Há algo de errado com “Você Não Presta”, novo clipe da Mallu Magalhães

21. maio 2017 POP 18
Há algo de errado com “Você Não Presta”, novo clipe da Mallu Magalhães

Na última sexta-feira (19), Mallu Magalhães lançou o clipe para a canção “Você Não Presta”, faixa que estará presente em seu próximo álbum, “Vem”, o qual será lançado ainda neste ano.

No vídeo dirigido por Bruno Ferreira, Mallu aparece acompanhada por dançarinos negros e em cenários diferentes, como um cômodo de uma casa ainda em construção, dentro da carreta de um caminhão e outros cenários. Em um deles, a cantora aparece vestindo uma camiseta que diz “Oscar 2002”.

Se você não se lembra, aquele foi o primeiro – e único ano – em que uma dupla de atores negros ganhou as estatuetas douradas de Melhor Ator e Atriz (Denzel Washington e Halle Berry). Isso significa que Mallu estaria fazendo algum tipo de homenagem, certo?

Bem se ela estiver tentando fazer algum tipo de homenagem, talvez a execução poderia ser melhor. Isso porque desde que o clipe de “Você Não Presta” foi lançado, a cantora vem recebendo acusações de racismo. Ao apresentar os dançarinos ao fundo, dançando, com seus corpos mais descobertos e suados, ela acaba contribuindo para a hipersexualização do corpo negro, além de fazer uso deles para garantir uma estética ‘moderninha’ para o vídeo, como ela mesma parece confirmar em uma nota enviada pela assessoria de imprensa.

“A escolha dessa música como primeiro single foi por uma necessidade e vontade de quebrar o vidro, do meu trabalho, da minha carreira e da minha imagem… colocar pra fora uma energia de atitude, uma onda tão urbana quanto selvagem. E, até um aspecto rock, que eu sempre tive, desde o inicio do meu trabalho”.

Como explica a Aline Ramos no texto “O Clipe Novo Da Mallu Magalhães Pode Te Fazer Refletir Sobre Racismo”:

há uma diferença entre o figurino dos bailarinos e o da cantora. Na maior parte do tempo, o corpo negro é mais exposto e colocado em evidência. O que não rola com a Mallu, única branca ali. Isso pode lembrar como os negros foram historicamente vistos como objetos e como seu valor estava associado ao corpo e à força física”.

Pode ser que Mallu e sua equipe não tinham consciência dessas implicações todas quando gravaram o clipe, pois essa é uma forma de racismo que, em geral, passa despercebida mesmo: quando ele é feito de maneira sutil, a ponto de não ser visto até que alguém aponte o problema.

Ainda assim, mesmo que “Você Não Presta” tenha sido feito por uma perspectiva ‘inocente’, ele não está imune a críticas, assim como todo produto cultural está. A impressão que fica é de que os dançarinos são meros acessórios, cujas participações são apenas para reforçar o lugar do negro: o do ser sexual, exótico, parte da paisagem, mas nunca a figura central.

Isso não é para dizer que não é possível gostar da obra da artista paulistana. É apenas uma tentativa de chamar atenção a pontos que mereciam um cuidado maior na hora da execução, afinal, fica mais uma vez evidente a força do privilégio branco, que impossibilita que alguém enxergue para além de sua própria realidade.

Não é que o clipe, assim como o sujeito da música, não prestem. É que ambos poderiam ser muito melhores.