Esta nova versão da Branca de Neve é péssima para crianças

06. junho 2017 Cinema 0
Esta nova versão da Branca de Neve é péssima para crianças

Estamos vivendo em uma época em que as clássicas animações da Disney estão sendo levadas para o cinema mais uma vez. Depois de “Cinderela”, “Mogli” e “A Bela e a Fera”, quem mais voltará às telonas é “Branca de Neve”, porém, não pelas mãos dos estúdios do Mickey Mouse.

O responsável pela nova versão do conto, intitulado “Red Shoes and the Seven Dwarfs” (“Sapatinhos Vermelhos e os Sete Anões”) é o estúdio Locus Creative, que levou um pôster do filme para o Festival de Cannes deste ano, e levantou alguns questionamentos se o longa seria mesmo uma boa ideia.

Nessa paródia, sete príncipes são transformados em anões por uma bruxa e, para quebrar o feitiço, precisam encontrar a princesa, cujos sapatinhos a deixam magra e alta. Quando não está os usando, ela volta à sua forma original: baixinha e gorda. É esse o tipo de mensagem que queremos enviar para as crianças?

Eu tenho quase certeza que não, e Tess Holliday, modelo gorda e ativista, também pensa da mesma maneira. No Twitter, ela compartilhou uma imagem promocional da obra que diz: “e se a Branca de Neve’ não fosse mais bonita e os sete anões não fossem tão pequenos?”. Na legenda, ela escreveu: “como isso foi aprovado por uma equipe de marketing inteira? Por que é normal dizer a jovens crianças que ser gordo é igual a ser feio?”.

Tess ainda marcou a atriz Chloë Grace Moretz, que dá voz à personagem-título, em seu tweet. A artista se manifestou em seguida dizendo:

Tradução: “Eu revisei o marketing todo de ‘Red Shoes’ e estou tão chocada e brava quanto todo mundo. Isso não foi aprovado por mim ou pela minha equipe”.

Tradução: “Por favor, saibam que eu conversei com os produtores do filme. Eu emprestei a minha voz para o um lindo roteiro, que eu espero que vocês o vejam em sua totalidade”.

Tradução: “A história de verdade é poderosa para jovens mulheres e ressoou comigo. Peço desculpas pela ofensa que esteve além do meu controle criativo”.

A própria produtora de “Red Shoes and the Seven Dwarfs”, Sujin Hwang, também pediu desculpas por meio de um comunicado publicado no site da Entertainment Weekly, e afirmou que a campanha publicitária seria suspendida.

“Nosso filme, uma comédia de família, carrega uma mensagem criada para desafiar preconceitos sociais relacionados a padrões de beleza física na sociedade, enfatizando a importância da beleza interna. Nós agradecemos às críticas construtivas daqueles que chamaram nossa atenção. Sinceramente, sentimos muito pelo constrangimento e insatisfação que esta publicidade incorreta causou para qualquer um dos artistas individuais ou companhias envolvidas com a produção ou futura distribuição de nosso filme, nenhum dos quais tiveram qualquer envolvimento com a criação ou aprovação da campanha publicitária, que foi descontinuada”.

Difícil de acreditar que a animação é sobre a “importância da beleza interna”, quando uma peça publicitária vai na contramão disso, reforçando o padrão de beleza, e diminuindo quem não faz parte dele.

Porém, o estúdio Locus mantém que a mensagem do filme é sobre aceitação de corpos, e não o contrário:

“Uma garota normal nasce sob circunstâncias extraordinárias: ela é uma princesa que não se encaixa no mundo de celebridades das princesas – ou no tamanho de roupa delas. Ela quer manter-se fiel a quem é, mas a Ilha do Conto de Fadas é sobre aparências, por isso, é difícil para que ela não queira ser como os outros. Em sua jornada para encontrar seu pai desaparecido, ela aprende não apenas a se aceitar, mas a celebrar quem ela é, por dentro e por fora”.

Talvez, e só talvez, “Red Shoes and the Seven Dwarfs” seja mesmo sobre lutar contra padrões e ensinar garotas a amar seus corpos como eles são, mas fica complicado manter a fé nessa premissa depois de um pôster desastroso e um teaser (abaixo), que reforça alguns estereótipos preguiçosos sobre pessoas gordas. 

Nós não precisamos mais de produções que estigmatizem pessoas gordas e outras que estão fora dos padrões. Precisamos de obras que ensinem as crianças – especialmente meninas – que seus corpos não deveriam limitar as experiências que podem ter na vida ou o que podem conquistar. Somos todos muito mais do que nossas aparências. Essa é uma mensagem que deveria ser encorajada e colocada em cartazes em festivais de cinema, revistas e pelas cidades.

Se o filme vai sobreviver depois de uma campanha publicitária ruim, isso só o tempo irá dizer. Por enquanto, eu prefiro procurar outra coisa para ver no cinema.


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