Os desfiles das escolas de samba provaram que dá pra misturar folia e falar sério no Carnaval

14. fevereiro 2018 Internet 0
Os desfiles das escolas de samba provaram que dá pra misturar folia e falar sério no Carnaval

O Carnaval 2018 acabou e, no país todo, a quarta-feira marca o “início do ano”, como costuma-se dizer por aí. E olhando para trás, é possível ver que, em meio à folia, as pessoas aproveitaram as ruas para falar sobre temas sérios e fazer política. Especialmente nos desfiles das escolas de samba, as avenidas foram tomadas por críticas sociais e aos políticos brasileiros.

Talvez o exemplo mais emblemático seja da escola Paraíso do Tuiuti, do Rio de Janeiro. Com o enredo “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”, a agremiação fez fortes provocações acerca da reforma trabalhista e os protestos que levaram ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Teve até um vampiro com uma faixa presidencial, uma referência clara ao atual presidente Michel Temer.

A comissão de frente impressionou ao trazer negros sendo transformados em escravos, criticando o racismo e como ele continua vivo até hoje, em pleno ano de 2018. Em outro momento, foi mostrado os “manifestoches”, representando as pessoas que pediam a queda de Dilma do poder, todos caracterizados com o pato e camisetas da seleção brasileira.

Perto do final do seu desfile, a Paraíso do Tuiuti fez uma crítica ás atuais condições de trabalho no Brasil, ainda mais pioradas pela reforma trabalhista aprovada pelo Congresso.

“O objetivo era tratar da exploração do homem pelo homem”, explicou Thiago Monteiro, diretor de Carnaval da escola, ao EL País. “Não só da escravidão negreira, mas dessa exploração que se estende por séculos, passando pelos egípcios, celtas, romanos e que continua nos dias atuais. Fazer uma pessoa trabalhar uma jornada de 12 horas, como as costureiras, por um salário às vezes abaixo do mínimo e com direitos mitigados, é perpetuar esse sistema”.

A Beija-Flor, do Rio de Janeiro, também entrou na avenida com um desfile político, mas em um tom mais moderado que o da Paraíso do Tuiuti. O enredo da escola era “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, e fez na passarela um paralelo entre o conto de Frankestein, deixado por seu criador, e o abandono da população brasileira pelos governantes.

Malas de dinheiro, religiosos no Congresso e empresários foram representados, sendo eles as classes que impedem o desenvolvimento social e econômico do país. A guerra contra as drogas nos morros cariocas também foi destaque, inclusive, por pessoas fingindo-se de mortas nos braços de outros dançarinos. Ainda no tema da violência, o encarceramento em massa também chamou a atenção de quem assistiu ao desfile da Beija-Flor.

Porém, a apresentação da escola teve um ponto negativo: em uma das alas, componentes entraram fantasiados de Nega Maluca, fazendo black face. Essa técnica que surgiu no teatro dos Estados Unidos para ridicularizar a população negra, também foi utilizada pela Salgueiro. A segunda tentou prestar uma ‘homenagem’, enquanto a primeira tentou fazer uma crítica à prática. Ainda assim, seria melhor deixar o black face de fora da folia.

Um ponto positivo, contudo, veio com a cantora Jojo Toddynho, em um carro que representava a luta contra os preconceitos. Depois do desfile, a voz do hit “Que Tiro Foi Esse?”, falou sobre a importância do enredo da Beija-Flor.

“O desamor está muito grande. A falta de respeito ao próximo. Esse enredo veio para mostrar ‘gente, acorda’. Para a gente mudar, o mundo tem de mudar dentro de si, senão nada vai mudar. Eu desconstruí padrões”.

Pabllo Vittar, que foi destaque no mesmo carro, representou a luta contra a intolerância de gênero. Vestindo uma capa nas cores do arco-íris, a drag queen chamou a atenção pelo sambódromo.

A Mangueira também teve seu momento político, apresentando um boneco do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, representado como Judas, o apóstolo que traiu Jesus. Em 2017, o político cortou parte dos recursos da Prefeitura que iriam para as escolas, enviando o dinheiro para as creches da cidade.

“Ele menosprezou o maior espetáculo da terra. Ele desvalorizou o maior espetáculo da cidade que ele é prefeito. O carnaval vem sendo desrespeitado. É o maior carnaval do mundo e o prefeito nem aqui vem”, disse Chiquinho da Mangueira, presidente da agremiação, ao G1. Durante os desfiles da escolas de samba do Rio, Crivella viajou para a Europa.

Quem disse que não dá para falar sério no Carnaval? Em tempos de crise política no Brasil, as escolas de samba mostraram que até na festa mais divertida do ano, há espaço para brigar por visibilidade e direitos.