Por que filmes e séries têm tanto medo da palavra bissexual?

Por que filmes e séries têm tanto medo da palavra bissexual?

Embora exista muito o que melhorar na representação LGBTQ em filmes e séries, não dá para negar que histórias sobre essa população têm conquistado cada vez mais espaço na mídia. Porém, nem todas as letras têm sido contempladas – especialmente os bissexuais. Além de serem representadas em menor quantidade, essas pessoas dificilmente vão dizer com todas letras que são bissexuais. E isso importa.

A detetive Rosa Diaz (Stephanie Beatriz), do seriado “Brooklyn Nine-Nine”, a médica Callie Torres (Sara Ramirez), de “Grey’s Anatomy”, e o advogado Darryl Whitefeather (Pete Gardner), de “Crazy Ex-Girlfriend”, são poucos exemplos de personagens que saíram do armário dizendo: ‘sou bi’. Além deles, há mais personagens bissexuais na TV e no cinema, porém, quando falam sobre sua sexualidade, é tudo muito vago: os roteiristas optam pelo famoso “não gosto de rótulos”,ou fazem com que os personagens digam que gostam de pessoas e não de gêneros, ou pior ainda, comentam que estão em uma “fase”, como se a bissexualidade não fosse uma orientação sexual válida.

Em “Orange Is The New Black” isso é muito recorrente: a personagem central, Piper (Taylor Schilling), recorda seus relacionamentos com homens e mulheres, mas evita ao máximo dizer que é bissexual. A adorável Lorna Morello (Yael Stone), que tem um relacionamento com um homem e com outra detenta, a durona Nicky (Natasha Lyonne), é outra mulher na série da Netflix que foge ao definir sua sexualidade. Até Brook Soso (Kimiko Glenn), que namora com Poussey (Samira Wiley), não se diz bissexual ou pansexual, mas prefere dizer que se sente “atraída por pessoas e não gêneros”Elas não são as únicas: em “How To Get Away With Murder”, descobrimos que Annalise Keating (Viola Davis) é bissexual, demonstrando que teve, e ainda tem, relacionamentos com homens e mulheres. Contudo, ela também evita se rotular.

No filme “Power Rangers”, Trini (Becky G), tem problemas com seu relacionamento com uma menina, mas não se sabe se ela é lésbica ou bissexual, já que ela não diz nada sobre isso e o filme não se aprofunda na questão. Em outra produção, “500 Dias Com Ela”, Summer (Zooey Deschanel) conta que já teve um romance com outra mulher, mas além de não se rotular, o fato é utilizado para adicionar um elemento de esquisitice e de garota cool a ela. Ou seja, Hollywood parece ter medo da palavra bissexual.

E não é errado dizer que você se atrai por pessoas e não gêneros. Em um mundo ideal, assumir-se gay, lésbica ou bissexual não importaria, mas ainda não estamos nele. Por isso, palavras importam muito, especialmente quando falamos em produtos de massa como filmes e seriados: quando personagens LGBTQs assumem quem são, ajudam a impedir a invisibilização dessas pessoas e colocam suas existências como legítimas e reais. Ser bissexual, assim como ser gay, lésbica ou heterossexual, não é uma fase ou sinônimo de estar confuso.

Aliás, é preciso dizer que os relacionamentos que esses indivíduos desenvolvem não determinam a orientação sexual: um homem pode se relacionar com outro homem ou uma mulher e ainda ser bissexual. Uma mulher pode namorar outra mulher ou um homem e ainda ser bissexual. Ou seja, ao se afirmarem bissexuais, os personagens combatem os estigmas que envolvem essa orientação sexual, a qual recebe bem menos atenção que gays e lésbicas.

Indo além, vale ressaltar a importância de uma representação positiva na mídia, pois ela contribui para que possamos achar nosso lugar no mundo e ajuda a quebrar preconceitos. No caso de bissexuais, isso é fundamental, pois essas pessoas, especialmente as mulheres, têm uma propensão maior a desenvolver transtornos mentais e a entrar em relacionamentos abusivos. 

Palavras importam muito. Seria ótimo que Hollywood – e até o audiovisual brasileiro – abraçasse a bissexualidade. Diga a palavra, ela não vai machucar ninguém. Pelo contrário, vai fazer um bem enorme.