Em quase 74 anos, o Globo de Ouro premiou apenas UMA mulher na categoria de ‘Melhor Diretor’

19. dezembro 2016 Cinema 0
Em quase 74 anos, o Globo de Ouro premiou apenas UMA mulher na categoria de ‘Melhor Diretor’

Os indicados ao Globo de Ouro foram anunciados na semana passada, e embora a diversidade racial tenha tido uma pequena melhora nas categorias de cinema, a diversidade de gênero na premiação deixou a desejar.

Em 2017, ano em que a premiação chega à sua 74ª edição, não há mulheres indicadas na categoria ‘Melhor Diretor’. Será o segundo ano consecutivo sem uma mulher entre os considerados ‘melhores do ano’. A última mulher a concorrer foi Ava DuVernay, em 2015, com o filme “Selma”, sendo  também a primeira negra a disputar a estatueta dourada dada pela Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood.

Aliás, na categoria ‘Melhor Diretor’, apenas 5 mulheres foram indicadas em mais de sete décadas de Globo de Ouro. Além de DuVernay, Kathyrin Bigelow concorreu duas vezes, por “A Hora Mais Escura” (2013) e “Guerra ao Terror” (2010); Sofia Coppola participou uma vez, com “Encontros e Desencontros” (2004); Jane Campion foi nomeada uma vez, com “O Piano” (1994); e Barbra Streisand, foi indicada duas vezes, por “O Príncipe da Maré” (1992) e “Yentl” (1984). Com esta última obra, ela se tornou a primeira e única mulher a vencer na categoria de ‘Melhor Direção’ no evento.

“Meu Deus, isso é muito, muito emocionante. Eu não esperava por isso, acreditem em mim”, disse Barbra no início de seu discurso. “Dirigir foi o ponto alto da minha vida profissional. Esse prêmio é muito significativo para mim,  tenho  muito orgulho dele. Eu espero que ele represente novas oportunidades para tantas mulheres talentosas, para que elas possam tornar seus sonhos em realidade, assim como eu”.

Infelizmente, não foi o que aconteceu.

E uma situação bem similar está presente no Oscar, considerado o prêmio máximo do cinema: em 88 anos de premiação, apenas 4 mulheres foram indicadas na categoria de ‘Melhor Diretor’, e somente uma levou a honraria para a casa: Kathyrin Bigelow, por “Guerra ao Terror”.

Isso não significa, porém, que o problema está nas premiações, mas em Hollywood como um todo. Peguemos o estudo sobre diversidade no cinema, realizado no começo do ano pela Universidade do Sul da Califórnia (USC), e que avaliou os 100 filmes mais populares lançados em 2015. De acordo com o levantamento, as mulheres dirigiram 8 desses longas, sendo todas elas brancas. A mesma pesquisa ainda examinou o gênero das diretoras por trás dos 800 maiores filmes entre 2007 e 2015 (exceto 2011), e concluiu que apenas 4,1% de todos eles foram dirigidos por mulheres.

E isso não é por falta de mulheres competentes para tal função, mas pela falta de oportunidades dadas a elas pelos grandes estúdios. Por isso, não é à toa que uma agência federal americana deu início a uma investigação na indústria cinematográfica, em outubro do ano passado, para entender a ausência das mulheres ocupando o cargo de direção.

Cinquenta mulheres foram escutadas, as quais relataram que os estúdios fazem ‘pequenas listas’ com nomes de possíveis diretores, sendo a grande maioria deles homens.

“No último ano, houve muita conversa sobre aumentar as oportunidades para as mulheres em Hollywood”, disse Melissa Goodman, uma advogada que trabalha na investigação, à revista TIME. “Mas houve poucos passos definitivos para solucionar o problema. É um problema profundamente estrutural na indústria. O número de mulheres que são contratadas não está mudando, [mas] está estagnado há anos”.

Essa é uma questão importante tanto quanto a representação feminina na frente das câmeras. Isso porque filmes e programas de televisão ajudam a formar nossa visão de mundo, e quando eles não são feitos por mulheres, temos uma perspectiva muito limitada delas mesmas, as quais acabam sendo retratadas por meio de estereótipos que não condizem com a realidade. Pois assim como os homens, elas também são complexas e multifacetadas.

Uma mudança na indústria cinematográfica não vai acontecer da noite para o dia, mas o que Hollywood pode começar a fazer é contratar mulheres para suas produções, assim como a Disney fez recentemente com “Rainha de Katwe” e “Uma Dobra no Tempo”, dirigidos, respectivamente, por Mira Nair e Ava DuVernay. E cabe a nós, público, valorizar o trabalho feito por mulheres, indo ao cinema e assistindo a suas obras, pois é dessa forma que os executivos conseguem entender a mensagem, além de cobrá-los por uma representação feminina maior.

É um desafio grande mudar o sistema, mas com esperança, veremos mais mulheres e seus trabalhos sendo reconhecidos em premiações.


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