Importe-se com abuso de mulheres porque elas são seres humanos e não apenas porque elas têm alguma relação com você

16. outubro 2017 Famosos 0
Importe-se com abuso de mulheres porque elas são seres humanos e não apenas porque elas têm alguma relação com você

A notícia de que Harvey Weinstein assediou dezenas de mulheres em Hollywood está em todos os lugares há duas semanas. Os relatos de atrizes e ex-funcionárias do estúdio do produtor são terríveis, e demonstram como funciona o machismo no ambiente no trabalho e por que mulheres passam anos ou talvez nunca façam uma denúncia contra seus agressores.

E desde que a história estourou, quase toda celebridade tem uma opinião a respeito do ocorrido, sendo praticamente unanimidade a condenação de Weinstein. Embora as mulheres tenham tomado a frente dos protestos contra os casos de abuso, os homens também têm se manifestado, muitos deles, lembrando que têm mulheres em suas famílias.

Matt Damon, por exemplo, ao ser questionado sobre a situação pelo site Deadline, disse que “mesmo antes de ser famoso, eu não tolerava esse tipo de comportamento”.

“Mas agora, ao ser pai de quatro meninas, esse é o tipo de comportamento de um predador sexual que me deixa acordado durante a noite. Esse é o nosso maior medo. Você tem uma filha, sabe…”

Eu tenho certeza que esse deve ser um medo partilhado por todo pai e mãe de garotas no mundo todo, e de qualquer homem que tenha mãe, irmã, prima, esposa, namorada, amiga e etc. E digo isso porque sempre que há algum caso brutal de violência contra a mulher, como aconteceu no ano passado quando uma menina sofreu um estupro coletivo no Rio de Janeiro, muitos homens dizem o mesmo para apoiar as vítimas.

Mas ainda que o gesto tenha uma boa intenção, é preciso lembrar que nenhuma mulher merece sofrer agressão. Nenhuma. Pois ao afirmar que aquela mulher em situação de violência poderia ser uma parente sua, implica-se que outras mulheres merecem o que sofreram. Ou ainda que você se importa apenas com aquelas à sua volta e não com um grupo inteiro de seres humanos.

A violência contra a mulher atinge todas elas, independente da classe social. Segundo um estudo da ONG Action Aid, a cada hora, cinco mulheres morrem nas mãos de seus maridos e parceiros no mundo todo. Somente no Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de um milhão de mulheres são vítimas de violência doméstica todos os anos no país. No primeiro semestre de 2016, em comparação ao mesmo período de 2015, houve um aumento de 133% nos relatos desse tipo de agressão no Ligue 180, canal do governo brasileiro para denúncias de violência contra a mulher. Ainda no país, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. Portanto, essa forma de abuso continua presente e é um problema sério, tanto no Brasil quanto no mundo.

E essas vítimas podem ser mesmo sua filha, irmã, sobrinha, mãe, namorada, esposa ou amiga. Mas elas também são mulheres que você nunca viu ou verá na sua vida, o que quer dizer que todas elas também devem ser dignas do seu respeito, empatia e desejo de mudança. Portanto, é mais do que na hora de deixar o discurso de “pai de meninas” para trás e adotar um que seja mais inclusivo e que seja para todas as mulheres, especialmente aquelas que estão em situação ainda mais vulnerável, como mulheres negras, que têm visto o índice de violência contra elas aumentar. Ou de mulheres trans, que têm sido assassinadas em um ritmo alarmante.

Mais do que palavras, também, é preciso tomar uma atitude proativa. Homens são os agentes da violência contra a mulher. Ao reconhecer isso, é preciso que se converse sobre como a masculinidade tem feito mal às mulheres durante todos esses séculos, além de mudar de postura e começar a agir. E isso significa ter discussões sobre machismo com outros homens e cobrar de amigos e parentes um comportamento que não seja agressivo.

Em outras palavras, é necessário e urgente que os próprios homens se envolvam, repensem e combatam o machismo. Repudiá-lo, mas não se mexer não é só improdutivo, como coloca as próprias mulheres que querem proteger como alvo de agressões de outros homens.

Tomara que o caso de Harvey Weinstein, por pior que seja, ajude a engajar mais pessoas na luta contra a violência de gênero. E torço que, principalmente os homens, tomem mais ações. Como dizem por aí, que sejamos nós a mudança que queremos no mundo.


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