“Quero ser reconhecido como um diretor gay”, declara Matheus Marchetti, diretor de “As Núpcias de Drácula”

01. novembro 2018 Cinema 0
“Quero ser reconhecido como um diretor gay”, declara Matheus Marchetti, diretor de “As Núpcias de Drácula”

Com apenas 23 anos, Matheus Marchetti está prestes a estrear seu primeiro longa-metragem, “As Núpcias de Drácula”, uma releitura experimental do clássico de Bram Stoker. Antes disso, o jovem cineasta roteirizou e dirigiu o curta-metragem “O Bosque dos Sonâmbulos”, um musical de terror com vampiros gays, que foi exibido em festivais pelo Brasil, incluindo o Festival Mix Brasil, principal mostra de cinema LGBT do país. Conversamos com o diretor, em  uma entrevista em que ele fala sobre o que esperar do seu novo trabalho, quais suas principais referências e a importância da arte em momentos políticos conturbados:

Prosa Livre: Dia 2 de novembro acontecerá a 1ª exibição do seu longa-metragem “As Núpcias de Drácula”, o que podemos esperar desse filme?

Matheus Marchetti: “As Núpcias de Drácula” é uma singela homenagem ao filmes de monstro que a Universal produzia nos anos 30, e também às refilmagens desses mesmos título feitas entre os anos 50-70, pela Hammer. Foi assistindo a tais filmes quando pequeno que eu me apaixonei pelo gênero – e eles continuam até hoje como uma grande força motriz para o meu trabalho.

O Peter Cushing, imortalizado como o Dr. Frankenstein e o Dr. Van Helsing nas produções da Hammer, dizia que esses filmes não eram exatamente de terror, mas sim “contos de fada para adultos”, e de certa forma é essa a nossa ideia aqui também. “Núpcias” não busca assustar a plateia, mas colocá-la num certo estado de transe – é uma jornada onírica para um País das Maravilhas macabro. É algo bem naif, artesanal, que remete a uma fantasia quase infantil, e foi exatamente com esse espírito mais “ingênuo” que realizamos nosso Drácula. A equipe e o elenco eram praticamente as mesmas pessoas, alternando entre funções, trabalhando sem praticamente nenhum recurso (o orçamento era praticamente inexistente), mas se entregando completamente pela diversão do “faz de conta” – um grupo de pessoas apaixonadas por vampiros brincando de vampiros. E esperamos que o público caia na brincadeira com a gente também!

PL: Tanto no seu curta-metragem, “O Bosque dos Sonâmbulos”, quanto em seu primeiro longa-metragem, “As Núpcias de Drácula” você coloca elementos queer dentro do gênero horror. Esse é o caminho que você quer percorrer na sua carreira: fazer um cinema LGBT de horror?

MM: Eu acho que minha fascinação com o terror está diretamente ligada à minha identidade sexual. Reconhecendo essa identidade desde muito jovem, e me sentindo excluído por conta disso, eu encontrava conforto e representação em figuras como Frankenstein, o Fantasma da Ópera e, claro, o próprio Drácula. Tanto F.W. Murnau (diretor de “Nosferatu” e “Fausto”) como James Whale (de “Frankenstein”, “Noiva de Frankenstein”, e “O Homem Invisível”) eram homossexuais, e isso refletia fortemente nos seus trabalhos, direta ou indiretamente – na exclusão social do “monstro”, o medo de tal monstro poder infectar outras pessoas e transformá-las em seres similares, e no sentimento moralista de acabar com a existência dessas figuras que estão ameaçando a família tradicional. O elemento queer está, portanto, profundamente presente no gênero, dos clássicos até os anos 80, onde metade dos filmes de terror são alegorias à crise da AIDS.

