A evolução das mulheres no Universo Cinematográfico Marvel

20. junho 2018 Cinema 0
A evolução das mulheres no Universo Cinematográfico Marvel

Em 10 anos de Universo Cinematográfico Marvel, fomos levados ao espaço, aos quatro cantos do mundo e a territórios fictícios. E mesmo tendo viajado a lugares inimagináveis e visto criaturas incríveis, ainda não vimos um filme solo de uma super-heroína.

Nessa última década, recebemos três longa-metragens do Homem de Ferro, outros três do Capitão América e Thor, um do Hulk e dois dos Guardiões da Galáxia. Doutor Estranho, Homem-Formiga, Homem-Aranha e o Pantera Negra foram introduzidos ao UCM, e embora o último seja um marco por ser o primeiro filme de herói negro da Marvel, nenhuma mulher ganhou uma produção para chamar de sua.

O cenário, contudo, vai mudar: em julho, a Vespa (Evangeline Lilly) será a primeira mulher a ser protagonista de uma produção da Marvel, ainda que divida o posto com o Homem-Formiga (Paul Rudd). E em 2019, Capitã Marvel (Brie Larson) fará sua estreia nas telonas antes de aparecer novamente no segundo capítulo de “Vingadores: Guerra Infinita”.

São conquistas que ainda virão, e que mostram o quão devagar o UCM acompanhou as mudanças sociais e na representação feminina no cinema. Contudo, mesmo que tenha demorado para que elas ganhassem seus próprios filmes, isso não significa que não houve uma evolução na representação feminina nas produções da Marvel. Da donzela em perigo até donas de suas próprias histórias, com certeza, elas tiveram uma longa caminhada.

Pepper Potts (Gwyneth Paltrow), de “Homem de Ferro”; a esquecida Betty Ross (Liv Tyler), de “O Incrível Hulk”; e Jane Foster (Natalie Portman), de “Thor”, foram algumas das  primeiras mulheres a serem apresentadas no UCM. Nenhuma delas possui poderes especiais, mas ao menos possuem profissões interessantes: enquanto a primeira é a CEO das empresas Stark, as outras duas são cientistas. Não é sempre que vemos mulheres nesses papéis em filmes, e ao pensarmos que, fora da ficção, a quantidade de líderes e cientistas femininas ainda é pequena, é positivo vê-las ocupando essas funções.

Porém, as três personagens pouco contribuem para as narrativas onde estão inseridas, funcionando, em geral, como interesses românticos dos super-heróis. Elas possuem pouca agência, fazendo suas escolhas com base nos seus parceiros, e acabam sempre em situações em que precisam ser resgatadas por eles. Pepper, Betty e Jane sofrem da síndrome da donzela em perigo tão comum nas antigas animações da Disney, e quase nunca saem dessa posição de vítima.

Pepper ainda tem uma cena de luta interessante em “Homem de Ferro 3”, mas em um traje curto e justo, feito para agradar o olhar masculino, o qual atrela poder à sexualidade. Não só isso, no mesmo filme, Tony Stark (Robert Downey Jr.) ainda diz que vai “consertá-la”, depois de sua amada ter sido infectada por um vírus que deu a ela super poderes. Essa decisão de ser “consertada” não é dela, mas de Tony, tirando a autonomia de Pepper em escolher o que ela quer. 

As personagens femininas também servem para desenvolver o arco dos heróis. De certa maneira, elas são tratadas quase como deusas, não tendo defeitos e com um coração que tudo suporta e tudo aceita, transformando os protagonistas em pessoas melhores, mais emotivas e empáticas. Gwyneth Paltrow, Liv Tyler e Natalie Portman, fazem muito com o pouco que têm. O que é uma pena, pois as três atrizes já demonstraram ter talento e capacidade de sobra para salvar o mundo.

É em “Homem de Ferro 2” (2010) que vemos uma personagem feminina mais complexa e cheia de si, a qual continua no cinema até hoje (infelizmente sem um filme próprio): Natasha Romanoff, a Viúva Negra (Scarlett Johansson). Ela surge como assistente pessoal de Tony Stark, que a contrata com base na aparência dela. Mal sabia ele que Natasha era uma agente secreta da S.H.I.E.L.D. e que trabalhava para vigiá-lo de perto. Quando sua identidade é revelada, é aí que a vemos lutar de verdade, apesar de ainda recair no estereótipo da mulher poderosa feita para o olhar masculino.

Porém, com a evolução da Marvel, a personagem da Viúva Negra foi crescendo, seu passado foi explorado, assim como as suas motivações. Scarlett Johansson fez um ótimo trabalho com Natasha, levando-a de uma mulher fria, treinada para mentir e matar, para uma mulher mais consciente, vulnerável, conciliadora, mas ainda ótima em suas habilidades de luta. Mesmo sem ter poderes especiais como seus colegas homens, a Viúva Negra prova que é tão capaz de enfrentar criaturas malignas quanto eles.

