Hayley Kiyoko, a “Jesus lésbica” que a música pop tanto precisava

02. Abril 2018 POP 0
Hayley Kiyoko, a “Jesus lésbica” que a música pop tanto precisava

Na última sexta-feira (30), Hayley Kiyoko lançou seu primeiro álbum, “Expectations”, um disco sobre amor, sexo e coração partido. Mas não se engane, apesar dos temas das músicas parecerem que já foram cantados à exaustão, a cantora da Califórnia dá uma nova perspectiva a elas. Dessa vez, a partir de um ponto de vista de uma mulher lésbica.

Hayley Kiyoko é assumidamente lésbica. Ela não deixou isso tão claro em seu primeiro EP, “A Belle to Remember”, de 2013, mas foi em seu segundo trabalho, o EP “This Side of Paradise”, que a artista abraçou sua sexualidade. Especialmente na faixa “Girls Like Girls”, na qual ela canta que “meninas gostam de meninas, igual fazem os meninos, não há nada de novo nisso”. Realmente, não há nada de novo nisso, contudo, é revigorante ouvir uma cantora falar tão abertamente sobre seu amor por outras mulheres.

Outras artistas musicais já cantaram sobre suas experiências com outras mulheres, porém, elas soaram mais como uma tentativa de parecerem cool, em vez de algo genuíno (vide “I Kissed a Girl”, de Katy Perry). Mas não é o caso com Hayley Kiyoko. Ser lésbica faz parte da sua vida. É quem ela é. Por isso, é natural que isso faça parte da sua música. O clipe de “Girls Like Girls”, por exemplo, foi dirigido pela própria cantora, e narra a história de duas melhores amigas, que transformam a amizade em um romance.

Chamada de “Jesus lésbica” por suas fãs, Hayley tem transformado a heteronormativa indústria da música com seu trabalho desde o começo de sua carreira. Embora ela não queira ser reconhecida apenas por sua sexualidade, ela entende a importância de ver seu nome associada a ela.

“Acho que, não importa com o que você se pareça, você só quer ser uma pessoa, né?”, disse a cantora ao site Refinery29. “Claro, eu adoraria que as pessoas gostassem de mim e da minha música. Mas se eu não permitir rótulos, não há como normalizá-los. Com o tempo, minha existência ajudará as pessoas a entender que uma cantora lésbica é só uma cantora. Por isso, embora eu não queira ser perguntada constantemente sobre minha sexualidade, uma grande parte minha é meu amor por mulheres. Portanto, acho que vou falar sobre isso até que isso não seja mais assunto a ser conversado”.

A carreira musical aconteceu aos poucos. Quando pequena, depois de acompanhar uma amiga em um ensaio fotográfico, do qual ela acabou fazendo parte, começaram os trabalhos como modelo. Em seguida, virou atriz, atuando na série “Os Feiticeiros de Waverly Place” e no filme “Lemonade Mouth: Uma Banda Diferente”. Porém, a música era sua primeira paixão, o que levou a ser parte de um grupo, The Stunners, mas que não durou tanto tempo.

E foi aí que vieram os EPs, os quais demonstravam seus dotes artísticos como cantora e compositora, já que suas letras surgem de episódios que aconteceram com a própria Hayley. Suas composições não fogem das complicações que um relacionamento pode ter. “Curious”, por exemplo, é sobre uma relação que teve com uma garota que estava confusa e não assumiu o sentimento que tinha pela artista. “He’ll Never Love You” é sobre ela sair dessa relação, deixando claro à outra menina que o cara com que ela está nunca a amará como Kiyoko a ama.

Falar abertamente sobre seus relacionamentos pode soar fácil para os fãs, mas Hayley também já teve seus problemas para lidar com sua sexualidade e sua identidade. E isso implicou até na forma como ela deveria se apresentar enquanto artista.

“Eu não saí do útero dizendo: ‘essa sou eu’! Levou muito tempo. Eu sabia quem eu era desde o útero, como eu sabia que gostava de meninas desde o primeiro dia, e eu sabia que isso seria uma questão”, afirmou a artista ao site da revista GQ americana. “Eu sofri tanto com a minha identidade quanto minha feminilidade. Eu dizia: ‘okay, se eu for feminina, eu ainda serei atraente?’ e lidei com todas esses problemas sobre aparência. Além disso, se eu quero ser uma estrela pop, as pessoas vão me aceitar, respeitar minha música e não olhar para mim apenas como uma ‘artista lésbica’? Ou eles vão dizer: ‘cara, essa artista é incrível’. Esse é meu objetivo, obviamente. Mas todas essas preocupações têm estado comigo desde o primeiro dia”.

Até o momento, o esforço de Kiyoko de refazer o pop (ainda que não seja um esforço consciente) tem funcionado. Depois de 3 EPs, ela lançou na semana passada “Expectations”, seu primeiro álbum de estúdio. Com 13 faixas, uma com a participação de Kehlani (a qual também teve relacionamentos com mulheres), o disco traz uma sonoridade pop animada, com letras que ficam na cabeça, e traz o amor da artista por outras mulheres e pela cidade de Los Angeles (“Palm Trees”).

É um trabalho com muita autenticidade e frescor, algo que a música pop há tempos vem precisando. Com sorte, Hayley Kyoko será um nome grande, representando não apenas lésbicas, mas toda uma geração que não quer apenas um hino para dançar, mas também para se identificar.

Ouça “Expectations” no Spotify.