Toda a situação envolvendo “Girls”, a nova música da Rita Ora, é problemática – não só a música

20. maio 2018 POP 0
Toda a situação envolvendo “Girls”, a nova música da Rita Ora, é problemática – não só a música

Se você acompanha de perto o mundo da música pop, provavelmente soube que Rita Ora está com uma nova música. Há pouco mais de uma semana, ela lançou “Girls”, uma canção bem pop chiclete com a participação das amigas Charli XCX, Bebe Rexha e Cardi B. Com um time desses, é difícil imaginar que algo pudesse dar errado. Infelizmente, deu.

A cantora tem feito um retorno animador ao cenário musical, lançando boas músicas desde o ano passado (“Anywhere” e “Your Song” estão aí como prova), demonstrando sua vontade de ascender nas paradas e fazer sucesso. “Girls” faz parte dessa sua tentativa de voltar aos charts e, segundo a própria Rita, o single poderia até ser um “hino bissexual”.

“Definitivamente, eu quero que ela seja um hino para alguém”, disse a artista para a revista People. “Eu quero que todo mundo se sinta livre ao ouvi-la”. Em um dos versos da música, a artista parece revelar sua própria bissexualidade cantando: “eu não tenho um lado, tenho a mente aberta/ sou 50/50 e nunca vou esconder isso”.

Contudo, logo que a canção saiu, vieram as primeiras críticas. Isso porque, em outro verso, Rita canta: “e na noite passada, nós ficamos com o cara/ eu o vi, ele estava olhando para você/ então, eu disse: ‘ei, amor pela erva'” e “às vezes. eu só quero beijar meninas, meninas, meninas/ vinho vermelho, eu só quero beijar meninas, meninas, meninas”.

Como você pode imaginar, o alerta vermelho de muita gente foi aceso.

A julgar pelos versos, é como se, mais uma vez, a bissexualidade não fosse real, mas uma fase ou algo que garotas gostam de fazer quando estão bêbadas. Não só isso, a impressão que se tem é que essa experiência é puramente por curiosidade, anulando o afeto genuíno que mulheres lésbicas e bissexuais sentem umas pelas outras. E há ainda quem acredite que “Girls” também alimente o famoso olhar masculino, que sexualiza e transforma a experiência feminina em fetiche para homens.

Uma das primeiras a expressar indignação contra a música foi Hayley Kiyoko, que é assumidamente lésbica. No dia de lançamento de “Girls”, ela foi ao Twitter se manifestar sobre o conteúdo da música. 

“Uma música como essa somente alimenta o olhar masculino e marginaliza a ideia de uma mulher amando outra”, escreveu Hayley. “Eu não preciso beber vinho para beijar garotas; eu amei mulheres a minha vida toda. Esse tipo de mensagem é perigosa porque diminui e invalida os sentimentos de uma comunidade inteira”.

Kehlani, outra artista queer, também demonstrou sua insatisfação, escrevendo no Twitter: “não tornem isso em algo pessoal. Eu tenho uma música com uma das artistas e adoraria trabalhar com as outras três também. Conheci todas elas e as respeito. [Mas] Houve. Letras. Ofensivas. Ponto final”.

Katie Gavin, do trio MUNA, é bissexual e foi outra a comentar a canção de Rita Ora, dizendo que ela a lembrou quando “era uma jovem bissexual confusa que beijava meninas em festas e era ridicularizada por outras meninas, porque eu parecia curtir demais aquilo”. A artista acrescentou ainda que viu esse cenário se repetir em “Girls”. “Eu ouço o refrão familiar de que a sexualidade de uma mulher foi feita para ser observada em vez de ser sentida de verdade”.

Essas três opiniões são importantes, pois são três mulheres que se relacionam com mulheres, falando sobre um produto cultural que, em tese, deveria representá-las. Obviamente, elas não se sentiram representadas pelo o que ouviram.

Contra Rita Ora está o fato de que ela se inspirou em “I Kissed a Girl”, de Katy Perry, para fazer sua música. Lançada há 10 anos, a canção foi responsável por levar a California gurl ao estrelato, mas também enfrentou as mesmas críticas que “Girls” vem recebendo. Recentemente, a própria Katy disse que reescreveria seu single de estreia, por conta dos estereótipos que ele possui. “Sua mente muda muito em 10 anos e você cresce bastante”, afirmou a cantora.