Infelizmente, mesmo com esse aprofundamento da personagem, os roteiristas ainda criaram um romance sem sentido entre a heroína e o Hulk. Ninguém pediu por isso, mas é algo que temos de engolir até “Vingadores: Guerra Infinita”. Porém, será que ela precisa de um homem? É errado que ela tenha um relacionamento? De alguma maneira, isso enfraquece a personagem? É difícil dizer, já que, por muito tempo, ela foi a única personagem feminina com maior dimensão. Ter um namorado não diminui em nada quem a Viúva Negra é ou o que faz, mas seria bom que Hollywood nem sempre atrelasse um homem às narrativas das mulheres, pois muitas vivem muito bem sozinhas.

Depois da Viúva Negra surgir em 2010, a Marvel liberou o primeiro filme do “Capitão América” no ano seguinte, sendo protagonizado por Chris Evans. O longa-metragem traz uma interessante personagem feminina, que foi mais do que o par romântico do personagem: Peggy Carter (Hayley Atwell). Ela era oficial da inteligência britânica baseada nos Estados Unidos e tinha um arco bem construído e definido. A relação que tinha com Steve Rogers em nada diminuía sua personalidade.

A personagem foi tão emblemática, que chegou a ganhar um seriado próprio na TV americana. Infelizmente, ele durou apenas duas temporadas, mas o suficiente para mostrar que histórias femininas importam. Peggy Carter mostrou, acima de tudo, que mesmo vivendo em uma época muito diferente da nossa (a série se passa depois da Segunda Guerra Mundial), as mulheres ainda enfrentam os mesmos problemas do passado, como a desvalorização da mão de obra feminina no mercado de trabalho.

Até agora, tivemos exemplos positivos e negativos de personagens femininas na Marvel. Mas o que todas elas têm em comum até agora? Todas são brancas. A primeira heroína negra da Marvel veio somente em 2014, com Zoe Saldana no personagem de Gamora, em “Guardiões da Galáxia” (e ainda assim, ela foi toda pintada de verde). A personagem é uma assassina profissional e filha adotiva do temível Thanos. Seu papel é um dos mais importantes na franquia, sendo fundamental no filme “Vingadores: Guerra Infinita”.

Gamora é uma personagem muito bem construída e tem seu passado, motivações e traumas elaborados, de forma com que nós possamos vê-la como um ser humano de verdade – ainda que não seja uma. E mesmo se envolvendo romanticamente com Peter Quill (Chris Pratt), ela nunca se torna apenas um interesse amoroso. Pelo contrário, ela é dona de si e de suas escolhas e tem seu próprio código moral.

Ainda em “Guardiões da Galáxia”, temos outras duas personagens femininas. Mesmo menores, ambas têm sua relevância no Universo Cinematográfico da Marvel: Nebula (Karen Gillan), irmã de Gamora, com quem tem uma complicada relação, e Mantis (Pom Klementieff). As duas são boas personagens, cujas atrizes fazem o melhor que podem com o material que têm em mãos. Some isso ao fato de que todas permanecem nos cinemas até o momento, e podemos ver que o trio é de extrema importância no UCM.

Nós só veríamos outras personagens femininas em 2017, em “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e “Thor: Ragnarok”, e em 2018, com “Pantera Negra. Vamos vê-las mais para frente.

Antes que eu me esqueça, Maria Hill (Colbie Smulders) também tem sua importância no UCM, ainda que tenha um papel pequeno, sendo o braço direito de Nick Fury (Samuel L. Jackson), e atuando diretamente com os Vingadores.

E por falar neles, no segundo filme do grupo de super-heróis, uma nova integrante entra para a equipe: a Feiticeira Escarlate, ou Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) para os mais chegados. Ela tinha um irmão gêmeo, chamado Pietro Maximoff (Aaron Taylor Johnson), o Mercúrio, o qual surge e morre ainda na “Era de Ultron”. Os dois eram jovens comuns, mas acabaram ganhando poderes especiais após se submeterem a experimentos da Hydra e, eventualmente, se uniram ao vilão Ultron. Wanda, em seguida, acaba fazendo parte dos “Vingadores”, tendo um papel de destaque em “Guerra Infinita” (para ser sincero, ela é a personagem mais forte de todo o filme).

Agora a Viúva Negra tem uma mulher como parceira (livrando o filme do Princípio de Smurfette) e que pode ajudá-la nessa difícil missão de representar as mulheres. Embora a Feiticeira Escarlate tenha um relacionamento amoroso com o Visão (Paul Bettany), ela também nunca é reduzida a somente um interesse romântico, e tem sua própria narrativa desenvolvida.

