A igualdade salarial precisa chegar às atrizes negras em Hollywood também

23. abril 2018 Cinema 0
A igualdade salarial precisa chegar às atrizes negras em Hollywood também

Hollywood nunca mais foi a mesma desde que Patricia Arquette subiu ao palco do Oscar, em 2015, para pegar seu prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante. Na ocasião, a artista pediu o fim da desigualdade salarial entre homens e mulheres e, desde então, o assunto persiste na indústria cinematográfica. Aliás, o tema forçou uma conversa necessária sobre igualdade de gênero no mundo todo.

Para se ter uma ideia, recentemente, Evan Rachel Wood, do seriado “Westworld”, revelou que conseguirá um salário igual ao de seus colegas homens na terceira temporada da atração, da qual é uma das protagonistas. A série acaba de estrear sua segunda temporada.

“Me disseram: ‘você vai ganhar um salário igual’. E eu quase fiquei emocionada”, disse a atriz ao site The Wrap. “Eu nunca recebi o mesmo que meus colegas. Nunca, nunca. Eu estou sempre lutando por isso e já cheguei a recusar projetos. Com ‘Westworld’, eu entendo um pouco [o fato de receber menos]. Temos Anthony Hopkins e Ed Darris. Mas eu acho que, agora, estamos todos fazendo a mesma quantidade de trabalho e um trabalho duro de verdade”.

Essa é uma ótima notícia, que vem pouco tempo depois da HBO anunciar que havia equiparado os salários das mulheres em suas produções com a ajuda da atriz Reese Witherspoon, a qual é uma das líderes do movimento Time’s Up. O canal é responsável tanto por “Westworld” quanto por “Big Little Lies”.

“Uma das coisas que aconteceram após pensar sobre o movimento e de conversas com a Reese , que está tomando a frente, é algo que nós fizemos recentemente”, disse Casey Bloys, executivo da HBO, para a revista The Hollywood Reporter. “Nós fomos pró-ativos e verificamos todas as nossas atrações… Na verdade, acabamos de analisar todos elas e garantimos que não haverá mais disparidade inapropriadas nos salários. E onde houve e identificada, nós logo a corrigimos. E isso é um resultado direto do movimento Time’s Up”.

A iniciativa citada por Bloys foi criada por diversas mulheres da indústria do entretenimento, que após as denúncias contra o ex-produtor Harvey Weinstein, decidiram se unir para combater o assédio sexual no ambiente de trabalho. Contudo, como o abuso de poder está presente em todas as indústrias e não apenas em Hollywood, foi criado um fundo para apoiar mulheres que decidam ir à Justiça contra empresas e empregadores que forem coniventes com a violência. Indo além, a Time’s Up ainda briga por melhorias no trabalho para todas as mulheres, o que inclui a igualdade salarial.

De acordo com um estudo do Fórum Econômico Mundial, a diferença salarial entre homens e mulheres deve acabar no mundo todo em um século, caso o ritmo em que as mudanças estejam acontecendo permaneça o mesmo.

Mas quando falamos de igualdade de direitos, é preciso levar em conta outro fator: raça. Mulheres negras recebem um salário ainda menor em relação a um homem branco: cerca de 60% menos no Brasil e em torno de 47% menos nos Estados Unidos. E na glamourosa Hollywood isso não seria diferente.

Em janeiro, a atriz Mo’Nique, ganhadora do Oscar por seu trabalho em “Preciosa – Uma História de Esperança”, lançou uma campanha de boicote à Netflix, como protesto pelo baixo salário que a companhia teria proposto a ela por um especial de comédia. Segundo a artista, a empresa teria oferecido a ela um salário de US$ 500 mil, enquanto teria pago US$ 11 milhões para Amy Schumer e U$$ 20 milhões para Chris Rock e Dave Chappelle. Schumer conseguiu renegociar seu salário, aumentando-o para US$ 13 milhões.

“Eles me disseram: ‘É esse valor que achamos que um especial de Mo’Nique nos daria’. Eu disse: ‘Bom, mas e o meu currículo?’. E eles: ‘Nós não julgamos por isso’”, contou Mo’Nique em um vídeo publicado no Instagram. “Então eu perguntei o que fazia Amy Schumer valer US$ 13 milhões, e eles citaram as turnês lotadas dela pelos EUA. Eu disse: ‘Bom, esse não é o currículo dela?’”.

#BOYCOTT#NETFLIX FOR #COLORBIAS AND #GENDERBIAS. PLEASE STAND WITH ME. I LOVE US.

