Guest post: O dia em que conheci a periferia da minha cidade

15. outubro 2014 Internet 0
Guest post: O dia em que conheci a periferia da minha cidade

Lembram da Fernanda? Ela já escreveu aqui no blog uma vez, e agora retorna com um relato real, vivido por ela. Às vezes, para entendermos realidades complexas, precisamos sair da nossa zona de conforto e calçar o sapato do outro. Confira:

“Ao lado dos trilhos do trem, havia uma longa estrada de terra com uma vizinhança em volta. Ao fundo, alguns moleques jogavam bola. O cheiro era ruim por conta de um lixão clandestino que acabou se formando por ali. Aquela região da cidade não é muito freqüentada por moradores de outros bairros. Ninguém costuma ir ali se não for morador ou usuário de droga. Como toda periferia, é afastada e isolada das vistas de quem não precisa conviver com aquilo. Afinal de contas, para essa sociedade lugar de pobre é bem longe do centro da cidade, né?

Entrei em uma das casas. O chão de terra estava marcado com pegadas de criança. Fui seguindo o rastro e me deparei com uma linda garotinha de cabelos encaracolados. E, quando eu falo “linda”, não significa simplesmente beleza física. Vocês têm mania de tornar os adjetivos vazios. O meu conceito de beleza não vem apenas do externo, mas sim do olhar da alma. Sim, a alma fala, vocês sabiam? A menina dos cabelos encaracolados brincava com um cachorro poodle.

– Esse cachorro é seu? – perguntei.

– Sim, é menina e se chama Luana. – a menina falou.

Fiquei refletindo sobre o nome humano no animal, mas não tive muito tempo para pensar a respeito. Logo saiu de um dos cômodos da casa uma mulher. Era baixa, pele negra, cabelos escuros. Vamos chamá-la de Maria. Acho Maria um nome forte, de presença e capaz de representar todas as mulheres que lutam para sobreviver em meio a tantas injustiças que acontecem nesta sociedade cheia de exclusão.

Maria se dirigiu até mim dizendo que precisava arranjar um emprego. Seu filho de 22 anos começou a vender maconha, cocaína e crack para conseguir sustentar a família. Ela estava amedrontada, pois a polícia havia espancado seu filho na noite anterior. O motivo? Eles queriam propina. Aquele conhecido “aluguel” pago pelos bandidos para que eles possam continuar vendendo a sua droga em paz.

– Eu não queria que meu filho vendesse droga. – ela me disse.

– E por que ele vende? – questionei.

– Porque preciso alimentar a minha família.

Nesse momento o filho de Maria entra na casa. Ainda com os olhos inchados pelo “sacode” que havia levado da polícia, ele me cumprimentou e entrou em seu quarto. Continuei conversando com Maria, que começou a rascunhar suas experiências profissionais em uma folha de papel, para que eu pudesse digitar e imprimir seu currículo.

Faltava apenas uma informação para que eu pudesse concluir o currículo de Maria, o seu endereço.

– Maria, me diz seu endereço.

– Endereço? Mas tem que colocar?

– Tem.

(Silêncio)

– Ah… Coloca aí… Estrada da linha do trem, sem número, bairro Itagaçaba.

Acabei anotando o endereço que ela me passou sem esperanças de conseguir um emprego para Maria. Sem a comprovação de uma residência fixa, ela jamais seria chamada em nenhuma empresa.

– Muito obrigada, minha filha. Tenho fé de que um dia vou conseguir. – ela me disse olhando em meus olhos.

Engoli a seco o enorme nó na garganta que havia se formado dentro de mim. Na saída, cruzei com a menina dos cabelos encaracolados brincando com a cachorrinha Luana. Despedi-me e segui meu rumo pela estrada de terra ao lado da linha do trem. Passei dias e dias pensando sobre o destino de Maria, seu filho obrigado a virar bandido e sua família, que vive num lugar que não existe para o resto da sociedade.

Foto: Sebastião Salgado
Foto: Sebastião Salgado

Fiquei pensando sobre as pessoas que defendem a pena de morte aos bandidos. Será que o filho de Maria merece morrer? Refleti também sobre as constantes críticas às políticas sociais que ouço por aí. “Bolsa vagabundo”… vagabundo? Maria procura um emprego há anos e não consegue porque não tem uma residência fixa. Não acho que Maria seja vagabunda.

A questão é que é muito fácil criticar algo quando não conhecemos. Proponho que todos nós visitemos as periferias de nossas cidades. Vá procurar as Marias que moram na sua região e tire você mesmo as suas próprias conclusões. É muito cômodo assistir ao Jornal Nacional sentados em nossos sofás confortáveis, comendo um Doritos e tomando uma Brahma enquanto o filho da Maria é espancado porque não pagou a propina da droga que vende.

O problema não é o seu elitismo. O problema é a sua falta de humanidade”.

fernanda vilela