Hoje é dia da Visibilidade Bissexual, mas estamos mesmo vendo essas pessoas?

23. setembro 2016 Televisão 0
Hoje é dia da Visibilidade Bissexual, mas estamos mesmo vendo essas pessoas?

Hoje, 23 de setembro, é o Dia da Visibilidade Bissexual. A data chama a atenção para o apagamento de pessoas bissexuais (dentro e fora do movimento LGBT), bem como joga uma luz sobre suas necessidades e pautas.

Nos últimos anos, temos visto um aumento de representação LGBT na mídia, mas, infelizmente, ela não tem sido feita de forma igualitária. Se gays e lésbicas conquistaram um pouco mais de espaço em filmes, séries e novelas, o mesmo não pode ser dito sobre os bissexuais. Enquanto pessoas trans têm conseguido um pouco mais de visibilidade nos últimos tempos, a letra B ainda segue praticamente esquecida pela sociedade e mídia.

“Ficaríamos genuinamente gratos se lembrassem da nossa existência. Nós somos uma parte enorme da comunidade LGBT, talvez a maioria em número. Falar a palavrinha que começa com ‘b’ já é um grande passo”, afirma a militante bissexual Gabriela Brito. “Hoje é o dia que, na teoria, é pra ‘celebrar a bissexualidade’ e estamos vendo grandes canais de notícia comentando, o que já é um fato inédito. Queremos ser vistos, comentados, queremos que desmistifiquem os estigmas relacionados com nossa orientação sexual. Meu sonho é ver personagens falando abertamente sobre sua bissexualidade, mas isso ainda é um tabu”.

E Gabriela não está errada: quando pegamos estatísticas de representação bissexual, esse grupo permanece esquecido nas narrativas apresentadas. No ano passado, a GLAAD, ONG que monitora a representação LGBT na mídia americana, divulgou seu levantamento anual de personagens lésbicas, gays, bissexuais e trans na televisão dos Estados Unidos. Na temporada 2015-2016, foi encontrado um aumento na representação bissexual na TV aberta e a cabo: de 10 para 18 personagens. Contudo, embora o número seja maior, a organização afirma que a maioria dos personagens “caem em perigosos estereótipos sobre pessoas bissexuais”.

No cinema, a realidade também não é boa: a GLAAD também avaliou os 126 grandes lançamentos de 2015. E embora a representação LGBT como um todo tenha permanecido igual ao ano de 2014, a representação bissexual caiu de 30% para apenas 9%. Outro estudo, desta vez feito pela Escola Annenberg de Jornalismo e Comunicação, que pertence à Universidade do Sul da Califórnia (USC), diz que somente 5 personagens eram bissexuais entre os 100 filmes mais populares do ano passado, sendo 3 mulheres e 2 homens.

“A representação de bissexuais é absurdamente pequena. A gente ‘sabe’ que o personagem é bi por certos pequenos comentários, atitudes, falas”, continua Gabriela. “Algumas séries conhecidas por serem as mais inclusivas ainda não falam sobre bissexualidade. É bem revoltante como ainda é um enorme tabu”.

bi-portland

Outro fato também chama atenção: não só a representação é pequena e pautada por estereótipos, a maioria dos personagens são mulheres. A GLAAD chamou atenção para o fato, apontando ainda para a problemática maneira que homens bissexuais são retratados. “A fluidez sexual é associada com a imoralidade, em vez de um indicativo de interesse verdadeiro, e reforça os estereótipos nocivos de que a bissexualidade é uma forma estratégica de manipulação, ao contrário de uma identidade única”, reclamou a ONG.

E quando se tratam de estereótipos, eles não são poucos. Pessoas bissexuais são vistas como confusas, promíscuas, infiéis, indecisas, ou com medo de assumir se são hétero ou homossexuais. Nem mesmo na própria comunidade LGBT suas identidades são respeitadas.

“O fato de sermos estigmatizados dentro da própria comunidade LGBT faz com que haja um sentimento de não-pertencimento, que é o que faz a gente ter dificuldade até de ‘sair do armário’. Bissexualidade não é vista como legítima, é vista como uma simples fase, uns chamam até de ‘modinha'”, conta Gabriela.

calie-torres

Para combater a bifobia, que é o preconceito contra bissexuais, a militante criou no Facebook a página Bifobia é Real. “Só falam sobre bissexualidade quando é pra deslegitimar nossas opressões como pessoas não-heterossexuais. Ninguém quer ir além disso e pensar na nossa saúde mental, física ou enxergar as demandas e sofrimentos da comunidade, provados por estatísticas e vivências”.

Sua fala é reforçada por um estudo publicado pelo Think Progress, que mostra que as mulheres bissexuais são as que mais sofrem com a violência física, sexual e psicológica, além de serem mais propensas a desenvolver algum tipo doença mental.

“Eu quero mostrar argumentos legítimos e empoderar pessoas bissexuais reconhecendo suas opressões como classe invisibilizada e estigmatizada. A gente tem que se revoltar com a bifobia escancarada nos espaços para poder lutar pela nossa qualidade de vida”, conclui Gabriela.

A mídia pode ajudar a combater essa discriminação. Por meio de uma representação apurada, as imagens que exibidas na televisão, séries ou novelas ajudam a quebrar preconceitos, humanizam grupos minoritários e fortalecem aqueles que ainda estão construindo suas identidades.

E as pessoas bissexuais precisam disso urgentemente.

pcr_lauren_podcast_crazyex-girlfriend_darryl


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *