Encontro com Fátima Bernardes recebe Federico Devito, mas conversa sobre homossexualidade é morna

01. dezembro 2014 Televisão 0
Encontro com Fátima Bernardes recebe Federico Devito, mas conversa sobre homossexualidade é morna

Na semana passada, Federico Devito, ex-colírio da revista Capricho e hoje publicitário, postou um vídeo em seu canal no Youtube, declarando-se homossexual. Nele, o rapaz incentiva outros jovens homossexuais, que estão enfrentando problemas com sua sexualidade, ou que apenas queiram conversar sobre o assunto, a entrarem em contato com ele. O vídeo já foi visto mais de 304 mil vezes.

Pessoalmente, apesar de achar que a sexualidade de uma pessoa não é da conta de ninguém, achei sua postura muito positiva. Poucas celebridades brasileiras são assumidamente homossexuais. Por diversos motivos, que precisam ser respeitados, elas não dividem esse aspecto da vida com o público. Nesse sentido, acho bacana o Federico fazer isso, pois pode inspirar jovens homossexuais a fazerem o mesmo e aceitarem sua sexualidade.

Hoje, 1º, o rapaz foi ao programa ‘Encontro com Fátima Bernardes’, da Rede Globo, ao lado de sua mãe, Maria Laura Ponessa. O assunto conversado foi sobre a reação dos pais ao descobrir que seu filho é homossexual. Eu esperava mais do programa. Decepcionou um pouco, pois a conversa ficou um tanto superficial. Ainda assim, acho que o saldo foi positivo.

Primeiro, Fátima lembrou de dois casos que aconteceram nos Estados Unidos, onde um pai perguntou num fórum de internet como apoiar o filho, que tinha acabado de se declarar homossexual a ele. Depois leu a carta de um avô americano recriminando a atitude de sua filha por ter expulsado seu neto gay de casa. Dada a introdução, foi a vez de dar voz ao povo na rua. Os comentários foram bem positivos, tendo somente um senhor dizendo que não apoiaria e que tiraria o filho de casa.

Esse foi o único comentário homofóbico no programa, que tentou o tempo todo mostrar que a homossexualidade é algo natural, apesar de muitos dos convidados presentes dizerem que era uma ‘escolha’. Viviane Mosé, a psicanalista e filósofa que estava presente, falou bem sobre a importância de os pais manterem o vínculo afetivo com os filhos, independente da sexualidade deles, porém, reiterando que “se essa é a escolha dele, é preciso respeitá-la”. Homossexualidade não é escolha, como bem sabemos. Ninguém decide um dia ser gay. As pessoas nascem como são.

O ator Rodrigo Lombardi, que fazia parte dos convidados, também usou o termo ‘escolha’ para defender o ponto de vista que muitos pais se culpam quando o filho se diz homossexual. Escolha, escolha, escolha, escolha… De novo, ninguém escolhe sua sexualidade. Ninguém. A escritora Thalita Rebouças logo lembrou de seus amigos gays, que disseram a ela que não se trata de uma escolha, pois ninguém escolheria enfrentar preconceito nas ruas todos os dias.

Foi então a vez de Federico e sua mãe, Maria Laura, falarem. O rapaz contou sobre a boa repercussão do seu vídeo, e que recebeu milhares de emails de garotos com dificuldades de contarem aos pais que são homossexuais. Pessoalmente, acho muito bacana essa atitude dele de se tornar um canal onde outros jovens podem procurar apoio.

A mãe foi muito sincera. “Não foi fácil”, disse ela logo de início, explicando que isso ia contra a maneira como foi criada. “Querendo ou não, acho que o preconceito existia em mim. Quando você tem um filho, você idealiza seu filho, mas nunca como homossexual. Você idealiza como um heterossexual”, resumiu bem a mãe Maria Laura.

federico_mae

Pessoalmente falando, acho que contar aos pais sobre ser homossexual vai de cada indivíduo. Há famílias em que ser hétero ou ser gay é normal, então não há a necessidade de contar, porque aquilo é algo natural, não é tabu. Outras famílias são mais resistentes e homofóbicas, não dando um espaço para que o jovem possa iniciar um diálogo. Às vezes, o próprio filho não quer contar, porque acha que os pais vão ter de lidar com aquilo uma hora ou outra, ao invés de ficar mantendo as aparências. Cada um sabe a família que tem. Se for contar, é preciso que você tenha seu tempo. Se conheça, goste de quem é, aceite-se, e depois conte para seus pais. Não é preciso ter pressa, é preciso que você ame quem você é.

Voltando ao programa, muitos criticaram o Federico Devito, dizendo que agora ele vai ganhar muito mais visibilidade e, talvez, mais trabalhos por isso; além do mais, ele segue a linha branco, rico e cis. Acho que não devemos desmerecer sua coragem e a sua vontade de ajudar. Por mais que ele esteja ‘protegido’ socialmente, ninguém garante que ele não possa ser agredido ou morto por ser quem é ou andar de mãos dadas com um namorado na rua. É um risco que, infelizmente, todo homossexual no Brasil corre.

O programa poderia ter aprofundado a questão? Poderia. No entanto, achei positiva a forma como o tema foi abordado, de maneira leve. Não poderia esperar algo mais pesado, afinal, é um programa matutino e acredito que a Fátima não entraria nesse campo, num programa desse horário. E, mesmo sendo jornalista, e, por formação, ter de prezar sempre pela dualidade de opiniões, achei bom não ter nenhum convidado contrário à homossexualidade, afinal, essas pessoas já possuem suas posições com muito espaço na sociedade e na mídia. Dar voz a quem sofre a violência e é sempre alvo de piadas, foi bem humano por parte da produção do programa. Dava para ser melhor, mas já acho um bom começo para o diálogo.