Entrevista de George R. R. Martin ao The New York Times

Entrevista de George R. R. Martin ao The New York Times

Para os fãs brasileiros do seriado “Game of Thrones”, o jornal The New York Times divulgou uma entrevista com o escritor George R. R. Martin, autor da série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo”, que deu origem ao famoso seriado da HBO.

Você pode ler a entrevista em inglês aqui. Caso contrário, siga em frente, pois eu a traduzi para o blog.

George R. R. Martin quer mais Game of Thrones também

A cultura está apaixonada pela escrita de George R. R. Martin ultimamente, em específico, pela série best-seller “As crônicas de Gelo e Fogo”, a inspiração por trás do grande seriado da HBO “Game of Thrones“, cuja quarta temporada termina neste domingo.

Mesmo com todo o sucesso, há uma pequena tensão entre a interpretação de “Thrones” da HBO e a de Martin. O seriado possui uma média de 18 milhões de telespectadores por episódio, e a atual temporada passou “A Família Soprano” como a série mais assistida do canal. Com números assim, os Stark, os Lannister, os Baratheon e Targaryens não mais pertencem exclusivamente ao senhor Martin.

Com o seriado subindo na audiência, além de atrair algumas críticas nesta temporada, Martin concordou em conversar sobre o que o seriado acertou até agora, o que faltou e onde sua paixão se encontra. E ele foi capaz de fazer essas observações através de um raro ponto de vista de um escritor que fez vários trabalhos na televisão e lança livros de grande sucesso.

Numa recente entrevista por telefone, o autor disse não ter achado a adaptação para a TV tão difícil, “porque eles fizeram um ótimo trabalho”, referindo-se à equipe de Game of Thrones, liderada por David Benioff and D. B. Weiss – pense neles como Padrastos dos Dragões -, criadores da série na HBO. Mas há uma coisa que deixaria Martin muito feliz.

Como um homem com uma épica imaginação populada por centenas, se não milhares, de personagens tão vivos, o agradaria muito se sua criação tivesse mais espaço na HBO, já que cada temporada possui apenas 10 episódios.

“Eu queria que nós tivéssemos mais episódios”, disse ele de sua casa em Santa Fé, no estado do Novo México. “Eu adoraria ter 13 episódios. Com 13 episódios, nós poderíamos incluir cenas menores que nós tivemos que cortar, e que tornariam a história mais profunda e mais rica”.

Mesmo assim, ele entende a questão do orçamento. Com as gravações em locais distantes – Islândia, Norte da Irlanda, Malta, Croácia, Marrocos – e as várias e essenciais batalhas, uma temporada de Game of Thrones custa de U$60 a U$70 milhões de dólares. “Batalhas custam caro”, conta Martin, que trabalhou com TV na década de 80 e um ar de veterano conformado em sua voz.

Quanto aos momentos que ele sente falta, Martin cita uma cena do primeiro livro, “A Guerra dos Tronos”, que não entrou na temporada 1. A família Stark está viajando para a Terra do Rei, capital dos Sete Reinos, com a família real. As irmãs Sansa e Arya são convidadas para um chá com bolo de limão com a rainha Cersei, mas Arya quer caçar com o filho do açougueiro. E as irmãs brigam por conta disso.

Martin diz sentir falta dessa cena, porque ela dá textura e ajuda a estabelecer desde cedo nos personagens o relacionamento entre as irmãs. Embora cortada do seriado, a cena foi utilizada para o teste do papel de Sophie Turner, que interpreta Sansa, e Maisie Williams, atriz que dá vida a Arya.

O senhor Martin, que publicava suas curtas histórias em revistas de ficção científica nos anos 70, sempre se viu como um autor de histórias ficcionais, e o mundo dos livros o condecorou com honras, incluindo os prêmios Hugo, Nebula, Stoker e o prêmio Mundo da Fantasia. “Eu estou mais para um solitário do que para um colaborador”, diz ele.

No entanto, ele colaborou muito quando trabalhou na televisão, como editor para “Além da Imaginação”, na CBS, em 1986, e escritor e produtor em a “Bela e a Fera”, que estreou no mesmo canal em 1987. Mas, “eu estava meio frustrado”, conta Martin. Como escritor, ele estava mais preocupado com “Como eu deixo a história melhor, mais forte? Qual é a palavra certa aqui? Eu quero a palavra final. Eu cansei de brigar por uma briga de segundo grau, o poder de equação de Hollywood”.

Ele acrescenta: “Se eu não gosto de uma das sugestões de Anne” – seu editor na Bantam Books, Anne Groell – “Eu não aceito. Na TV, você tem o canal, o estúdio na sua cabeça como Zeus no Olimpo”.

Então, ele virou as costas para a televisão e abraçou de novo os livros, começando a saga “As Crônicas de Gelo e Fogo”, em 1991, determinado a deixar a história levá-lo para onde deveria, a jornada de volta às suas paixões criativas.