Muitos desses filmes, porém, colocam a identidade LGBT com uma certa conotação negativa. O que eu busco fazer é deixar esse elemento mais à tona, e apresentar protagonistas queer por uma perspectiva mais positiva, que reflita a relação conturbada entre os LGBTs e o opressivo mundo conservador afora, mas que dê a esses personagens uma possibilidade de libertação – da esperança de um final feliz, de sobrevivência, de um mundo melhor que surge no meio dessa paisagem sombria.

PL: Djalma Limongi Batista, o 1º diretor nacional a fazer um curta-metragem com protagonistas gays, diz em sua biografia que lá na década de 70 as pessoas o questionavam: “mas você quer ficar reconhecido como um cineasta de filmes gays?”. Acha que ainda hoje existem esses questionamentos e a relação de um cinema LGBT como algo inferior ou marginal?

MM: Um diretor heterossexual pode passar a vida fazendo filmes sobre relações heterossexuais sem nenhuma repercussão. No momento que um diretor LGBT faz mais de um filme sobre personagens LGBT, as pessoas já interpretam como repetitivo e sem originalidade – isso dentro do próprio meio dos realizadores, que se dizem mais libertários do que o “público conservador”.

Sou gay, e quero sim ser reconhecido como um diretor gay. Acho que um sentimento que se repete muito entre artistas que sofrem discriminação institucionalizada é de criar obras que possam ajudar outras pessoas que passam pela mesma situação – criar representação, criar esperança. É um jeito de se afirmar perante o mundo, de se manter firme e forte contra os opressores.

O cinema queer no Brasil e no mundo cresceu muito na última década, saindo de um canto mais marginalizado e indo para o mainstream, mas ainda sim é limitado, e ainda assim é constantemente ameaçado – principalmente nesse momento sombrio que vivemos nos últimos tempos. Agora, mais do que nunca, é que nós, artistas, temos que nos erguer e continuar fazendo aquilo que nos representa, e usar nossos trabalhos como uma arma.

Matheus durante as gravações do filme

PL: Quais são suas maiores referências se tratando de cinema de horror e também de cinema queer? Existe algum cineasta que junte essas duas vertentes e que seja sua grande referência?

MM: São tantos realizadores que me inspiram! Além dos filmes que eu já mencionei, talvez a maior influência para mim em termos estéticos é o terror europeu dos anos 60/70 – principalmente os pesadelos coloridos de Mario Bava e Dario Argento (“Suspiria” é uma bíblia que eu uso como referência em tudo que faço), ou as fantasias eróticas de Jean Rollin e Jess Franco (que, apesar da apresentação muitas vezes fetichista do corpo feminino, eram repletos de protagonistas lésbicas e bissexuais complexas e empoderadas).

Não exclusivamente diretores de terror, mas os delírios surreais de Ken Russell e Federico Fellini também ditam grande parte do meu trabalho. No caso de Russell, me identifico muito com o jeito que ele usa música clássica – sua obsessão por compositores clássicos em contrapartida com um universo imagético grotesco, violento, perverso; elevando o que é considerado de mal gosto ao mesmo nível da “alta cultura”.

Apesar de Russell nunca ter se identificado como queer até onde eu saiba, há um forte nível de homoerotismo presente em todas as suas realizações – especialmente em “Gothic” e “A Maldição da Serpente” (coincidentemente, inspirados em Mary Shelley e Bram Stoker respectivamente). E naturalmente, sou apaixonado por Derek Jarman, que por sua vez é praticamente o “filho gay” de Ken Russell.

Além do cinema, outra grande referência para mim é o trabalho do coreógrafo e diretor teatral Matthew Bourne. Especializado em releituras contemporâneas de balés clássicos por um prisma homoerótico, sua versão de “O Lago dos Cisnes” como uma história de amor entre dois homens (no qual os cisnes são interpretados por homens), e o seu “Bela Adormecida” como uma história de vampiros, foram experiências revolucionárias para mim – parecia que eu finalmente encontrei alguém que me entendesse, e o tipo de trabalho que eu quero fazer. A parte do balé em si é muito importante para mim também, pois meus filmes se caracterizam pela ausência quase total de falas – diálogos ocorrem muito de vez em quando, e a história é contada inteira através de música e imagem, dançando entre si.

