Existe um grande problema no ensaio de Bruno Gagliasso como uma mulher trans

16. novembro 2017 Famosos 0
Existe um grande problema no ensaio de Bruno Gagliasso como uma mulher trans

Tenho certeza que motivos não faltam para elogiar Bruno Gagliasso. Seja por seu trabalho na televisão, seja por sua beleza ou seu apoio às causas LGBT, o ator tem uma boa relação com o público. Contudo, isso não quer dizer que ele esteja imune a críticas – especialmente por um recente ensaio fotográfico, no qual ele estaria interpretando uma mulher trans.

As fotos do artista foram feitas por Eduardo Bravin para a exposição “RE.VER.SO”, de seu cunhado Gian Luca Ewbank e de Vini Parisi. Nas imagens, Bruno aparece sem barba, com uma toalha na cabeça e cigarro em mãos.

“Nessa mostra, optei por uma temática que é muito falada, mas pouco sentida: a diversidade. Seja ela de cultura, cor ou gênero. Forçando o debate que é atual, mas mesmo assim, ainda está entranhado em antigos padrões. Procurei a ruptura do que é rotulado como ‘correto’ ou ‘perfeito’. Abordando a beleza de nossas diferenças, quero fazer o pensar que o respeito está diretamente ligado a nossa evolução/ construção social”, escreveu Gian Luca no Instagram.

O problema não gira em torno da qualidade das imagens, mas em torno do que elas buscam retratar. Você pode gostar das fotografias, mas não dá para negar que um homem branco e cisgênero (que se identifica com o gênero atribuído ao nascer) não representa mulheres trans. E colocar uma toalha na cabeça não é nem de longe o suficiente para definir alguém como transexual. Se o objetivo da mostra é celebrar a diversidade, por que não fotografar uma mulher trans de verdade?

Homens cisgêneros interpretando mulheres trans não são novidade, muito menos “rompem” com padrões. Aliás, é mais comum do que se imagina, principalmente no que diz respeito ao cinema e televisão: Matt Bomer, Jeffrey Tambor, Eddie Redmayne e Jared Leto são exemplos fáceis, que logo vêm à mente quando pensamos na questão de representação trans. Também vimos mulheres cisgêneras fazendo o mesmo, dando vida até a homens trans: Carolina Ferraz, Carol Duarte, Michelle Rodriguez, Elle Fanning e Hillary Swank.

Ao mesmo tempo, estima-se que 90% das pessoas trans estão trabalhando na prostituição (e não por vontade própria, mas porque são empurradas para esse caminho). Ou seja, a melhor maneira de oferecer novas perspectivas seria justamente dar o lugar de visibilidade a uma mulher trans, cuja identidade é que é estigmatizada e colocada às margens. Um homem cisgênero, como vimos, não “rompe” com nada nesse sentido.

Aliás, a escolha de um homem cis chega a ser perigosa, pois fortalece o estereótipo de que mulheres trans não passam de “homens de saia” ou uma fantasia. A violência contra pessoas trans permanece alta, e o que não precisamos é de exposições que fortaleçam a estigmatização desses indivíduos, os quais têm uma expectativa de vida de 35 anos, em média, no Brasil.

Portanto, Bruno Gagliasso pode ser um ótimo ator e aliado das causas LGBT. Porém, uma forma mais eficaz de demonstrar seu apoio às pessoas trans é ceder seu espaço a uma delas. Saber sacrificar seu holofote para um bem maior é uma atitude de aliado. Mas aqui estamos nós, batendo na mesma tecla. E vamos continuar batendo nela até que entendam: pessoas trans merecem mais. Muito mais.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *