Há 20 anos, Ellen DeGeneres se assumia lésbica na televisão dos Estados Unidos e mudava o cenário para personagens LGBT

Há 20 anos, Ellen DeGeneres se assumia lésbica na televisão dos Estados Unidos e mudava o cenário para personagens LGBT

Há 20 anos, Ellen DeGeneres, uma das mais famosas apresentadoras dos Estados Unidos, se assumia lésbica no seriado em que atuava, o sitcom “Ellen”. Tanto a personagem, que levava seu nome, quanto a própria atriz revelaram sua orientação sexual na ocasião, em um episódio que atraiu mais de 42 milhões de pessoas para a frente da televisão. E desse momento em diante, a vida da americana, e a representação de personagens LGBT em séries televisivas, mudavam para sempre.

Na sexta-feira (28), a apresentadora dedicou um episódio inteiro de seu programa para a comemoração do vigésimo aniversário do histórico episódio. “Eu sou a Ellen e eu sou lésbica”, começou a ganhadora do Emmy Awards. “Há 20 anos, quando eu disse isso, foi algo muito maior. Hoje, celebramos o aniversário do episódio em que eu me assumi no meu sitcom. Minha personagem, Ellen Morgan, assumiu que era lésbica em rede nacional. Eu, Ellen DeGeneres, saí do armário ao mesmo tempo”.

O episódio em questão foi chamado de “The Puppy Episode” (ou, em português, ‘o episódio do cachorrinho’), por dois motivos: o primeiro era para manter a história em sigilo, evitando possíveis vazamentos na imprensa. O segundo dizia respeito à sugestão dos executivos da série, que preferiam que Ellen tivesse um cachorro em vez de uma namorada. 

“Eu não consigo dizer o quão desafiador foi conseguir realizar esse episódio. Naquela época, era algo muito controverso, por isso, acho que é importante celebrarmos esse aniversário. Para que possamos lembrar como era a vida antes e o quanto caminhamos”, disse a voz da Dory em “Procurando Nemo”. “Foi a coisa mais difícil que eu já fiz na vida, mas eu não mudaria nenhum momento, porque isso me trouxe até aqui, em frente a vocês, o que é uma alegria”.

De fato, não foi algo fácil: depois de se assumir lésbica, o sitcom de DeGeneres foi cancelado um ano depois, ela não conseguiu mais emprego, e ainda enfrentou muita hostilidade, ouvindo xingamentos nas ruas e até ameaças de morte.

“Foi difícil. Esse é um dos motivos para muitas pessoas não sair do armário, porque elas não querem perder suas carreiras”, admitiu. “Muitos optam pela carreira em vez de serem verdadeiros. E eu decidi que ser verdadeira era mais importante do que ter uma carreira. Mas, sim, coisas violentas aconteceram”.

Ellen também levou ao seu talk show a apresentadora Oprah Winfrey e a atriz Laura Dern, as quais interpretaram, respectivamente, a analista de Ellen e seu possível par romântico no seriado. As duas afirmaram que ficaram muito honradas por fazer parte de algo histórico, mas que também receberam reações negativas.

Oprah revelou que recebeu diversas mensagens racistas, por conta de seu apoio a uma mulher lésbica, enquanto Laura ficou um ano sem trabalhar em Hollywood, também pelo mesmo motivo.

“Eu acreditava na sua verdade e queria apoiá-la”, confessou Oprah. “Um dia depois do episódio, eu voei para Chicago [onde gravava o seu programa de televisão], e colocaram outra pessoa para atender as ligações das pessoas. Eu perguntei o que elas estavam dizendo e não queriam me dizer. Eu disse que queria saber e descobri que muitos diziam: ‘volte para a África’. Recebi muitos xingamentos e coisas desprezíveis. Eu nunca me surpreendi tanto com o ódio e o quão alto ele era, porque até então, eu nunca recebi isso na minha cara”.

“Eu me lembro da benção que foi apoiar você e aquele momento. Foi um privilégio e uma honra”, disse Laura Dern. “Não houve presente maior do que ser a pessoa que ficou com você e olhou nos seus olhos enquanto você dizia aquelas palavras [‘Susan, eu sou lésbica’]. Até quando estávamos ensaiando, você disse que achava que não conseguiria dizer isso, porque você nunca havia dito isso em voz alta. […] Foi um momento emocionante e eu me sinto abençoada de ter participado e ter testemunhado isso. 

Bem, 20 anos depois, a representação LGBT avançou muito na televisão e no cinema, embora muitos progressos ainda precisam ser feitos, obviamente. É muito mais comum vermos histórias de personagens lésbicas, gays, bissexuais e de pessoas trans em seriados e filmes, e que não necessariamente giram em torno de sair do armário ou de transição (pense na personagem transexual Nomi, de “Sense8”, por exemplo). Segundo um levantamento da GLAAD, uma das maiores ONGs LGBT dos Estados Unidos, há mais de 200 personagens do arco-íris na televisão americana, os quais podem ser vistos por audiências no mundo todo.

Na década de 90 isso era impensável, mas hoje é algo muito mais comum, graças ao passo dado por Ellen DeGeneres, que veio a perder tudo, mas que pode recomeçar do zero e hoje é uma das personalidades mais conhecidas no mundo, sendo símbolo de aceitação e gentileza. No ano passado, ela chegou a ganhar a Medalha da Liberdade, uma das maiores honrarias concedidas pelo presidente dos EUA, que na ocasião era Barack Obama.

“É fácil esquecer agora que caminhamos tanto, ou agora que o casamento igualitário está dentro da lei, quanta coragem foi preciso para a Ellen se assumir em um dos palcos mais públicos há quase 20 anos”, disse Obama. “Foi importante, não só para a comunidade LGBT, mas para todos nós, vermos alguém cheio de bondade e luz. Alguém que nós gostávamos muito, alguém que poderia ser nossa vizinha, nossa colega de trabalho, nossa irmã, desafiar nossos próprios julgamentos, lembrando-nos que nós temos muito mais em comum do que imaginamos, levando nosso país na direção da justiça”.

Parabéns e obrigado, Ellen DeGeneres! Que seu exemplo e sua coragem continuem sendo exemplos para todos nós! 


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