Mas pensando em pessoas que juntem essas duas vertentes, acho que o trabalho de Marco Dutra e Juliana Rojas – e especialmente em “As Boas Maneiras”, lançado ano passado – talvez seja o que melhor conseguiu unir o cinema queer com o cinema de terror. Sou profundamente grato a eles por isso, e é uma alegria encontrar esse tipo de trabalho aqui no Brasil, saber que não estamos sozinhos por aqui.

PL: Vivemos em uma época de grande retorno do conservadorismo na política e na sociedade brasileira, como acha que a arte (principalmente o cinema) pode ser resistência nesse momento?

MM: Eu acredito muito na arte como uma arma, acho que já disse isso anteriormente por aqui. Essa arma é tão poderosas que muitas vezes foi (e continua sendo) usada pelos nossos opressores para enfatizar e espalhar a ideologia dominante, retrógrada. Mas também pode ser utilizada de maneira inversa. Pode ser nossa cura e nossa resistência. Para confortar os oprimidos e confrontar os opressores.

É um momento muito delicado no qual muitos irão tentar nos calar – e já estão fazendo isso – mas exatamente por isso devemos gritar mais alto, com filmes e outras obras de expressão artística que sejam verdadeiras ao que sentimos perante ao mundo. Criar e inspirar novos criadores. E através disso mostrar mostrar que existimos, que resistimos, e que não vamos desistir.  

PL: Acredita que, em virtude da ascensão de figuras como Donald Trump, Jair Bolsonaro e outros políticos que dão voz a preconceitos, o cinema de horror pode crescer, servindo como metáfora a muito dos horrores que a gente vê representado nesses governantes?

MM: O cinema de terror é, conscientemente ou não, um meio para os realizadores exorcizarem seus demônios internos, seus medos, suas angústias – sejam elas mais abrangentes ou mais pessoais. É talvez o modo mais direto de tratar o lado mais obscuro da humanidade, em todas as suas ramificações. É triste que muitos críticos menosprezam o gênero por ser “superficial” ou “não tratar de temas sérios”, sendo que vem carregando temas sociais desde os anos 20 – seja pela direita como pela esquerda. Por exemplo, toda a filmografia de George A. Romero é explicitamente crítica, explicitamente sobre os horrores do governo americano e o modo de vida capitalista. Assistir “A Noite dos Mortos Vivos” ou “Despertar dos Mortos” hoje é quase insuportável, no sentido de serem filmes extremamente atuais não apenas para a época como para hoje – os horrores do passado que se repetem inevitavelmente.

Mesmo quando não conscientemente política, um filme de terror mais marginal, que desafia a moral e os bons costumes, é intrinsecamente político já por existir. Isso sem contar que, muitas vezes, tempos de maior turbulência política geram as produções artísticas mais interessantes, mais profundas.

Então, não apenas acho que o cinema de terror vai se tornar um reflexo dos tempos sombrios em que nos encontramos, como já está fazendo isso – e tem feito há um bom tempo. Espero, porém, que ele torne esse aspecto crítico mais evidente, mais tangível, que possa servir para “acordar” as pessoas e provocá-las. Que, de alguma forma, podemos usar esse cinema como uma arma contra essa escuridão que nos cerca.

O Prosa Livre e o diretor Matheus Marchetti convidam todos os leitores da cidade de São Paulo a comparecerem à estreia do longa-metragem “As Núpcias de Drácula”, que acontecerá no Centro Cultural São Paulo na próxima sexta-feira, dia 2 de novembro, como parte do Phenomena Festival 2018, que reúne filmes focados nos gêneros fantasia, sci-fi e horror. A exibição é gratuita e ocorrerá às 20h, mas é preciso retirar o ingresso, que começará a ser distribuído uma hora antes.