Globo de Ouro 2015 premia a diversidade

13. janeiro 2015 Cinema 5
Globo de Ouro 2015 premia a diversidade

O Globo de Ouro, premiação do cinema e da televisão americana, aconteceu no último domingo e deixou muita gente surpresa com as estatuetas entregues. Mas algo me chamou muito a atenção: o Globo de Ouro premiou a diversidade humana em 2015.

Pelo terceiro ano consecutivo, Tina Fey e Amy Poehler foram as mestres de cerimônia do Globo de Ouro. Duas mulheres, feministas declaradas, apresentaram juntas um dos maiores prêmios da cultura americana. É muita representatividade. E ainda mais quando usaram seu espaço para cutucar certos padrões sociais engessados. A começar com piada com George Clooney, que receberia o prêmio de reconhecimento à sua carreira.

George Clooney casou com Amal Alamuddin neste ano. Amal é uma advogada de Direitos Humanos, que trabalhou no caso Enron, foi conselheira de Kofi Annan em relação à Siria e foi escolhida para participar de uma comissão de apenas três membros para investigar as violações de conduta de guerra na Faixa de Gaza.

Então, esta noite, seu marido vai receber um prêmio pelo conjunto de sua obra.”

Talvez esse seja um dos melhores comentários da noite. Mulheres são sempre tratadas como a “esposa” de alguém, e aqui a figura muda: George é o marido-troféu de uma mulher poderosa. <3

Em seguida, Tina Fey e Amy Poehler aproveitaram para zoar Bill Cosby, comediante acusado de drogar e estuprar 13 mulheres.

“E pela floresta Cinderela fugiu de seu príncipe, Rapunzel é jogada da torre por seu príncipe e a Bela adormecida achou que apenas ia tomar um café com Bill Cosby”.

E então começou a premiação. E começou muito bem. Gina Rodriguez, nascida em Chicago e descendente de porto-riquenhos, ganhou a estatueta de Melhor Atriz em Série de Comédia, por “Jane The Virgin”. Uma mulher latina sendo reconhecida num país racista com hispânicos e negros é incrivelmente importante e representativo. Em seu discurso, Gina diz:

“Esse prêmio é muito maior do que eu. Representa uma cultura que quer se enxergar como heróis. Meu pai me dizia para falar todos os dias que hoje vai ser um ótimo dia, eu posso, eu consigo. Bem, pai, hoje eu consegui”.

Matt Bomer, homossexual declarado, levou para casa o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante Série, Minissérie ou Filme feito para a TVpor sua atuação em ‘The Normal Heart‘, onde vive Felix, um homossexual com AIDS. Dos poucos atores que sabemos serem homossexuais, Matt Bomer ter seu trabalho reconhecido, inspira jovens no mundo todo a tornarem seus sonhos realidade.

“[Agradeço] Ao meu marido, Simon Halls, e a nossos três filhos, Kit, Walker e Henry, amo vocês por me aguentarem quando eu estava pesando 58 quilos e ficava muito mal humorado ao ver vocês comendo pizza. A todos na HBO obrigada por fazer filmes como este continuarem a ser ouvidos. (…) E à geração que perdemos e às pessoas que continuamos perdendo para esta doença, só queria dizer que amamos vocês e lembramos de vocês. Obrigado”.

Tivemos, também, no Globo de Ouro, Jeffrey Tambor levando a estatueta de Melhor Ator em Série de TV. Tambor dá vida a Maura Pfefferman, uma mulher transgênero, na série “Transparent”. A diversidade foi representada e a ‘família tradicional’, onde quer que ela esteja, pode começar a bater o pé.

“E, finalmente, se me permitirem, gostaria de dedicar minha performance e esse prêmio à comunidade transgênero. Obrigado, obrigado, obrigado. Por sua coragem. Obrigado por sua inspiração, por sua paciência e obrigado por nos deixar ser parte da mudança. Obrigado”.

A diversidade do Globo de Ouro não abraçou muito os negros, que eram poucos no local onde o evento era realizado e nas indicações. Apesar de “Selma” concorrer, o longa levou apenas o prêmio de Melhor Canção Original. O filme conta a história de Martin Luther King Jr. e suas marchas históricas pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. John Legend e o rapper Common aproveitaram o momento para lembrar que a igualdade ainda não foi conquistada.

“No primeiro dia em que entrei no set de ‘Selma’, senti que isso era maior do que um filme. Enquanto conhecia as pessoas do Movimento de Direitos Civis, percebi que eu sou aquela mulher negra esperançosa, que teve seu direito ao voto negado. Eu sou aquele apoiador branco que foi morto nas linhas de frente pela liberdade. Eu sou a criança negra desarmada, que talvez queria ajuda, mas que, ao invés disso, lhe foi dado um tiro. Eu sou aqueles dois policiais mortos enquanto cumpriam seus deveres. ‘Selma’ despertou minha humanidade. […] Olhamos para o futuro e queremos construir um mundo melhor. Agora é a hora de mudá-lo. ‘Selma’ é agora”. (Rapper Common em seu discurso)

“[…] Estou honrado por fazer parte deste filme incrível, que homenageia pessoas incríveis e que fizeram um ótimo trabalho e que se conecta com o que acontece hoje. Nós ainda somos solidários com aqueles que estão lutando por justiça”. (John Legend)

Claro que as mulheres também foram ótimas, bem representadas, e engrossando os discursos feministas. O Huffington Post fez um post bacana sobre os momentos feministas do evento.

O Globo de Ouro abraçou a diversidade em 2015. Assim espero que o mundo também seja: amoroso e respeitável com as diferenças.