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A campanha de boicote à Netflix não funcionou e poucas pessoas se posicionaram ao lado da atriz. A comediante Wanda Sykes foi uma das poucas celebridades a sair em defesa de Mo’Nique, dividindo sua própria história pessoal com a Netflix: “obrigada por se manifestar. Eles me ofereceram menos da metade dos seus US$ 500 mil. Eu fiquei ofendida, mas encontrei uma casa em outro lugar”.

Para muitos, o comportamento ‘difícil’ de Mo’Nique é o que teria dificultado as negociações. Quando “Preciosa” estava em campanha para vencer o Oscar, a atriz se recusou a divulgar a obra, movimento que não foi muito bem visto na época. Ainda assim, ela levou a estatueta dourada para casa e, ao pegar o prêmio, fez questão de agradecer à Academia por “mostrar que é sobre trabalho e não sobre política”.

Contudo, desde sua vitória na premiação mais importante do cinema, Mo’Nique realizou poucos trabalhos, o que teria sido resultado de um boicote a ela. Em 2015, ela disse à revista The Hollywood Reporter que havia recebido uma ligação do diretor Lee Daniels, que disse a ela que ela não estava conseguindo mais papéis por ter se negado a “jogar o jogo”. “E que jogo é esse?”, ela rebateu. O cineasta nunca respondeu.

Salários desiguais e falta de oportunidades são uma triste realidade para artistas negras em Hollywood. Na lista da Forbes das 10 atrizes de cinema mais bem-pagas do último ano, nenhuma delas era negra. Na lista das atrizes de TV, apenas uma era negra: Kerry Washington, protagonista de “Scandal”. Em 2018, Ellen Pompeo, de “Grey’s Anatomy”, se tornou a atriz mais bem-paga com seus US$ 20 milhões anuais.

Nem mesmo Viola Davis, indicada 3 vezes ao Oscar (e vencedora em 2017), conseguiu fazer seu salário aumentar como o de suas colegas brancas. Personagem central da série “How to Get Away With Murder”, papel pelo qual foi premiada com o Emmy, a atriz é uma das artistas mais aclamadas na indústria do entretenimento atualmente, tendo feito vários papéis na TV e no cinema. E ainda assim, Viola sofre para conseguir transformar a admiração em seu trabalho em dinheiro.

“Eu tenho uma carreira que provavelmente é comparável a de Meryl Streep, Julianne Moore, Sigourney Weaver. Todas são contemporâneas de Yale, da Julliard, da Universidade de Nova York”, disse a atriz no evento Women in the World Salon. “Todas elas percorreram o mesmo caminho que eu e ainda assim, não chego nem perto delas no que diz respeito a salário e nem em oportunidades de trabalho. Nem um pouco”. E completou: “Sempre me falam que sou a ‘Meryl Streep de pele negra’, que me amam… Bem, se não existe outra atriz como eu, então que me paguem aquilo que eu mereço receber”.

Até mesmo Octavia Spencer, três vezes indicada ao Oscar – e ganhadora uma vez por “Histórias Cruzadas” – não conseguiu elevar seu pagamento, mesmo com críticas e prêmios a seu favor. Recentemente, ela revelou como conseguiu, pela primeira vez em sua carreira, ter um salário que estivesse de acordo com a qualidade do seu trabalho. E houve uma grande ajuda de Jessica Chastain nisso.

“Há uns 15 meses, Jessica Chastain me ligou dizendo que queria fazer uma comédia comigo. E eu disse que sim. Ela tinha uma ideia. Ela me ligou de novo depois de uns seis meses. Nós conversamos sobre igualdade salarial entre homens e mulheres. Ela disse: ‘é hora das mulheres receberem o mesmo que os homens’. E eu concordei. ‘É hora mesmo’. E nós falamos palavrões e falamos sobre isso”, disse Octavia em um evento. “E, então, eu disse: ‘mas eis o seguinte: mulheres negras, nesse espectro [de salário], nós recebemos bem menos que as mulheres brancas. Por isso, se nós vamos trazer essa conversa sobre equidade salarial, nós temos que falar sobre mulheres negras.

“Eu contei a ela minha história, falamos sobre números e ela ficou quieta. Ela não sabia que era assim para mulheres negras”, continuou Octavia. “Eu amo aquela mulher porque ela faz o que diz e faz acontecer. Ela disse: ‘Octavia, nós vamos fazer com que você seja paga nesse filme. Você e eu vamos estar juntas nisso e vamos receber a mesma coisa e você vai receber aquela quantia. E avançando para semana passada, nós vamos receber cinco vezes mais do que pedimos”.

