Nós precisamos de mais filmes como “Com Amor, Simon”

12. março 2018 Cinema 1
Nós precisamos de mais filmes como “Com Amor, Simon”

É verdade que “Com Amor, Simon” ainda não estreou nos cinemas, mas o filme já é um marco e tanto. Essa é uma das raras produções nas quais a população LGBT, especialmente a mais jovem, finalmente poderá se ver representada. Isso acontece porque o personagem principal, o tal Simon (Nick Robinson), é um garoto gay que está lidando com sua sexualidade.

Filmes adolescentes não são uma novidade. Pelo contrário, é bem provável que você já tenha assistido “Meninas Malvadas”, “As Vantagens de Ser Invisível”, “10 Coisas que Eu Odeio em Você”, “Sexta-Feira Muito Louca”, “A Culpa é das Estrelas” e outros nessa linha. Contudo, todos são centrados nas experiências dos personagens heterossexuais (eu não consigo pensar em nenhum filme teen protagonizado por LGBTs – e não estou contando “Azul é a Cor Mais Quente”). Por isso, é ótimo que estejamos FINALMENTE vendo um longa-metragem com um personagem gay no centro da narrativa. 

Mas esse não é o único mérito que “Com Amor, Simon” possui. Ele é mais uma obra LGBT a tratar a homossexualidade como uma coisa normal, e mais um que não termina com o personagem LGBT sendo morto ou expulso de casa pela família. 

Sim, a violência faz parte da vida de muitos LGBTs (especialmente no Brasil, que lidera no ranking de crimes contra gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans), mas é bom ver um filme no qual nós podemos ter um final feliz como todo mundo; um no qual podemos ter a esperança de que é possível ter um futuro.

“Com Amor, Simon”, se junta a produções lançadas nos últimos anos que também não terminam em mortes e violência. Recentemente, tivemos o indicado ao Oscar “Me Chame Pelo Seu Nome”, o qual traz a história de um adolescente, o inteligente Elio, descobrindo seu desejo e tendo seu coração partido pela primeira vez.

Houve quem achasse o longa do diretor Luca Guadagnino “vazio”, por não trazer nenhum tipo de mensagem contra a homofobia. Embora seja louvável que filmes com temática LGBT abordem a homofobia e a transfobia, também é muito bom ver nossas experiências sendo tratadas com naturalidade, a ponto de que audiências homossexuais e heterossexuais possam se ver representadas ali. Nesse caso, representadas em um menino que sofre com a perda de seu primeiro amor.

E esse não é o único filme que não termina de forma violenta para LGBTs: “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, do diretor Barry Jenkins, também traz um personagem gay lidando com a sua identidade. Vencedor do Oscar de Melhor Filme no ano passado, o longa pode ter sido mais político do que “Me Chame Pelo Seu Nome” (estamos falando de gays negros sendo representados, algo raro no cinema e na TV), mas também traz uma mensagem positiva ao final.

Além deles, há também o elogiado “Carol”, protagonizado pro Cate Blanchett e Rooney Mara, as quais vivem duas mulheres em um intenso romance lésbico. A produção também foi indicada ao Oscar, mas infelizmente não venceu nenhum prêmio. Ainda assim, a falta de estatuetas douradas não tira em nada a beleza e a qualidade da obra.

Porém, “Me Chame Pelo Seu Nome”, “Moonlight” e “Carol” são filmes artísticos, que não têm o público jovem como a principal audiência, diferente de “Com Amor, Simon”. Embora muitos adolescentes tenham a curiosidade de ver os três primeiros, é bem mais provável que eles encontrem uma identificação maior com o último, que mesmo não tendo uma fórmula inovadora, ainda tem seu encanto e charme.

Com tudo isso dito, é muito importante que mais produções como essas apareçam. Para que além da representação, o público LGBT possa sentir que é visto e que há lugar para todos no mundo. Talvez “Com Amor, Simon” fosse mais ‘atual’ há 10 anos, quando personagens LGBT eram ainda mais escassos e, frequentemente, eram alvos de piadas.

Contudo, isso não tira a importância do longa, que permite que muitos jovens possam ter suas identidades validadas, assim como vai fazer a alegria de pessoas como eu, que há 10 anos, nem sonhava que um filme adolescente com um protagonista gay poderia existir. Isso não tira só um sorriso da gente, mas dá esperança de que mesmo em uma realidade dura, nós estamos avançando.

“Com Amor, Simon” chega aos cinemas no dia 22 de março. E tomara que venham outros como esse depois dele.