Esta é Hollywood: “um clube de homens brancos e héteros”, diz estudo

07. julho 2016 Cinema 2
Esta é Hollywood: “um clube de homens brancos e héteros”, diz estudo

Na semana passada, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS, na sigla em inglês) divulgou os nomes dos 683 convidados a integrar seu corpo de membros. Entre eles, 46% são mulheres e 41% são pessoas de minorias étnico-raciais, o que mostra um esforço da presidente da instituição, Cheryl Boone Isaacs, em diversificá-la, após mais um ano de protestos pela indicação de apenas artistas brancos nas principais categorias do Oscar, prêmio entregue pela organização aos considerados melhores do cinema.

E embora a medida que a Academia adotada seja positiva, a falta de diversidade é algo que afeta Hollywood como um todo, não sendo restrita somente ao Oscar. Até mesmo a televisão, que tem apresentado histórias mais inclusivas, ainda tem o que melhorar.

É o que diz o relatório “Inclusion or Invisibility?” (“Inclusão ou Invisibilidade?”), feito pela Escola Annenberg de Jornalismo e Comunicação, que pertence à Universidade do Sul da Califórnia (USC). “Nós não temos um problema de diversidade. Temos uma crise de inclusão”, afirmou Stacy L. Smith, uma das autoras do estudo, ao Hollywood Reporter.

Foram avaliados o gênero, raça, orientação sexual de quem atua na frente e atrás das câmeras dos 109 filmes lançados em 2014 e das 305 séries lançadas entre setembro de 2014 e agosto de 2015 na televisão aberta, a cabo e serviços de streaming (Netflix, Amazon e Hulu). Também foi analisado o gênero dos executivos dos estúdios e redes de televisão, bem como um ranking das empresas mais inclusivas. E os resultados não foram bons.

“A indústria cinematográfica ainda funciona como um clube de meninos brancos e héteros”, concluiu o levantamento. “Para alcançar a inclusão, as empresas precisam adotar novas abordagens. Essas estratégias devem envolver mais do que simplesmente ‘assinalar um item’ quando forem escalar um elenco para um filme, série ou episódio, ou ir além, fazendo uma ‘contratação diversificada’ por trás das câmeras ou entre os executivos.”

Eis os resultados:

Gênero:

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No total, foram 414 produções e 11.306 personagens examinados, no cinema e na televisão. Homens ficaram com 66,5% de todos os papéis, enquanto as mulheres ficaram com 33,5% deles. Quando se trata de personagens com alguma fala em filmes, as mulheres são apenas 28,7% do total. Na séries da televisão aberta elas são 36,4%, a cabo 37,3% e streaming 38,1%.

Quando se trata de protagonismo, no cinema os homens são 73,5% dos personagens principais, enquanto as mulheres são  26,5%. Nas séries televisivas, a situação melhora um pouco. Nas plataformas de streaming, mulheres são 44,2% das protagonistas, 41,6% na TV aberta e 41% na TV a cabo.

A idade não parece ser um impeditivo para conseguir papéis. Pelo menos para os homens: no cinema, 78,6% dos personagens com mais de 40 anos são homens. Ou seja, mulheres acima dos 40 anos são apenas 21,4%. Na televisão, os números também decepcionam: na aberta as mulheres nessa idade são 26,9%, na TV a cabo são 29,4% e no streaming 33,1%. Um outro estudo, de 2015, também confirma isso: para elas, os papéis vão ficando mais escassos quando envelhecem.

No que diz respeito à sexualização dos personagens, tanto na televisão quanto no cinema, é muito mais provável ver mulheres em roupas sensuais (34,3%, contra 7,6% dos homens), com alguma nudez (33,4% contra 10,8% dos homens) e serem elogiadas por sua beleza (11,6% contra 3,5% dos homens).

Atrás das câmeras, o número de mulheres trabalhando na direção dos 109 filmes e das 305 séries é decepcionante. Dos 4.284 diretores avaliados, 84,8% deles são homens, deixando o cargo apenas para 15,2% das mulheres. O cinema apresentou o pior percentual de diretoras: 3,4%. Na televisão, o maior percentual foi encontrado na TV aberta: 17,1%. A TV a cabo e as plataformas de streaming tiveram 15,1% e 11,8%, respectivamente, de mulheres na função.

Como roteiristas, o número de mulheres aumenta um pouco: 28,9%. Novamente, o pior percentual foi encontrado no cinema: somente 10,8% são mulheres. O maior percentual também foi encontrado na TV aberta: 31,6%, que foi seguida, respectivamente, pela TV a cabo (28,5%) e streaming (25,2%).