Os casos envolvendo Viola Davis, Octavia Spencer e Mo’Nique são todas de 2018, mas acontecem há muito tempo. Basta recordar de Yvette Nicole Brown ou Taraji P. Henson, que estrelou o indicado ao Oscar “Estrelas Além do Tempo”, além de ser protagonista de “Empire”, e que teve dificuldade em receber um salário justo por seu papel em “O Curioso Caso de Benjamin Buttton”. Com o filme, ela recebeu menos de 2% do que Brad Pitt fez, e precisou pagar pelas suas próprias acomodações durante as gravações do longa-metragem.

Parece que Hollywood tem gostado de contar histórias de mulheres negras, mas ainda se recusa a pagá-las o que valem. Tracee Ellis Ross é outra artista negra que, mesmo sendo protagonista de um seriado sobre uma família negra (“Black-ish”) e ganhando um Globo de Ouro por sua atuação, não tem um salário que combine com seu talento.

Tracee viu a discussão sobre a negociação do seu salário se tornar pública após a revista The Hollywood Reporter publicar que ela estaria recebendo menos que seu colega Anthony Anderson. A mesma publicação afirmou ainda que, caso ela não recebesse um aumento, ela faria menos episódios e apareceria em outras atrações para compensar o valor que não foi pago. A situação gerou revolta e, pelo Twitter, a atriz se manifestou dizendo que estava em renegociação para atuar na quarta temporada do seriado.

“Eu queria ser compensada de maneira que estivesse de acordo com a contribuição que faço em um show que eu amo por muitos motivos, incluindo a oportunidade que eu tenho de redefinir o que é ser uma mulher negra realizada na TV”, escreveu. “Ver minha renegociação se tornar algo público foi esquisito, mas estou agradecida pelo apoio. Estou muito agradecida que conversas importantes estão tomando lugar no que diz respeito a lutar pelo valor da mulher e igualdade, e a diminuição da diferença salarial em todas as indústrias”.

E embora essa discussão sobre salários iguais soe como algo restrito à indústria do entretenimento, vale dizer que Hollywood funciona, também, como uma lupa para problemas sociais existentes no mundo todo. Desde o discurso de Patricia Arquette, empresas e governos têm se empenhado em aprovar leis e diminuir a disparidade salarial entre homens e mulheres. 

Porém, isso precisa levar em conta as experiências da população negra, especialmente mulheres negras, as quais estão na base da pirâmide social. Se Hollywood se empenha em reconhecer um problema e trabalha para eliminá-lo, isso se torna um importante gesto para que mais e mais mulheres briguem por condições melhores de trabalho, incluindo salários justos. Nesse sentido, o silêncio em torno do quanto se ganha não beneficia as mulheres, mas atrapalha a luta por direitos iguais.

E para não dizer que só Octavia Spencer conseguiu um final feliz, Thandie Newton, a Maeve de “Westworld” também receberá um salário maior e igualitário na terceira temporada da atração da HBO. Sua personagem foi fundamental para uma série de acontecimentos que levaram ao retorno da série para uma segunda temporada.

“Isso está acontecendo e, sim, nós somos todos iguais agora. É muito animador e sem precedentes. Meu Deus, isso destrói tanta dor calcificada, ressentimentos e frustrações”, disse a atriz à revista Vanity Fair, acrescentando que não pegará mais papéis que não paguem a ela o mesmo que seus colegas homens. “Eu não farei nada se não houver o mesmo. Definitivamente, não. Foda-se. Isso é um precedente e a HBO está liderando o caminho, o que é ótimo”.

Além de “Westworld”, Thandie Newton poderá ser vista nos cinemas em “Han Solo: Uma História Star Wars”, no qual fará a primeira personagem negra de destaque na franquia intergaláctica. 

“Eu sou a primeira mulher negra a ter um papel proeminente no legado de ‘Star Wars‘. Já houveram outras mulheres com uma fala aqui e ali, além de Lupita Nyong’o, que emprestou seus traços para uma personagem gerada no computador. Mas você não conseguia ver a cor da sua pele nas telonas”, contou a artista ao Radio Times. “Eu sou a primeira neste sentido. E ainda terei meu próprio colecionável e tudo mais. É realmente empolgante, mas é tudo o que posso dizer. É algo genuinamente grande”.

E é isso o que precisa acontecer mais: salários e oportunidades iguais para todos. Vamos continuar de olho.