Existe um shampoo em formato de cerveja, pois a masculinidade é algo muito frágil mesmo

Existe um shampoo em formato de cerveja, pois a masculinidade é algo muito frágil mesmo

Não há nada mais frágil no mundo do que a masculinidade, esse conjunto de regras de como homens devem ser e se portar.

Desde pequenos aprendemos que homens não choram, não brincam com bonecas, não demonstram sentimentos, não negam sexo, não podem brochar, não podem abraçar ou beijar outros homens, precisam ser agressivos e têm horror a tudo que é associado ao feminino, pois não podem ser vistos como “gays”, ou seja, não podem correr o risco de ser “menos” do que um “homem de verdade”.

Manter tudo isso é trabalhoso, já que é preciso negar sua subjetividade e provar que é “homem com H” o tempo todo. Por isso mesmo, várias empresas trabalham para ajudar os homens nessa difícil tarefa, criando produtos iguais aos vendidos para as mulheres, com exceção de que as embalagens são azuis, ou estampadas com os dizeres “PARA HOMEM”, ou em forma de algum item que remeta ao masculino.

Um desses exemplos disso é o shampoo Badass, da OX Men, que vem em formato de cerveja, afinal de contas, homens não podem ser vistos comprando shampoos, certo? Imagine um homem preocupado com sua higiene pessoal? Tirem a carteirinha dele!

O comercial acima parece absurdo, mas infelizmente ele é real e problemático, pois reforça estereótipos acerca da masculinidade (o estilo “lenhador”, o roqueiro, o esportista, o cara que quer se dar bem com as mulheres), ao mesmo tempo em que perpetua a imagem da mulher como objeto e gays como “menos homens”. E fica pior: o comercial foi premiado.

Esse ideal de masculinidade, o qual proíbe os homens até mesmo de comprarem um simples shampoo, precisa ser desfeito.

O documentário “The Mask You Live In” (“A Máscara que Você Veste”), lançado em 2015, mostra exatamente como a masculinidade é tóxica e faz mal a meninos e homens, limitando suas experiências pelo medo de serem minimamente comparados ao que é considerado feminino, dando continuidade a um ciclo de violência e de desgaste emocional.

Na Inglaterra e País de Gales, o suicídio é a principal causa de morte de homens entre 20 e 34 anos, 24%. Isso porque eles são mais propensos a rejeitar pedir ou aceitar ajuda, o que resulta na adoção de comportamentos autodestrutivos e de risco, como o abuso do álcool, por exemplo.

Essa resistência a pedir e aceitar ajuda está ligada à pressão que sofrem para que não demonstrem fragilidade e para que resolvam tudo sozinhos. “Eles estão tão fora de contato com suas emoções que nem percebem, por exemplo, que estão deprimidos”, diz a Associação Americana de Psicologia. Há, inclusive, um nome para essa dificuldade de meninos e homens em externar o que estão sentindo, é a chamada “alexitimia”.

Nos últimos anos, campanhas como a “Homens, Libertem-se” e “Be a Man” têm tentado conscientizar os homens sobre a toxicidade da masculinidade e como é possível ter uma vida muito melhor quando não reprimimos o que sentimos e autênticos com quem somos, levando, o que é benéfico para nossa saúde física e mental.

É por isso que não precisamos de marcas reforçando uma masculinidade tóxica aos homens. Precisamos é construir uma nova forma de masculinidade – ou até mesmo jogá-la fora -, para que possamos criar homens capazes de expressar sentimentos e serem eles mesmos, sem amarras e julgamentos.

“Você não perde a masculinidade”, diz o comercial da OX. Honestamente, eu quero mais é que a masculinidade vá para o lixo.