Eu odeio a Sophia de “Girlboss” porque eu vejo muito de mim nela

Eu odeio a Sophia de “Girlboss” porque eu vejo muito de mim nela

“Girlboss” não é um seriado fácil de assistir. E não porque ele é ruim, mas porque a protagonista torna muito difícil para que o espectador crie qualquer conexão com ela. Sophia é uma menina mimada, egoísta e que não se importa em ferir outras pessoas para fazer sucesso.

E se você odeia a personagem, saiba que isso é normal. Ou melhor, ela foi construída para isso, segundo Britt Anderson, a qual interpreta a dona da marca Nasty Gal.

“Acho que esse é o ponto do show, para ser sincera. Por ela ser desagradável, isso é parte do que a história é”, disse a atriz para o site Bustle. “Ela não consegue dar um jeito na sua vida porque ninguém entende sua história ou quem ela é. Ela não é uma heroína tradicional. Mas, sabe, acho que está tudo bem. Você pode sentir o que quiser sobre a personagem”.

Somente nos últimos capítulos de “Girlboss” é que conseguimos entender melhor Sophia, graças ao episódio em que ela vai atrás de sua mãe, Katheleen (Alice Ripley), que a abandonou quando ela ainda era uma criança. Decidida a fazer sua carreira como atriz, a mulher deixou o marido e a filha para trás, mas não terminou conquistando a fama que queria. É aí que a protagonista percebe que não é muito diferente de sua mãe: ambas têm ataques de raiva, não medem esforços para conseguir o que querem, deixam pessoas para trás quando algo dá errado e querem viver uma vida de festas, sem se importar com as responsabilidades.

Se você quiser criar alguma empatia com Sophia, é preciso aguentar firme o jeito egocêntrico e narcisista da garota.

E por mais que eu odeie admitir isso, preciso confessar: eu também odeio a personagem, mas somente porque eu vejo muito de mim nela. Mas antes que você comece a me julgar, eu devo avisar que não conseguiria passar por cima das pessoas para conseguir algo. Tampouco que roubaria coisas.

Ainda assim, vejo vários aspectos de Sophia em mim. E não de uma forma positiva.

Assim como ela, eu não queria crescer: tornar-se adulto é ver (parte de) seus sonhos morrerem, encarar responsabilidades que você não quer e raramente ser recompensado por isso. Imagino o que você está pensando: “isso é o mundo real! Bem-vindo a ele”. Não só isso, você provavelmente deve estar imaginando como eu posso ser mimado e um tanto egoísta e narcisista.

Sim, você não está totalmente errado. Foi em uma das minhas sessões de terapia que percebi isso pela primeira vez, quando minha analista me fez perceber como eu me comportava perante a vida, assumindo ainda uma postura vitimista, como se o mundo me devesse alguma coisa.

E para ser sincero, talvez esse seja um mal da minha geração. Na semana passada, um amigo fez um comentário no meu Facebook, partilhando do mesmo pensamento:

“Eu acho a Sophia uma representação negativa (e isso não é ruim) da nossa geração! Eu consigo me identificar muito com ela em alguns momentos e, quando não, eu vejo uma atitude do meu namorado, de uma melhor amiga, de um ex etc. Essa ideia de não querermos ser adultos e de que o mundo deve algo pra gente pois somos especiais etc, é algo muito presente na nossa geração e praticamente em quase todos nós, e acho que por isso muita gente não consegue gostar da Sophia, ela é uma representação negativa (como já disse no início), do que nós somos! E sempre dói ver nossos defeitos estampados em outros, geralmente odiamos demais, seja na vida real ou personagem fictício. Sei lá, essa foi minha visão de ‘Girlboss’, e eu gostei muito do que assisti”.

Eu consigo concordar com ele. Ao ver o primeiro episódio do seriado, percebi que eu mesmo já havia dito o mesmo que Sophia diz sobre ser adulto, e refleti em quantas vezes eu pensei que não queria ter a vida dos meus pais, sempre trabalhando muito para poder pagar as contas. Mas essa é a realidade. E, hoje, eu posso ver como eu me enganei em vários sentidos e como crescer não é necessariamente algo sempre ruim. Sim, é um mundo bem diferente, onde eu sou o responsável por mim mesmo. Onde não dá para escapar de responsabilidades, mas que nem todos os sonhos morrem, mas podem ser transformados ou dar espaço a outros.

Tornar-se adulto pode ser chato, mas não precisa ser. E assim como a Sophia de “Girlboss” fez, é possível se reinventar (porém, ela nem sempre fez isso da melhor maneira), e foi atrás do que queria. E ela cresceu. Abraçou o mundo que foi se abrindo a ela, nas esperança de construir um futuro diferente daquele imaginado por seu pai e pela sociedade. E tornou-se uma adulta. Há uma evolução na personagem.

Isso tudo é para dizer que eu continuo odiando a fundadora da Nasty Gal, mas ela me fez perceber, mais uma vez, o que há de errado em mim. É difícil reconhecer isso, mas como a minha analista já disse certa vez: “muitas vezes a gente transfere para o outro o que não reconhecemos em nós mesmos”. E, droga, ela estava certa.


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