Examinando a letra, é possível concordar que ela é problemática. E se alguém acha que ela alimenta o olhar masculino, isso pode ser devido ao fato de que a maioria dos compositores da música são homens. A indústria musical tem um grande problema de gênero, que se reflete no mais recente trabalho de Rita Ora: mais uma vez, temos homens escrevendo sobre experiências que não são suas. Pior ainda, eles acrescentam expressões misóginas ao contexto (“eu coloquei o leão numa jaula”/”eu sou a caçadora e você a presa” – estamos mesmo comparando mulheres a animais?).

Mas Rita e Cardi B também estão nos créditos de composição da canção e, depois das críticas que receberam, vieram a público para pedir desculpas à comunidade LGBT, acrescentando, porém, que já tiveram relações afetivas e sexuais com mulheres no passado. “‘Girls’ foi escrita para representar minha verdade e reflete de maneira honesta uma experiência da minha vida. Eu tive relacionamentos românticos com mulheres e homens por toda a minha vida e essa é a minha jornada pessoal”, escreveu Rita no Twitter.

“Eu tive experiências com mulheres. Muitas mulheres! Eu achei que a música era boa e me lembrava das minhas experiências”, disse Cardi B na mesma rede social. A rapper já havia dito que era bissexual antes, mas vale lembrar que a rapper tem um passado ruim envolvendo a comunidade LGBT, usando termos pejorativos contra lésbicas e mulheres trans. Ela aproveitou para dizer que parou de usá-los depois que aprendeu que as palavras tinham conotações negativas, porém, isso precisa ser colocado na balança.

Com a saída do armário de Rita, algumas questões ficam no ar, tornando toda a situação envolvendo o lançamento de “Girls” ainda mais problemática. Primeiramente, podemos concordar que não é positivo que ela associe beber álcool para ficar com uma menina, mas essa não é a experiência dela? Quero dizer, eu tenho amigos e amigas que, antes de conseguirem assumir quem são, só conseguiam ficar com meninos e meninas quando estavam bêbados. Não é o ideal e talvez nem algo a ser encorajado, mas por que não pode ser uma experiência real?

LGBTs são múltiplos, isto é, a experiência de uma pessoa jamais vai refletir a experiência de todos. Portanto, seria justo condenar Rita Ora dessa maneira, forçando-a, inclusive, a ‘assumir-se’ bissexual para o mundo todo? Ela não utilizou a palavra com ‘b’ em seu pedido de desculpas, mas ficou claro o que ela quis dizer. Ao mesmo tempo, Harry Styles lançou uma música nova chamada “Medicine”, na qual canta sobre ficar com meninos e meninas – e de maneira muito mais vaga, diga-se de passagem – , e não recebeu a mesma quantidade de comentários negativos na internet. Se é que recebeu algum.

Das quatro cantoras em “Girls”, três delas assumiram ter ficado com mulheres em algum momento da vida (Charli XCX é a única heterossexual, o que nos faz pensar no motivo para ela estar nessa faixa). Bebe Rexha disse que a música “continua sendo verdade” para quem ela é e “é honesta” para ela. Por isso, ela preferiu não pedir desculpas pelo trabalho. 

“Eu beijei garotas, você sabe o que eu quero dizer?”, disse a cantora ao site da revista Entertainment Weekly. “E eu não faço isso porque é divertido ou algo assim. Você tem que ser totalmente lésbica para lançar uma música sobre beijar meninas? E se você for bi? Não é o ponto da comunidade LGBTQ que você pode amar quem você quer e não ser julgado?”.

E ela tem um ponto. Ninguém havia escutado nenhuma delas falar abertamente sobre terem se relacionado com mulheres antes, o que obviamente nos fez pensar que elas estavam apenas tentando lucrar em cima da comunidade LGBT. Contudo, isso não quer dizer que não sejam bissexuais ou pansexuais. Todos nós sabemos que falar a sua verdade e sair do armário são coisas muito particulares. Dito isso, será que não estamos agindo de forma a coibir uma pluralidade de experiências? Mesmo que elas não nos representem, elas não deixam de ser reais.

De novo, “Girls” é problemática em alguns pontos, e está longe de ser um “hino bissexual”, mas será que não estamos invalidando a bissexualidade de alguém ao criticarmos certos aspectos da canção? Precisamos melhorar muito a representação LGBT na música. Com sorte, depois das críticas envolvendo Rita Ora, começaremos a chegar lá.