Gina Rodriguez, de ‘Jane the Virgin’, e a identidade cultural

Gina Rodriguez, de ‘Jane the Virgin’, e a identidade cultural

Gina Rodriguez está no ar, na televisão americana, como Jane Villanueva, no seriado ‘Jane The Virgin‘, transmitido pelo canal CW. A atriz nascida em Chicago, descende de porto-riquenhos, e recebeu no último domingo (11), o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Série de Comédia. Gina, com prêmio em mãos, aproveitou aquele momento para lembrar que a sua vitória era, também, de toda a comunidade latina:

https://www.youtube.com/watch?v=F7VZnWX8Jho

“Esse prêmio é muito maior do que eu. Representa uma cultura que quer se enxergar como heróis. Meu pai me dizia para falar todos os dias que hoje vai ser um ótimo dia, eu posso, eu consigo. Bem, pai, hoje eu consegui”.

Gina Rodriguez é mais uma prova de como a representatividade importa. Uma latina representar um papel principal na televisão americana dá esperança a tantos jovens que não conseguem se enxergar nas produções existentes, que se tornam invisíveis aos olhares do público, mas que existem e merecem seu espaço. E é a esses jovens – e de tantos outros que não se veem representados – que Gina espera atingir com seu sucesso. Quando soube de sua indicação ao Globo de Ouro, a atriz contou ao Buzzfeed:

“Só o fato de ter sido a primeira pessoa reconhecida pelo canal CW e o fato de que sou latina, seria empoderador… E estou empoderada por isso. Porque se eu consigo, significa que há tantos outros que podem conseguir também. É aquele ideal de que se você torna seus sonhos realidade, você permite que outras pessoas sonhem e tentem fazer seus sonhos realidade. Isso é tudo o que eu fiz: eu abri comportas”.

Gina em seu papel como Jane
Gina em seu papel como Jane

Além de inspirar jovens, Gina quer que a diversidade nas produções transforme não só a mídia, mas a sociedade como um todo, afinal, com mais representatividade, seja na televisão, cinema, música e em qualquer forma de arte, é possível que o mundo mude; e que os espaços antes ocupados por alguns, sejam divididos por todos.

“Espero que a diversidade na televisão já esteja mudando a cabeça das pessoas e tornando-as  mais tolerantes ao que elas não sabem. A ideia de igualdade e de luta por ela é especialmente importante agora com os casos de Ferguson e Eric Garner.

Esse “risco” de ter uma linda mulher negra como personagem principal não existe, porque acho que os telespectadores e redes de TV estão começando a perceber que nós merecemos isso. Nós esperamos demais por isso, nos conectamos a isso e precisamos disso [representatividade]. Precisamos de tolerância neste país e no mundo todo. Precisamos de exemplos para mudarmos o mundo para melhor. E se podemos fazer isso através da arte, maravilha!”

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Jane Villanueva é o primeiro grande papel da atriz na televisão americana. E o papel foi escolhido a dedo por Gina, que recusou-se em interpretar uma empregada na série ‘Devious Maids‘. Quando perguntada sobre o assunto, durante uma coletiva de imprensa da Associação de Críticos de Televisão, em julho do ano passado, Gina fez um lindo discurso sobre identificação cultural.

“Eu não diria que escolhi Jane ao invés de Devious Maids. Quando fui apresentada a Devious Maids, depois de Sundance, depois de ter filme em Sundance e ter um contrato com a ABC, achei limitador que esse era o papel disponível para mim. Achei limitador pelas histórias que os latinos têm. Pelas histórias que os americanos têm, eu sinto que há uma percepção sobre o povo latino nos Estados Unidos, especificamente, onde somos vistos de uma certa maneira.

Nossas histórias foram contadas, e elas não são imorais. Ser uma empregada é fantástico. Sabe, eu tenho em minha família, pessoas que alimentaram suas próprias famílias com esse trabalho, mas há outras histórias que precisam ser contadas. E acho que a mídia é uma forma de educar e ensinar nossa próxima geração. E, infelizmente, hoje, a percepção que eles (mídia) têm de nós, latinos que vivem nos Estados Unidos, são de que somos empregados, paisagem, jovens grávidas. Devo lembrar que interpreto uma grávida, mas não uma adolescente.

Eu não virei uma artista para ser milionária. Eu não quis ser atriz para usar Louis Vuitton. Tenho que devolver esse vestido quando acabarmos a coletiva. Eu quis ser atriz para mudar a forma como cresci. E da forma como cresci, nunca me vi na tela. Tenho duas irmãs mais velhas. Uma é uma banqueira de investimentos. A outra é médica, e eu nunca nos vi sendo interpretadas como banqueiras de investimento. E eu percebi como isso era limitador para mim. Eu olhava para a tela da TV e pensava, ‘Bem, não é possível que eu possa fazer isso, porque eu não estou ali’. E é como se logo que você segue seus sonhos, você dá a permissão para outras pessoas de seguirem os seus.

E para mim, olho para mulheres mais novas e dizem, ‘Bem, a Gina é como eu, talvez não necessariamente da mesma cor, talvez não tenhamos as mesmas histórias de vida, mas sou eu. Não estou sozinha. Eu também consigo’. Então, todo papel que escolhi são aqueles em que eu posso passar adiante a ideia da minha cultura, de mulher, de beleza, minha ideia de jovens mulheres que sentem que precisam se espelhar em um específico tipo de beleza. Eu não iria deixar que minha introdução neste mundo fosse uma história que eu acho que já foi contada diversas vezes.

Eu queria que fosse uma história que liberasse jovens mulheres e dissesse: ‘Uau, estamos ali também, e somos médicas, e somos professoras, e somos escritoras e advogadas, e eu posso fazer isso também. E eu não preciso ser tamanho 34. Eu posso ser meu tamanho perfeito’. E é por isso que eu vivo. Então, eu esperei pacientemente por ‘Jane’. E agora ela está aqui. E eu a agradeço por isso. Porque é um sonho realizado para mim”.

O motivo pelo qual dou destaque a Gina Rodriguez aqui é por conta de sua luta, a seu modo, para que a representatividade latina – e tantas outras – ganhem espaço nas produções. E quero isso no Brasil também. A partir do momento em que assimilamos seu contexto ao brasileiro, podemos perceber, por exemplo, a baixa representatividade de negros em papéis principais em novelas. Ou de casais homossexuais que vivem uma vida como a de qualquer casal heterossexual. Gina é americana, mas seu apelo por representatividade é universal. Representatividade importa. Identificação cultural importa. É aí que nos vemos como seres humanos. Nos sentimos parte de algo. Nos sentimos parte de uma sociedade, que ainda fecha os olhos para sua pluralidade.

https://www.youtube.com/watch?v=bgDz0s7xw8A