Em 2015, a Marvel levou aos cinemas o “Homem-Formiga”, com o divertido Paul Rudd no papel principal. Junto dele, veio Hope van Dyne (Evangeline Lilly), filha da antiga Vespa (Michelle Pfeiffer) com o dr. Hank Pym (Michael Douglas). Ela é inteligente, sabe lutar e é muito mais preparada para usar o traje encolhedor do que Scott Lang. Porém, o filme não permite que a personagem brilhe como deveria: ela é impedida por seu pai, o dr. Pym, porque ele tem medo que ela morra em combate, assim como aconteceu com a sua esposa (que vale dizer, nos quadrinhos, é uma das criadoras dos Vingadores).

Esse é mais um exemplo de machismo nas produções da Marvel, que aqui tem uma mulher super capacitada, mas que é obrigada a ceder o lugar para um homem, mesmo que ele não esteja aos pés dela. Ao menos em 2018, ela finalmente terá seu momento de brilhar em um filme seu (e do Homem-Formiga).

Em 2017, a Marvel deu uma guinada à diversidade, apresentando personagens femininas de diferentes etnias e em papéis que nem sempre as vemos atuar. Com “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, isso é verdade, ao menos no primeiro quesito. No filme, o interesse romântico do jovem Peter Parker (Tom Holland) é uma menina negra chamada Liz (Laura Harrier). Finalmente vemos uma mulher negra no UCM que não esteja pintada ou coberta de alguma maneira, dando a possibilidade para que meninas negras possam se enxergar como belas e inteligentes (e Liz é muito esperta). É uma mensagem positiva e que ecoa nesse mundo que ainda valoriza o padrão de beleza eurocêntrico.

Além de Liz, há também a misteriosa Michelle, interpretada por Zendaya, outra atriz negra. Para fechar, uma história do herói aracnídeo não seria completa sem a Tia May, que ganhou vida com a atriz Marisa Tomei. Infelizmente, as três personagens pouco acrescentam à trama, não conversam entre si (e mal conversam com outras mulheres) e têm seus arcos todos feitos para desenvolver a narrativa de Peter Parker. Se por um lado ganha-se em representatividade racial, em outro, perde-se em não levar para as telas personagens que sejam como as mulheres do mundo real. Caso os roteiristas não tenham percebido, as mulheres conversam entre si sobre muitos assuntos que não envolvem homens, e vivem vidas que também não envolvam homens. Tomara que esse ponto seja melhorado em “Homem-Aranha 2”.

Também em 2017, veio “Thor Ragnarok”, de longe o melhor filme do herói nórdico e um dos melhores no Universo Marvel. Nele são apresentadas duas novas personagens: Valquíria (Tessa Thompson) e Hela (Cate Blanchett). A primeira é um marco por ser negra e integrar uma história criada e feita por pessoas brancas, cujas figuras sempre foram brancas. Tessa interpreta com maestria uma heroína com motivações e uma narrativa própria. Além dela, Cate Blanchett também se sai muito bem na pele da vilã Hela, irmã de Thor (Chris Hemsworth). É a primeira vez que uma mulher ocupa o papel de uma vilã no UCM e, diga-se de passagem, ninguém melhor que Cate para isso. Contudo, assim como no filme do “Homem-Aranha”, aqui as personagens femininas também não dialogam entre si, nem mesmo para lutar. Existe um breve momento em que Valquíria interage com uma outra personagem feminina, mas nada que dure mais do que segundos. “Thor Ragnarok” é ótimo, mas poderia oferecer mais nesse sentido.

E se o UCM pecou por não dar tanta profundidade para as personagens femininas nesses 10 anos, em “Pantera Negra” isso é resolvido com o diretor Ryan Coogler. Todas as personagens do longa-metragem são negras, as quais têm seus arcos definidos, propósitos elaborados e em papéis de rainhas, guerreiras e cientistas. Ramonda (Angela Bassett) Nakia (Lupita Nyong’o), Okoye (Danai Gurira) e Shuri (Letitia Wright) brilham a todo instante e provam que lugar de mulher é onde ela quiser. “Pantera Negra” introduziu um super-herói negro pela primeira vez no Universo Marvel, quebrando estereótipos e dando a pessoas negras uma representação positiva e poderosa de quem são. Wakanda forever!

Por fim, finalmente uma mulher terá seu próprio filme, sem precisar dividi-lo com ninguém. Com lançamento previsto para março de 2019, “Capitã Marvel” chegará aos cinemas em uma produção que deve narrar as suas origens e sua importância na guerra contra Thanos (Josh Brolin), que não terminou nada bem para os nossos heróis em “Guerra Infinita”. Quem assistiu às cenas pós-créditos, sabe que a heroína terá uma grande função na luta contra as forças malignas.

Depois de uma década de homens fazendo tudo, a Marvel parece ter acordado para o fato de que as mulheres podem fazer o mesmo e até melhor que eles. Que venha agora a era do girl power!