco espaço para mulheres e demais minorias, cuja representação é muito baixa, seja em frente ou atrás das telas.

Para se ter uma ideia, no ano passado, uma agência federal abriu uma investigação em Hollywood para averiguar a baixa contratação de mulheres para os cargos de direção. “As diretoras não estão trabalhando em condições de igualdade e não têm as mesmas oportunidades. Discriminação por gênero é ilegal e Hollywood não está imune quando se trata de direitos civis e discriminação de gênero”, contou à Variety Melissa Goodman, diretora do Projeto de Justiça Reprodutiva, Gênero e LGBT da União Americana pelas Liberdades Civis, do sul da Califórnia.

E os problemas de diversidade de Hollywood, obviamente não são de hoje. Em 1973, por exemplo, uma índia rejeitou o Oscar de ‘Melhor Ator’, que seria entregue ao ator Marlon Brando por sua atuação icônica em “O Poderoso Chefão”. A pedido do artista, Sacheen Littlefeather, uma ativista Apache, subiu ao palco para protestar pela forma como índios nativo-americanos são retratados em Hollywood.

Tradução: “Olá. Meu nome é Sacheen Littlefeather. Sou apache e presidente do Comitê Nacional de Imagem Afirmativa Nativo Americana. Estou representando Marlon Brando nesta noite, e ele me pediu para dizer em um longo discurso, que eu não posso dividir com vocês agora por causa do tempo, mas eu dividirei com alegria para a imprensa em seguida. É com muito pesar que ele não aceita este prêmio generoso. E as razões para isso são o tratamento dos índios americanos hoje na indústria cinematográfica. Perdoem-me [nesse momento há aplausos e algumas vaias], e em reprises de filmes na televisão, além do que aconteceu recentemente em Wounded Knee. Espero não ter interrompido esta noite, e espero que possamos, no futuro, unir nossos corações e pensamentos em amor e generosidade. Obrigada em nome de Marlon Brando.”

De acordo com o site History, o episódio citado por Littlefeather diz respeito ao que aconteceu em Wounded Knee, cidade de Dacota do Sul, em 1973, quando o local foi tomado pelo Movimento dos Índios Americanos no mês anterior à premiação, e estava cercado pelas forças militares americanas no dia em que o Oscar aconteceu. O conflito durou 71 dias. Na mesma cidade, em 1890, aconteceu o Massacre de Wounded Knee, quando o 7º Regimento de Cavalaria dos Estados Unidos matou 150 índios dacotas.

O History ainda destaca que Marlon Brando esteve envolvido em diversas causas sociais, entre elas a criação do estado de Israel, além de apoiar o movimento negro nos Estados Unidos. No começo da década de 70, ele também esteve envolvido com o Movimento dos Índios Americanos, e anunciou que boicotaria o Oscar em 73, convidando Sacheen Littlefeather para representá-lo.

Após a índia Apache ter representado-o na premiação, a Academia nunca mais permitiu que alguém recebesse o Oscar em nome da pessoa vencedora.

No discurso que escreveu para a cerimônia, o ator afirmou que a “indústria cinematográfica tem sido responsável, como qualquer um, pela degradação do índio, fazendo piada de seu personagem, descrevendo-o como selvagem, hostil e demoníaco.” “Já é difícil para as crianças crescerem nesse mundo. Quando crianças  indígenas assistem televisão e assistem aos filmes, e quando veem sua raça retratada neles, suas mentes são prejudicadas de maneiras que nós nunca saberemos.”

No mesmo ano, Marlon Brando conversou com o apresentador Dick Cavett, que perguntou a ele se faria diferente, caso tivesse outra noite do Oscar, ao que o ator respondeu negativamente. “Era uma oportunidade. O índio americano não pode ter sua voz ouvida em qualquer lugar da história dos Estados Unidos, [então] pensei que seria uma oportunidade maravilhosa de deixá-lo falar para 85 milhões de pessoas. Senti que eu tinha o direito de fazer isso, a partir do que Hollywood fez a ele”, disse o artista.

Marlon Brando continuou, desta vez, expandindo o problema de diversidade do cinema a todas as minorias étnicas.

“Acho que as pessoas não perceberam que indústria cinematográfica tem feito ao índio americano. Aliás, o que tem feito a todos os grupos étnicos. A todas as minorias. A todas as pessoas que não são brancas. As pessoas simplesmente não entendem. Elas assumem que essa é a forma como as pessoas serão apresentadas, e que esses clichês serão perpetuados. Então, quando alguém protesta de alguma maneira e diz: ‘não, por favor, não represente o chinês assim.’ Neste canal você vê réplicas bobas do comportamento humano. O olhar maldoso do menino filipino; o japonês astuto ou louco; o homem negro idiota; o estúpido indiano. A lista é enorme e as pessoas não percebem como essas pessoas estão profundamente feridas ao verem-se representadas. Não os adultos, que já estão habituados a esse tipo de dor e pressão, mas as crianças. As crianças indígenas, ao verem-se representadas como selvagens, feias, cruéis, traiçoeiras, bêbadas, elas crescem apenas com imagens negativas de si mesmas, e isso dura uma vida toda.”

De 1973 para cá, é claro que houve progressos em Hollywood, ainda que a representação de índios nativo-americanos ainda tenha muito o que melhorar. Um bom exemplo recente é a representação dos índios Arikara e Pawnee no filme “O Regresso”, estrelado por Leonardo DiCaprio, que recentemente pediu proteção às terras indígenas em seu discurso no Globo de Ouro deste ano. É possível que, caso saia vitorioso no Oscar, o ator use seu momento de celebração para destacar, novamente, a necessidade de proteção às terras e à cultura indígena.

“Gostaria que todos que estiverem ouvindo não vissem isso como uma rude intromissão”, escreveu Marlon Brando em seu discurso de rejeição ao Oscar. “Mas como um esforço sério para chamar atenção a um problema que pode muito bem determinar se esse país tem o direito de dizer, de agora em diante, que nós acreditamos nos direitos inalienáveis de todas as pessoas permanecerem livres e independentes nas terras que apoiam suas vidas além da memória viva.”

No dia 28 de fevereiro, é possível que um discurso parecido seja feito. Veremos.