Sobre aquele comentário de Emma Stone no Oscar: uma outra perspectiva

07. março 2018 Cinema 1
Sobre aquele comentário de Emma Stone no Oscar: uma outra perspectiva

A entrega do Oscar aconteceu no último domingo (4), encerrando a temporada de premiações. Infelizmente, ele foi menos político do que se esperava, tendo poucos momentos para conscientizar o público sobre questões sérias e urgentes, como fez o Globo de Ouro, por exemplo.

Em uma dessas poucas oportunidades, Emma Stone aproveitou o palco para chamar a atenção para a falta de oportunidades para mulheres na indústria cinematográfica. Antes de anunciar o vencedor na categoria Melhor Diretor, a atriz deu uma leve cutucada na Academia do Oscar, e fez muita gente gritar na sala de casa (eu, incluso):

“Esses quatro homens e Greta Gerwig criaram suas próprias obras primas nesse ano”.

Em 2018, Greta Gerwig foi a única mulher indicada ao prêmio de Direção, pelo filme “Lady Bird: A Hora de Voar”, mesmo que “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi”, da diretora Dee Rees, também merecesse o reconhecimento. A cineasta perdeu o prêmio para Guillermo Del Toro, que também levou Melhor Filme com “A Forma da Água”.

Mas de volta ao comentário de Emma Stone, ela procurou criticar a falta de espaço para as mulheres na cadeira de diretor, um espaço dominado por homens. De acordo com um levantamento do Instituto Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia, dos 109 cineastas por trás dos 100 filmes mais populares de 2017, 92,7% (101) deles eram homens. O percentual é ainda maior entre 2007 e 2017: 95,7% dos diretores dos 1.100 filmes eram do gênero masculino. Isso significa que uma mulher é contratada a cada 22 homens.

Essa disparidade reflete nos indicados ao Oscar: em 90 anos de premiação, apenas 5 mulheres foram indicadas ao prêmio mais importante do cinema americano. Elas foram Lina Wertmüller (“1977”), Jane Campion (1994), Sofia Coppola (2004), Kathryn Bigelow (2010) e Greta Gerwig (2018). E, até hoje, apenas uma saiu vencedora: Bigelow, pelo seu trabalho com o filme “Guerra ao Terror”.

Olhando dessa maneira, é fácil defender o discurso da protagonista de “La La Land”. Porém, quando levamos em conta a raça/etnia dos indicados, as coisas mudam um pouco de figura.

Jordan Peele fez história neste ano ao ser o primeiro negro a levar para casa o Oscar de Melhor Roteiro Original, por “Corra!”. E ele poderia, também, deixar outra marca no prêmio: o primeiro negro a vencer Melhor Diretor. Nesses 90 anos, além de Peele, somente outros 4 negros foram indicados nessa categoria: John Singleton (1991), Lee Daniels (2009), Steve McQueen (2012) e Barry Jenkins (2017). Nenhum deles recebeu o prêmio. 

Guillermo Del Toro foi o Melhor Diretor para a Academia do Oscar, juntando-se a Alfonso Cuarón e Alejandro G. Iñarritu, os quais também são latinos e foram os Melhores Diretores, respectivamente, em 2014, 2015 e 2016. Esse retrospecto é até positivo, mas os três continuam sendo os únicos diretores latinos até hoje a conquistarem a honraria. 

E se cabe o adendo: as cineastas de minorias étnicas têm ainda menos oportunidades. Diretoras latinas e negras nunca ganharam o Oscar, tampouco têm as mesmas chances de homens brancos de dirigir um filme. A mesma pesquisa do Instituto Annenberg identificou que das 43 mulheres diretoras dos 1.100 filmes lançados entre 2007 e 2017, 36 eram brancas. Outras 4 eram negras, 2 eram asiáticas e somente uma era latina.

Por isso, quando colocamos tudo isso na balança, o comentário de Emma Stone perde a força, afinal, mesmo em uma categoria com 4 homens e uma mulher, dois deles também eram minorias tentando conquistar espaço e terem seus trabalhos reconhecidos. Ainda que muita gente (inclusive eu) tenha torcido por Greta Gerwig, é positivo que outras minorias possam ter destaque. 

Vamos torcer, agora, para que ao menos o puxão de orelha da atriz ajude a trazer mais trabalhos para mulheres cineastas. Especialmente para aquelas que mais precisam.

Tags:

,