Especificamente na criação de séries, as mulheres também ficam para trás: na TV aberta elas são 22%, na TV a cabo 22,3% e no streaming são 25%. O estudo também percebeu que, quanto mais mulheres atuando atrás das câmeras, maiores são as chances de mulheres na frente delas: filmes dirigidos por mulheres possuem 5,4% mais meninas e mulheres no elenco, enquanto quanto mais roteiristas e criadoras de seriados, o percentual sobe para 10,7% e 12,6% de meninas e mulheres atuando, respectivamente.

Raça/Etnia:

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Também foi avaliada a raça/etnia dos personagens. Sem surpresa alguma, 71,7% deles eram brancos. Negros foram 12,2%, latinos/hispânicos 5,8%, asiáticos 5,1%, árabes 2,3%3,1% de outras minorias. O percentual somado desses grupos é 9,4% menor do que a população atual desses indivíduos nos Estados Unidos (37,9%).

Foi avaliada a quantidade de produções que contavam com elencos balanceados. Para fazer essa medição, foi estipulado um mínimo de 10% de personagens de minorias étnico-raciais. Somente 22 histórias completaram o requisito na TV aberta (19%), 18 na TV a cabo (13%), 1 no streaming (2%) e 8 no cinema (7%). Ou seja, a maioria das obras falha em representar os Estados Unidos (e até o mundo) como ele é.

Nos 109 filmes analisados, 26,7% dos personagens com falas eram de minorias. Na TV aberta, os 116 seriados tiveram 29,7%; na TV a cabo, entre as 138 séries, 29,2% tinham minorias com falas; e no streaming, das 51 das produções, 29,4% contavam com esses personagens.

O estudo também mostra a invisibilidade da população negra e asiática no cinema e na televisão. As plataformas de streaming foram as que mais falharam com esses grupos: 32 das 51 (ou 63%) produções avaliadas não possuíam qualquer personagem asiático ou negro (para comparação: filmes foram 18%, TV aberta 16%, a cabo 23%). Para os asiáticos a situação ainda é pior em todos os espaços: pelo menos metade (ou mais) das obras não tinham qualquer personagem asiático com nome ou falas.

Nos filmes21,8% dos personagens principais eram de minorias étnico-raciais, sendo 65,6% deles homens e 34,4% mulheres. Homens negros foram a maioria: 65,5%. No total, latinos foram 12,5% entre os protagonistas e asiáticos 6,3%. No streaming, o percentual de minorias como protagonistas foi maior entre todos os avaliados, 29,6%, seguido pela TV aberta (27,6%) e TV a cabo (24,6%).

No que diz respeito à idade, 25,7% de todos os personagens com mais de 40 anos eram mulheres, sendo 77,8% brancas20,9% delas eram de minorias e 1,3% não tinha raça/etnia especificada.

Quanto à sexualização, as mulheres continuam na frente, principalmente as latinas. Elas são mais vistas em roupas sensuais (39,5%, contra 34,8% das brancas, 29,5% das negras e 28,9% das asiáticas) e nuas (35,5%, contra 34,2% das brancas, 28,6% das negras e 27,2% das asiáticas). Já as mulheres brancas são mais elogiadas por sua beleza (12,6%, contra 11,4% das latinas, 7,9% das negras 7,7% das asiáticas).

Atrás das câmeras, foi analisada a raça/etnia dos diretores de filmes e dos primeiros episódios das séries televisivas e de streaming. Dos 407 diretores avaliados, 87% eram brancos e 13% de minorias. Somente duas mulheres negras dirigiram alguma produção: Ava DuVernay (“Selma”) e Amma Asante (“Belle”). O número de atores negros, latinos e asiáticos, segundo o estudo, aumenta quando um diretor vindo de uma minoria assina a obra.

LGBT:

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Dos personagens que poderiam ser classificados por sua sexualidade, 224 deles eram gays, lésbicas ou bissexuais, ou apenas 2% de todos os personagens entre os 109 filmes e 305 séries. Apenas 7 eram pessoas trans, o que é menos de 1% do total. Dessas, 4 estavam no mesmo seriado de uma plataforma de streaming.

31,4% de todos os personagens LGBT estavam na TV a cabo, 28,8% em filmes, 24% na TV aberta e 15,7% no streaming. Mais da metade das representações dessa população no cinema esteve em dois filmes: “Orgulho e Esperança” e “O Amor É Estranho”.

Entre os personagens LGBT, 72,1% eram homens e 27,9% eram mulheres. 158 eram gays, 49 eram lésbicas, 17 eram bissexuais e apenas 7 eram pessoas trans. Desse total, 78,9% eram brancos e 21,1% eram de minorias étnico-raciais.

Poucos personagens foram retratados como pais e mães, sendo as lésbicas mais vistas nessas figuras (24%) do que gays (16,4%). Entre os avaliados, 59,3% das mulheres e 55,6% dos homens estavam em relacionamentos.

Para conferir o estudo completo, clique aqui.