Halsey fez um ponto muito importante sobre representação bissexual na mídia

Halsey fez um ponto muito importante sobre representação bissexual na mídia

No começo de junho, Halsey lançou seu segundo álbum de estúdio, “Hopeless Fountain Kingdom”, que conta com uma rara canção sobre um relacionamento entre duas mulheres, e que é cantada por duas artistas abertamente bissexuais.

Trata-se da faixa “Strangers”, a qual conta com a participação de Lauren Jauregui, do quarteto Fifth Harmony, e é considerada por Halsey “uma canção de amor para a comunidade LGBT”.

“Lauren é minha amiga e ela é abertamente bissexual, assim como eu. Nossos fãs demonstraram muito apoio no ano passado e isso indica que eles se identificam com a gente e estão felizes em nos ver falando sobre isso”, disse a cantora em uma entrevista para uma rádio. “E eu pensei: se eu quero que as pessoas acreditem nessa canção, ela precisa ser verdadeira. Eu não colocaria uma garota heterossexual nela, eu não faria isso. Por isso, chamei a Lauren. Eu adoro o fato de que eu e ela somos duas mulheres com presença no pop mainstream, e pudemos fazer uma canção de amor para a comunidade LGBT”.

E quando ela diz que não colocaria uma mulher heterossexual na música, ela fala sério. Em uma entrevista para o site Vulture, a artista revelou que sua gravadora sugeriu Katy Perry para dividir os vocais em “Strangers”, mas Halsey rejeitou a ideia. 

“A gravadora falou, ‘que tal a Katy Perry?’ Mas eu não gostaria de escolher uma cantora que não fosse gay”, afirmou a a voz de “Colors”. De fato, a California Gurl nunca admitiu ser bissexual, mas confessou ter beijado uma garota e ter feito mais do que isso.

Depois, em uma conversa com a revista Paper, Halsey reafirmou sua posição, reclamando como as experiências de mulheres lésbicas e bissexuais são reduzidas a apenas experimentações em canções de cantoras pop.

“A bissexualidade como um tabu. ‘Não diga para sua mãe’ ou ‘Nós não deveríamos fazer isso’ ou ‘isso parece errado, mas é muito certo'”, disse a cantora, claramente fazendo uma referência a “Cool For the Summer”, de Demi Lovato, e “I Kissed a Girl”, da Katy Perry.

“Essa narrativa é muito prejudicial para a bissexualidade na sociedade”, continuou. “Isso é algo que eu lutei por toda minha vida e ainda luto. Eu ainda vejo as pessoas na internet dizendo: ‘claro que a Halsey diz que é bissexual. Isso ajuda ela a vender álbuns’. Eu nunca ‘sai do armário’ enquanto artista, porque eu já estava fora dele quando eu comecei a fazer música. Eu saí dele no ensino médio. Eu estava no colegial e as pessoas passavam por mim e diziam ‘sapatão’, sabe? Isso era parte da minha realidade. Quando eu comecei a fazer música, eu nunca pensei: ‘será que as pessoas vão ser ruins comigo se eu não for heterossexual?'”.

Por fim, ela falou sobre o preconceito que bissexuais sofrem, os quais são vistos como promíscuos ou confusos por heterossexuais e pela própria comunidade LGBT, e fez um bom ponto sobre a representação bissexual na mídia.

Há bifobia por parte dos héteros e da comunidade LGBT”, disse. “Há uma falta de aceitação. Isso acontece na TV o tempo todo quando as pessoas escrevem sobre personagens bissexuais como se estivessem passando por uma fase ou lutando contra algo. É parte de algum transtorno mental ou uma história de revolta. E isso é uma droga”.

Halsey não está enganada quando aponta os problemas da representação bissexual na mídia. Não que a representação de lésbicas, gays e pessoas trans seja perfeita – há ainda um longo caminho pela frente – mas quando se fala da população B de LGBT, as coisas ainda estão bem longe do ideal.

Não é raro vermos personagens que se relacionam com homens e mulheres, mas jamais serem definidos pelo termo bissexual. Por exemplo, temos Oberyn Martell (Pedro Pascal) de “Game of Thrones” ou Annalise Keating (Viola Davis), de “How to Get Away With Murder”. Alguém pode argumentar que na época em que se passa a história de “GoT” não existe termos para designar orientações sexuais, o que eu concordo, mas ainda é decepcionante que um seriado tão grande não se disponha a chamar as pessoas pelo que elas são.

Além disso, a quantidade de personagens bissexuais na TV é muito pequena, menor do que a de lésbicas e gays. Segundo um levantamento da GLAAD, ONG que monitora a representação LGBT na mídia americana, houve 18 personagens que se identificavam como bissexuais nas temporadas de 2015 e 2016. E se isso não fosse o bastante, o retrato desses indivíduos ainda é marcado por estereótipos. 

“A fluidez sexual é associada com a imoralidade, em vez de um indicativo de interesse verdadeiro, e reforça os estereótipos nocivos de que a bissexualidade é uma forma estratégica de manipulação, ao contrário de uma identidade única”, reclamou a GLAAD em seu levantamento.

Há muito o que melhorar na representação de bissexuais na mídia – e até no cenário musical. Ainda há poucos artistas assumidamente bissexuais (ou de qualquer identidade LGBT) no mainstream. Halsey sozinha não pode mudar o mundo, mas pode ajudar a chamar a atenção para causas importantes. E tomara que mais pessoas estejam ouvindo.


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