O episódio de “Queer Eye” com um homem trans peca em alguns aspectos

O episódio de “Queer Eye” com um homem trans peca em alguns aspectos

“Queer Eye” faz parte dos programas LGBT que eu mais gosto de assistir ultimamente. O reality show é divertido e emocionante, e Karamo, Jonathan, Bobby, Tan e Antoni fazem da atração uma poderosa ferramenta para ensinar aos homens – de todas as identidades de gênero e orientações sexuais – como é possível abraçar suas emoções e vulnerabilidades. Esse é o grande trunfo da série da Netflix, que atualmente possui duas temporadas no serviço de streaming e uma próxima sendo filmada.

Porém, o quinto episódio da segunda temporada não me tocou ou me fez rir como os outros. Nele, o participante que vai ganhar uma reforma de vida é um homem trans, o primeiro do reboot, e o segundo desde que “Queer Eye for the Straight Guy” foi ar. Skyler é o nome do protagonista do episódio, e é apresentado ao Fab 5 (como o grupo de especialistas é chamado) e ao público de uma maneira desconfortável: durante sua cirurgia de mastectomia. Logo no começo, lá está ele deitado em uma mesa de cirurgia, enquanto o quinteto que apresenta a atração assiste a tudo com olhos arregalados e bocas abertas.

Essa introdução é desconfortável, pois embora mostre um aspecto importante da experiência de muitas pessoas trans, ao mesmo tempo reforça um ‘fetiche’ que as pessoas cis têm acerca dos corpos de pessoas trans. Em um momento, Skyler relembra um episódio em que, em sua primeira tentativa de mudar o gênero em sua carteira de motorista, a atendente havia dito a ele que só voltasse quando estivesse ‘completo’, isto é, tivesse feito a cirurgia. Essa mensagem desumanizadora foi reforçada com as cenas iniciais, demonstrando a obsessão que pessoas cis têm em ver se uma pessoa trans finalmente está no ‘corpo certo’. E isso sem dizer o quão invasivo é filmar a cirurgia de alguém e exibi-la para um grupo de pessoas sem a sua permissão (quando os especialistas dizem que assistiram à cirurgia, Skyler pergunta: “vocês assistiram àquilo?”).

Vale dizer que nem toda pessoa trans quer ou tem condições de fazer de fazer uma cirurgia de transgenitalização – e isso em não quer dizer que sejam menos trans ou mereçam menos respeito por isso. É preciso acabar com essa noção de que existiria, para início de conversa, um ‘corpo errado’. Entendo que essa seja a maneira mais fácil de explicar o que é uma pessoa trans para quem não entende bem esses indivíduos, mas não existem ‘corpos errados’, mas uma leitura errada dos mesmos. 

Voltando ao episódio, ele é muito didático ao abordar muitas das questões envolvendo pessoas trans: pronomes, cirurgias e vivências individuais. Pessoalmente, falando, como o programa é visto por milhares de pessoas, acho positivo que ele aborde a temática dessa maneira, pois as chances de alguém entender o que se passa são muito maiores. O próprio Skyler contou ao site Them. que também prefere educar as pessoas, e que muito do que vivenciou com os apresentadores de “Queer Eye” ficou de fora, dado o tempo da atração. Contudo, ele afirmou que foi muito além do básico com eles e com o restante da equipe do reality.

“Acho que as pessoas sentiram como se eu estivesse sendo estudado, pois eu estava educando o Fab 5 durante as filmagens. É assim que eu trabalho. Esse dom me foi dado por um outro ativista trans que salvou minha vida e me ajudou a me entender”, disse Skyler ao Them.. “Eu reconheço totalmente que o show foi pensado para um público-alvo de donas de casa americanas do interior dos Estados Unidos, porque foi para elas que a primeira temporada foi feita. Eu pensei que seria legal ensinar donas de casa do interior e que são mães a cuidar melhor de seus filhos trans quando eles se assumissem, e que fossem abertas e compreensivas com eles”.

E didático Skyler foi, especialmente com Tan, o expert em moda, que disse nunca ter conhecido uma pessoa trans antes (ou pelo menos que ele saiba). O consultor não teve vergonha de admitir sua ignorância, mas demonstrou toda sua vontade de ouvir e aprender. E, segundo Skyler, o bate-papo entre eles durou horas e ambos conversaram sobre vários tópicos envolvendo homens e mulheres trans, além de pessoas não-binárias.

E com todo respeito a Tan, seus comentários a respeito do estilo de Skyler, não foram muito legais. O rapaz usa muitas camisetas regatas, bonés e sapatos, cujas peças parecem fazer parte do armário de um adolescente e não de um homem que já está nos seus 30 anos. Porém, ele não pode usar essas roupas quando era mais novo, então, qual o problema de usá-las agora que está finalmente livre para ser ele mesmo? Especialmente depois da mastectomia, talvez seja libertador para ele ter a oportunidade de vestir regatas sem se importar com os seios. 

Essa mesma falta de consideração pode ser sentida na forma como Bobby redecorou a casa de Skyler. Quando o Fab 5 chega à casa dele, eles vêem uma bandeira do Orgulho LGBT pendurada e muitos outros itens que remetem à comunidade queer. Contudo, para o especialista em design, bandeiras não podem ser objetos de decoração e deus-me-livre uma lata de lixo que brilha nas cores do arco-íris. Veja, se a casa de Skyler pode expressar seu orgulho em ser trans e parte da comunidade LGBT, algo que ele não pode fazer por toda sua vida, graças aos pais, agora ele pode. A sensação que fica é que tanto Bobby quanto Tan não levaram tanto em consideração a história de Skyler ao fazer o makeover da vida dele.

O episódio ainda agrada e tem ótimos momentos, como Karamo levando Skyler para finalmente trocar o gênero em sua carteira de motorista, e Jonathan ensinando-o a fazer a barba e cuidar da aparência (algo que o participante disse nunca ter sido ensinado na vida). Porém, construir o episódio em torno da cirurgia de Skyler, demonstra uma preocupação maior do programa em conversar com o público cis/hétero do que com o público trans. 

Esse capítulo poderia ter sido melhor trabalhado em “Queer Eye”, que ganharia muito tendo pessoas trans trabalhando atrás e na frente das câmeras. Ao final, Skyler diz que gostaria de fazer parte do Fab 5 algum dia. Segundo ele mesmo contou ao site Them., o rapaz mantém contato com o quinteto, especialmente com Bobby. Quem sabe no futuro um consultor trans não participa definitivamente da atração da Netflix? O programa só teria a ganhar.