Em “UnREAL”, as personagens femininas são difíceis de se gostar – e isso é algo bom

Em “UnREAL”, as personagens femininas são difíceis de se gostar – e isso é algo bom

[O TEXTO POSSUI SPOILER DE “UNREAL”]

No cinema e na televisão, não são poucos os exemplos de personagens cheios de falhas e desvios de caráter, mas que conseguem cativar o público, afinal, eles são tão humanos quanto qualquer um de nós. Pegue, por exemplo, Dexter Morgan, da série “Dexter”, Don Draper, de “Mad Men”, James Bond, da franquia “007”, Hank Moody, de “Californication”, Walter White, de “Breaking Bad”, o super-herói “Hancock” e assim por diante.

E vale dizer que, além desses personagens serem majoritariamente brancos, eles também são quase sempre homens. Raramente é dado um espaço para que existam mulheres com a mesma complexidade, afinal, existe uma cultura que exige que elas sejam sempre doces e agradáveis, ou o completo oposto disso. E até quando elas conseguem ‘furar’ essas ‘regras’, é preciso que exista um motivo para que ajam de determinada maneira, e é comum que isso envolva algum trauma com abuso sexual. Elas não podem, simplesmente, tomar más decisões ou serem ruins, é preciso dar um motivo para que isso aconteça. Pense na Pennsatucky, de “Orange Is The New Black”, por exemplo, ou em Claire Underwood, de “House of Cards”.

É aí que entra “UnREAL”, seriado que mostra os bastidores de um reality show de relacionamentos, e que apresenta não apenas uma, mas duas personagens femininas que são bons exemplos de anti-heroínas: Rachel (Shiri Appleby) e Quinn (Constance Zimmer). A primeira é produtora de “Everlasting”, uma atração que coloca mulheres em disputa pelo coração de um homem, enquanto a segunda é sua chefe e produtora-executiva do programa, a qual não mede esforços para fazer “boa televisão”, como ela mesma diz.

E “boa televisão” significa manipular as garotas para que briguem entre si e se tornem personagens de uma narrativa muito comum em novela: a mocinha, a vilã, a menina fácil etc. No decorrer do seriado, é possível perceber que tanto Rachel quanto Quinn possuem escolhas, mas escolhem os piores caminhos conscientemente, seja para que “Everlasting” seja um sucesso, seja em benefício próprio.

Mas isso não quer dizer quem ambas sejam vilãs o tempo todo. Conforme adentramos em suas vidas, temos um olhar sobre seus próprios conflitos internos: na última temporada do reality show que produz, Rachel teve um colapso nervoso, e só voltou para a atração pois possui um contrato e está cheia de dívidas. E uma vez no programa, ela tenta balancear seus valores feministas (no primeiro episódio ela aparece vestindo uma camiseta que diz: ‘é assim que uma feminista se parece’) com as manipulações que precisa fazer em seu trabalho.

Já Quinn possui um difícil relacionamento com Chet (Craig Bierko), seu chefe, o qual a engana várias vezes para mante-la por perto. São nesses momentos que podemos ver sua faceta mais vulnerável, diferente daquela mulher forte, arrogante e que não se importa com os sentimentos dos outros quando está comandando o reality show. 

As duas mulheres não são uma coisa ou outra, pois assim como qualquer ser humano, elas possuem profundidade, acertando e errando e tendo dúvidas acerca de seus próprios comportamentos. Especialmente Rachel, que se vê presa em várias oportunidades entre agir de maneira correta ou fazer algo moralmente condenável (Quinn parece ter feito as pazes com sua consciência). Quase sempre ela opta pela segunda coisa, mas essa reflexão que faz em determinados momentos ajuda a criar uma conexão entre ela e o público, que mesmo não querendo, acaba simpatizando e torcendo por ela.

No mais, ambas são duas peças em um jogo muito maior, que assim como na vida real, também é dominado e comandado por homens. Isso não as impede, contudo, de tomar decisões ruins. Elas ainda possuem escolhas, mas optam pelo caminho controverso. E é positivo que possamos ver mulheres problemáticas no centro de uma narrativa, pois esse parece ser apenas um local destinado aos homens em obras televisivas ou cinematográficas. Não só isso, como eu disse anteriormente, há elementos muito reais nas duas personagens.

Você não precisa, necessariamente, torcer por nenhuma delas, pois essa é uma tarefa que se torna cada vez mais complicada a cada episódio de “UnREAL”. Porém, o seriado é um bom exemplo de uma série feminista ao não reduzir Rachel e Quinn a apenas uma coisa só.

Elas estão longe de ser perfeitas, assim como o próprio reality show que produzem.


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