O senhor Martin tem 65 anos, e cresceu em Bayonne, no estado de Nova Jersey, filho de um estivador. Desde cedo, se interessou pela fantasia, ficção científica e história em quadrinhos. Seus autores preferidos na adolescência incluíam Robert Heinlein, Jack Vance, J. R. R. Tolkien e o “Senhor dos Anéis” e os quadrinhos da Marvel. No Quarteto Fantástico nº 20, de 1963, há uma carta de um fã de um tal de George R. Martin – aparentemente, ele não havia crescido até o segundo “R”. como Tolkien – sobre o Quarteto Fantástico, nº 17, no qual o Senhor Fantástico, o Coisa e companhia lutam contra o Doutor Destino. Mesmo lá atrás, Martin já estava preocupado com a quantidade de ação e número de páginas.

“Eu não consigo entender como você coloca tanta ação em poucas páginas”, ele escreveu.

Na série “As Crônicas de Gelo e Fogo, Martin colocou muita ação em muitas páginas – algo em torno de 5.000 e contando – começando em 1996, quando “A Guerra dos Tronos” foi publicada. Embora tenha vários elementos de fantasia, é parecido, em diversas maneiras, como uma história do século XIX, com fantasias filigranas, muito mais Tolstoy do que Tolkien. Martin diz nunca ter imaginado que elas poderiam ser feitas para a TV.

E há aqueles que estariam mais felizes se a série nunca tivesse ido para a HBO. Com o aumento de audiência, muitos críticos reclamaram da forma como a violência sexual é retratada. Mas Martin diz que isso é algo que não pode ser ignorado no mundo. “Estupro e violência sexual fizeram parte de cada guerra, dos antigos Sumérios até os dias de hoje, escreveu ele num email ao The New York Times no mês passado. “Omitir isso numa narrativa centrada numa guerra e no poder seria de muita falsidade e desonestidade”.

Mas Martin foi rápido ao dizer em sua última entrevista que seu papel na série da HBO é de coadjuvante. Ele é co-produtor executivo e escreveu apenas um episódio para cada temporada. Ele diz tentar não se preocupar com as adaptações televisivas. “Mas”, diz ele, “pequenas mudanças podem levar a maiores mudanças”.

Pegue o músico Marillion, da primeira temporada, por exemplo. Na série da HBO, é gravemente ferido – sua língua é cortada – para satisfazer os caprichos do rei Joffrey e, então desaparece da história. Isso não acontece nos livros, onde ele é o acusado pelo assassinato de Lysa Arrin, cometido por Lord Petyr Baelish (que foi mostrado na atual temporada da série). “Aquilo precisou ser mudado”, no seriado, conta o escritor sobre o assassinato. “Os efeitos borboleta estão acumulando”.

Mas e seu sonho, sua visão? A HBO conseguiu realizá-los? Ele disse estar satisfeito pelas roupas, pelos sets de filmagem e os efeitos especiais. Se ele estivesse mais envolvido, diz ele, ele sugeriria algumas modificações e curvas. “Não, não, vamos fazer o elmo assim”.

Mas há um ponto crucial que o deixa frustrado: a retratação do cruel e monumental Trono de Ferro. “O Trono da HBO ficou icônico”, segundo escreveu em seu blog. “E deveria. Ele possui um ótimo design, e serviu ao seriado muito bem. Há réplicas e representações dele em três tamanhos diferentes. Todo mundo sabe disso. Eu amo o amo. Eu tenho todas essas réplicas na minha estante”.

Mas ele continuou: “Mas não é como o Trono de Ferro que eu imagino quando escrevo ‘The Winds of Winter’. Não é o Trono de Ferro que eu descrevi nos meus livros. GRANDE, pesado, preto, trançado, com íngremes escadas de ferro na frente, o trono mais alto, do qual o rei olha a todos lá embaixo… Meu trono é grande e curvado, pairando sobre toda a sala do trono, feio e assimétrico… O trono da HBO não é nada dessas coisas”.

Independente do trono que os fãs preferirem, milhões deles serão reféns do último episódio de Game of Thrones na noite de domingo. (O seriado foi renovado para uma quinta e sexta temporada.) Há mais de 31 milhões de cópias dos livros sendo impressas, de acordo com a Bantam, e quando o próximo livro sair, “The Winds of Winter“, será um best-seller instantâneo.

O sucesso de “Game of Thrones” na TV tornou Martin uma estrela. Um homem de medida e júbilo dignos de um hobbit, ele não é muito a capa da revista People – figura de um estrela da cultura-pop. “É surreal”, disse ele durante a entrevista. “Você sempre espera pelo sucesso. Mas isso te leva para outro nível, o de uma celebridade, mas que ficou velha muito rápido”.

Famoso ou não, Martin ainda é obrigado a sentar e a escrever todos os dias, porque milhões de fãs estão ansiosos, esperando que o “inverno” chegue – logo. Ele está escrevendo muito devagar para o gosto de muitos fãs, mas chegar à qualidade leva tempo. Quando perguntado sobre o progresso de “The Winds of Winter”, tudo o que Martin disse suspirando foi “está indo”.

Foi o suspiro de um bom sonhador sobre prazos.


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