Estupro como recurso narrativo começará a ser banido em algumas séries de televisão

08. dezembro 2016 Televisão 6
Estupro como recurso narrativo começará a ser banido em algumas séries de televisão

“Durante os 16 dias de ativismo na luta contra a violência à mulher, blogs envoltos pelo #feminismonerd, se propuseram a discutir as problemáticas em torno da representação de mulheres como uma matriz que reitera os discursos de violência e ódio, quanto veículos que visibilizam a discussão. Sabemos que, apenas a exposição e discussões possibilitam o combate direto, a resolução e identificação do problema. Como reitera a escritora e teórica feminista Audre Lorde : é preciso transformar o silêncio em linguagem e ação”.

Com a repercussão negativa em torno das declarações do diretor italiano Bernardo Bertolucci e o filme “Último Tango em Paris”, a indústria do entretenimento começou (finalmente) a repensar o uso do estupro como recurso narrativo. Esse tipo de violência é comumente adicionado à história para servir como ‘motivação’ para a personagem que o sofre, ou para fazer com que o homem com quem ela tem alguma relação possa se vingar. E às vezes, o único propósito do estupro é chocar o público.

E se você está cansado de ver esse tipo de agressão acontecendo, saiba que as pessoas por trás das séries de televisão também não a aguentam mais. Por exemplo, o produtor-executivo do seriado “O Exorcista”, Jeremy Slater.

“Uma de minhas regras mais rígidas quando lia roteiros especulativos era: quando houvesse um estupro que fosse utilizado como choque de valores e não acrescentasse nada à narrativa, eu o jogaria fora”, ele contou à revista Variety. “E eu fiquei chocado pela quantidade que encontrei. Eu diria que de 200 desses roteiros, provavelmente havia uns 30 ou 40 que começavam com um estupro ou tinham um estupro selvagem em algum momento. Virou uma praga na indústria”.

A publicação reuniu produtores-executivos e roteiristas para discutir os erros e acertos sobre o uso do estupro nas produções televisivas. Uma roteirista que não quis ser identificada acredita que a violência sexual se tornou um atalho rápido para “um pano de fundo e drama”.

Outra roteirista diz que, para os os homens, o estupro é sempre um forma fácil de acrescentar “uma história traumática para uma personagem feminina”. “Pode ter certeza que isso será sugerido imediatamente, como um lugar óbvio ao desenvolver uma personagem”, concluiu.

É o mesmo sentimento que a atriz e diretora Jodie Foster compartilhou em um evento realizado durante o Festival de Cannes deste ano.

“Uma das coisas que mais me irritava como atriz era ver que, quando os roteiristas homens buscavam uma motivação para a mulher, eles a estupravam. Eu me perguntava por que ela era triste. Ah, ela foi estuprada. Eu me perguntava por que ela tinha problemas com o chefe. Ah, ela foi estuprada. Era ridículo. Estava em todo o filme que eu assistia. Se você procurasse pelo grande fator de motivação, era sempre o estupro, porque por alguma razão, os homens o viam como algo incrivelmente dramático. ‘Bem, isso é fácil! Vou criá-lo do nada e aplicá-lo nela’”.

A falta, ou o número pequeno, de mulheres na equipe de roteiro é, em parte, um dos motivos para que a violência sexual contra mulheres, além de outras problemáticas, sejam tão presentes em filmes e séries.

“Muitas vezes, a voz de uma mulher na sala não é forte o bastante, ou há poucas mulheres, ou a única mulher presente não tem permissão para expressar suas opiniões”, disse uma outra roteirista.

Porém, na falta de mulheres roteiristas, ao menos os homens estão finalmente escutando as reclamações. Por exemplo, “Game of Thrones”, série da HBO que foi muito criticada por conta da sexualização excessiva dos corpos das mulheres e da contínua agressão sexual contra elas, optou, na sexta temporada, mudar a forma como conduzia as narrativas das personagens femininas. Isso aconteceu após aquela cena de estupro na quinta temporada na atração.

Depois de “Thrones”, outros seriados também estão resistindo à ideia do estupro. “Deuses Americanos”, que estreia no ano que vem, é um deles.

“Por muito tempo, incesto e estupro eram pontos fáceis em uma história, e eu não acho que sejam provocativos, só nojentos mesmo”, disse Michael Green, produtor-executivo da obra, à Variety. “A descartabilidade dele na trama não é algo que eu queira fazer parte. Para mim, não existe forma mais rápida para me fazer desistir de uma história. Já chega”.

Bryan Fuller, também produtor-executivo de “Deuses Americanos”, também está farto de violência sexual, tendo ainda alertado os roteiristas de sua última série, “Hannibal”, a não fazerem uso de violência sexual na produção. Poderia haver várias cenas de violência, mas não cenas explícitas de estupro.

“Pessoalmente falando, de alguma forma, acho que isso mancha uma história, já que ele evita com que você celebre diferentes aspectos da sexualidade”, contou. “Os Estados Unidos são um país com uma atitude horrível sobre sexo e sexualidade, então há algo problemático em punir personagens por conta de seu sexo e sexualidade”.

Fuller acrescentou ainda que “muitos seriados tentam resumir tramas de estupro em ’42 minutos’, e deixam de contar o que significa passar por essa experiência ou ser um sobrevivente”.

“Como um homem adulto e gay, olhando para a minha própria sexualidade e vendo como ela é complicada, é difícil projetar uma experiência total desse tipo de história e não ficar devastado pelo fato de que isso acontece todos os dias”, concluiu o produtor. “É difícil, para mim, julgar isso como entretenimento”.

A Variety lembrou, também, dos acertos na execução desse tipo de cena em seriados, reforçando que foram as mulheres por trás dos seriados que mudaram a forma como o estupro é retratado em atrações televisivas.

“Uma onda de produtoras femininas mudou, substancialmente, a conversa sobre a representação de abuso sexual na televisão. Melissa Rosenberg de “Jessica Jones”, Shonda Rhimes de “Grey’s Anatomy” e “Scandal”, Jenji Kohan de “Orange Is The New Black”, Tig Notaro e Diablo Cody de “One Mississippi”, Ava DuVernay de “Queen Sugar”, e Jennifer Kaytin Robinson de “Sweet/Vicious”, estão entre aquelas que estão liderando o caminho para histórias mais complexas sobre as vidas de sobreviventes de abuso e estupro”.

BLOGS QUE PARTICIPAM DESTA AÇÃO COLETIVA:

Momentum Saga

Collant Sem Decote

Nó de Oito

Delirium Nerd

Vanilla Tree

Preta, Nerd & Burning Hell

Ideias em Roxo

Psicologia & Cultura Pop

Minas Nerds

Iluminerds

Kaol Porfírio

Valkírias

Pac Mãe

Séries Elas Por Elas.