Colocar uma família exclusivamente negra em um comercial já é trabalhar pela diversidade

Colocar uma família exclusivamente negra em um comercial já é trabalhar pela diversidade

Durante a semana, um comercial d’O Boticário deu o que falar nas redes sociais. Dois anos depois de um vídeo para a campanha do Dia dos Namorados receber uma enxurrada de críticas e pedidos de boicote à marca por simplesmente apresentar um casal gay e lésbico, dessa vez houve muita gente incomodada com um comercial de Dia dos Pais, o qual é todo protagonizado por uma família negra.

Não há nada negativo ou ofensivo na propaganda, apenas um pai que ama ser pai, demonstrando como é a relação com os filhos e exibindo os produtos da empresa. Porém, o simples fato de que aquela família é formada por negros, despertou o racismo de muita gente, que começou uma campanha de dislikes no vídeo na conta do Youtube d’O Boticário.

Nos comentários, houve quem dissesse absurdos como uma suposta falta de diversidade na peça publicitária, afinal, não há brancos nela. Houve ainda quem sugerisse que não compraria mais produtos da marca, pois se o comercial foi feito apenas com negros, não havia sentido para brancos consumirem aqueles cosméticos. Também houve comentários de que estava acontecendo uma “exclusão sistemática de brancos” na propaganda brasileira.

Veja o comercial abaixo, que depois da mobilização da internet (iniciada com um tweet do @lexandre), já conta com quase 8 milhões de visualizações, 122 mil curtidas e mais de 10 mil comentários.

Não há nada de errado com o comercial, o qual apresenta uma família muito bonita e amorosa. Aliás, o fato de não apresentar qualquer pessoa branca nele não o torna ‘racista’ (entre aspas, pois não existe racismo contra brancos), mas um passo na construção de uma publicidade inclusiva. 

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) negros representam 54% da população, ou seja, mais da metade dos brasileiros. Com isso, seria fácil imaginar que a maioria dos personagens em comerciais, novelas, filmes e seriados também seria negra. Contudo, não é o que acontece. Embora a representação negra esteja melhorando na mídia, ela está longe de ser ideal.

De acordo com uma pesquisa recente, que analisou 1.822 comerciais de TV, apenas 11% dos personagens nas peças publicitárias são homens negros. No que diz respeito às mulheres negras, elas representam somente 16% das personagens. Ou seja, o argumento de que ‘falta diversidade’ – em outras palavras, gente branca – no comercial d’O Boticário não se sustenta. O que falta mesmo são campanhas que tragam mais negros e negras.

“A gente vê mais diversidade, a gente vê mais situações empoderadoras, mas o que a gente vem percebendo é que essas mudanças não vêm acontecendo na velocidade que se espera. E na velocidade que essas discussões estão acontecendo na sociedade”, disse Bel Aquino, responsável pela pesquisa, em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo.

Os percentuais podem ser pequenos ainda, mas demonstram uma pequena evolução quando comparados com um levantamento de dois anos antes, feito pela agência de publicidade Heads. Naquele ano, brancos foram 7 vezes mais representados do que os negros em comerciais, e a maioria das mulheres eram retratadas como brancas (84%), jovens (87%), magras (50%) e com cabelos lisos (62%). E no que diz respeito aos cabelos, também houve uma melhora: 65% dos comerciais de hoje trazem mulheres com os fios ondulados, cacheados ou crespos.

Esse progresso é um reflexo das campanhas lideradas pelo movimento negro para que a população negra seja devidamente representada na mídia, tanto em qualidade como em quantidade. Há ainda um longo caminho a ser percorrido, especialmente no audiovisual brasileiro: segundo dados da Ancine, a Agência Nacional do Cinema,  dos 142 filmes nacionais lançados em 2016, 75,4% (107) foram dirigidos por homens brancos. As mulheres ficaram responsáveis pela direção de 19,4% (28) deles, sendo todas elas brancas. Homens negros comandaram 2,1% (3) das obras. As mulheres negras, de acordo com o relatório da Ancine, não tiveram espaço no cinema.

É importante levantar esse debate sobre representatividade nas imagens apresentadas pela mídia. Elas ajudam a formar nossa visão de mundo e nossa própria percepção acerca de nós mesmos. Não estar presente em comerciais, filmes ou novelas é como se alguém dissesse que certa identidade não é válida ou que não seria humana. O mundo real é diverso. E é preciso que a mídia também seja.