Esta enquete é um exemplo do por que muitas vítimas de estupro não denunciam seus agressores

Esta enquete é um exemplo do por que muitas vítimas de estupro não denunciam seus agressores

Ontem (28), a escritora Clara Averbuck denunciou ter sido estuprada por um motorista do Uber em um relato publicado no Facebook. 

“Bom, virei estatística de novo. Queria chamar de ‘tentativa de estupro’, mas foi estupro mesmo”, escreveu. “Tava bêbada? Tava. Foda-se. Não vou incorrer no mesmo erro de quando eu era adolescente e me culpar. Fui violada de novo, violada porque sou mulher, violada porque estava vulnerável e mesmo que não estivesse poderia ter acontecido também. O nojento do motorista do Uber aproveitou meu estado, minha saia, minha calcinha pequena e enfiou um dedo imundo em mim, ainda pagando de que estava ajudando ‘a bêbada’. Estou machucada, mas estou em casa e medicada pra me acalmar. […] O mundo é um lugar horrível pra ser mulher”.

Clara ainda não foi fazer uma denúncia na delegacia, pois segundo contou ao jornal O Globo, ela não confia no sistema. Mas o Uber foi acionado e, em nota, informou que o motorista foi banido e que cooperará com as investigações.

Veja, casos de estupro como o de Clara, lamentavelmente, não são poucos no país: segundo um levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Em 2015, o país registrou 45,4 mil desses casos. E no passado, de acordo com o Ministério da Saúde, 3.526 casos de estupro coletivo aconteceram em território brasileiro. Ainda assim, esses números podem ser ainda muito maiores, já que a violência sexual é um crime muito subnotificado, pois muitas mulheres não registram ocorrência. E isso acontece por muitos motivos, como o medo do que possa acontecer a ela, vergonha, culpa e, também, porque muitas pessoas não acreditariam.

Pouco tempo depois de ter feito seu relato, para alertar outras mulheres, Clara Averbuck recebeu uma onda de apoio de muitas mulheres, mas também, olhares de desconfiança. Uma enquete chegou a ser feita no Twitter, perguntando quem acreditaria na escritora.

Esse é mais um exemplo de como a cultura de estupro funciona: quem acredita numa mulher que foi estuprada, mas não quis prestar queixa? Para muitos, o fato de evitar fazer uma denúncia formal, coloca em xeque a credibilidade do depoimento da mulher, e coloca o motorista como vítima de uma situação que pode não ter acontecido. É curioso ver como há pessoas tão rápidas em defender um homem que pode ter estuprado alguém, do que sair em defesa de uma mulher estuprada. 

É como se fosse necessário uma “vítima perfeita” para que o caso fosse real, ainda que essa tal “vítima perfeita” não exista. Do contrário, ou a mulher está mentindo ou ela estava pedindo pelo que aconteceu, seja pela roupa, seja pelo fato de ter bebido. Aquela violência não teria ocorrido, caso ela tivesse se precavido. Mas por que homens não passam pelo mesmo filtro moral? Ou por que somos tão rápidos em dar uma segunda chance a um homem ou a acreditar no que ele diz, ao mesmo tempo em que relativizamos o que uma mulher viveu?

A enquete criada no Twitter, por mais tola que seja, ajuda a entender por que uma mulher não denuncia. Casos de estupro não deveriam ser julgados pela internet, que embora seja ótima para unir pessoas e ideais, também consegue destruir vidas de tantas outras (vide o slut-shaming). 

E isso leva a outro ponto, que ajuda a entender por que mulheres não vão em frente com as acusações: o trauma é muito grande. Não raro, muitas não querem reviver a dor. Ter de relatar e provar que foram violentadas é, para muitas, algo que simplesmente não querem passar na vida. E é de se entender: diferente do que acontece em filmes e seriados, nos quais o estupro ajuda a fortalecer a personagem feminina, na vida real, ele destrói muitas mulheres, que acabam precisando de amparo emocional e levam anos, talvez uma vida inteira, para conseguir lidar com o que lhes aconteceu. Tantas outras, acabam tirando suas próprias vidas. 

Clara Averbuck foi, infelizmente, mais uma vítima de uma violência ainda muito comum. Sua decisão de ir ou não para a delegacia deve ser respeitada. Por mais que você não concorde, é o jeito dela de lidar com a situação. E a escolha dela precisa ser respeitada.

Com a grande repercussão de seu caso, ela deu início a uma campanha na internet, que visa incentivar outras mulheres a expor casos similares ao seu. É preciso mesmo que uma conversa sobre estupro, assédio e outras formas de agressões contra mulheres sejam feitas. E, para tal, é importante fortalecer mulheres. Quem sabe quanto mais mulheres falarem, mais acreditarão nelas. Tomara que sim.


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