“Grandes Olhos” não é uma obra prima, mas pode ter salvo Tim Burton da mesmice

11. fevereiro 2015 Cinema 0
“Grandes Olhos” não é uma obra prima, mas pode ter salvo Tim Burton da mesmice

O novo filme de Tim Burton, “Grandes Olhos”, talvez seja uma grata surpresa para você que já estava cansado da parceria do cineasta com Johnny Depp. Além de não contar com a participação do ator – que nos últimos anos infelizmente entrou em um processo de repetição, sempre dando vida a personagens excêntricos, mas que no fundo trazem pouca novidade (vide sua pequena participação no recente “Caminhos da Floresta”) –, o filme também aposta num tom mais realista, já que é inspirado em uma história real. Está aí o diferencial, e talvez também a grande armadilha para Tim Burton.

A última vez em que se propôs a filmar uma história realista, sem as locações e personagens fantásticos que fizeram seu visual único se popularizar, foi em “Ed Wood” (1994), sobre o célebre diretor de filmes B que ficou conhecido com o “pior cineasta do mundo”, e que conta (é claro) com Johnny Depp no papel principal.

Mas não sejamos injustos com a parceria Tim Burton/Johnny Depp: se filmes mais recentes – com exceção do divertido e despretensioso “Sombras da Noite” (2012) – estiveram aquém das expectativas, vale lembrar que a dupla já rendeu grandes sucessos, como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (1999) e também o clássico e talvez melhor filme do diretor, “Edward Mãos-de-Tesoura” (1990). Mesmo assim, bem que Tim Burton precisava dessa pausa.

E como o público está acostumado a associar o diretor a personagens icônicos com visual dark, como o próprio Edward Mãos-de-Tesoura, ou o personagem título da animação “O Estranho Mundo de Jack” (1993), talvez seja difícil assimilar a ambientação solar e realista (embora se tratando de uma reconstituição de época) de “Grandes Olhos”, que teve até sequências filmadas no Havaí.

grandes olhos tim burton

A história, sobre uma artista que pinta crianças com olhos gigantes e cujos quadros são vendidos pelo marido, que jura ser ele próprio o autor das obras, não tem nada de excepcional. Se quiser, pode forçar uma análise do papel da mulher na sociedade machista dos anos 1950, mas não passa disso. A narrativa linear e a ambientação realista mostram um filme certinho, mas sem novidades. Exceto pelas grandes interpretações, tanto do sempre ótimo Christoph Waltz, quanto principalmente da protagonista Amy Adams, que inclusive recebeu o Globo de Ouro desse ano por seu papel. Mais que merecido, já que além de carregar a história e estar em praticamente todas as cenas, Amy adiciona um tom sério e dramático que impede o filme de cair na grande armadilha dos filmes baseados em fatos reais: a de ser sem-graça. Essa foi por pouco, hein, Tim?…

Então fica a pergunta: Tim Burton funciona sem seu universo imaginário? A resposta é sim. Apesar desse universo aparecer no filme, discretamente, em forma de divagações da personagem central, que em determinado momento vê as pessoas com olhos grandes iguais aos que pinta em seus quadros.

grandes olhos tim burton

E também: seria “Grandes Olhos” o começo de uma nova fase na carreira do cineasta? Difícil dizer, já que, ao longo dos quase 30 anos em que vem nos agraciando com as mais diversas produções, o diretor sempre se reinventou dentro do próprio estilo. Seja dando seu toque pessoal a adaptações de quadrinhos, nos ótimos “Batman” (1989) e “Batman – O Retorno” (1992), ou de antigos clássicos, como em sua versão de “O Planeta dos Macacos” (2001), seja criando obras mais pessoais, como o sensacional “Peixe Grande” (2003), talvez o mais autoral de seus filmes.

“Grandes Olhos” pode não ser uma obra prima, e talvez nem seja lembrado no futuro como um dos grandes filmes de Tim Burton. Mas é um respiro interessante em sua carreira, e a prova de que um bom diretor consegue transitar por temáticas e gêneros sem se perder. O próprio Tim Burton já havia comprovado isso antes, várias vezes. Espero que continue.