Em 59 anos de Grammy, apenas 10 artistas negros foram premiados com o ‘Álbum do Ano’

14. fevereiro 2017 POP 0
Em 59 anos de Grammy, apenas 10 artistas negros foram premiados com o ‘Álbum do Ano’

Beyoncé e seu álbum “Lemonade” foram esnobados no Grammy Awards deste ano. Das 9 indicações em que concorria, a voz de “Formation” levou apenas dois prêmios para casa: ‘Melhor Álbum Urban’ e ‘Melhor Clipe’. A única pessoa que reconheceu o trabalho de Queen Bey foi Adele, que ao receber ‘Álbum do Ano’, fez questão de elogiar sua ‘concorrente’ na categoria.

“Eu não posso aceitar esse prêmio. Estou honrada e agradecida, mas a artista da minha vida é a Beyoncé”, disse a cantora em seu discurso. “Esse álbum, o ‘Lemonade’, foi tão monumental, Beyoncé. Foi tão monumental e bem-pensado e libertador, e todos nós pudemos ver um outro lado seu que você nem sempre nos permite ver. E nós agradecemos por isso. Todos os artistas aqui adoram você. Você é nossa luz. E a forma como você fez eu e meus amigo nos sentirmos, a forma como você fez meus amigos negros se sentirem é empoderador. E você os fez fortes. Eu sempre te amei e sempre vou te amar”.

Foi a terceira vez que a cantora perdeu o prêmio de ‘Álbum do Ano’. A primeira foi em 2010, quando “Fearless”, de Taylor Swift, bateu “I Am… Sasha Fierce”, e em 2015, quando Beck e o disco “Morning Phase” levaram a melhor sobre o álbum visual auto-intitulado de Beyoncé.

Após a derrota deste ano, muitas publicações teorizaram o motivo para tal. O site Vox acredita que o motivo se dá pela divisão dos votos dos integrantes da Recording Academy, responsável pela premiação, que favoreceram o “25” de Adele, por ele ter vendido 20 milhões de cópias no mundo todo, e pelo fato de que a música da cantora britânica é mais ‘palatável’ pelo público (branco), sendo escutada por diferentes gerações.

Já o “Lemonade” não chegou nem perto de vender o mesmo de “25”, mas recebeu mais críticas positivas e é um disco de forte teor político, que reflete a situação atual das mulheres negras americanas (e até das brasileiras), além de ser uma celebração às suas raízes.

“Minha intenção ao fazer o filme e o álbum foi o de criar um trabalho que desse uma voz às nossas dores, nossas lutas, nossa escuridão e nossa história”, disse Beyoncé em seu discurso de agradecimento pelo prêmio de ‘Melhor Álbum Urban’.

Ainda assim, isso não foi o bastante para que ela recebesse o prêmio máximo. “O que mais ela precisa fazer para ganhar o ‘Álbum do Ano’?”. Essa foi uma pergunta feita por Adele, mas que expressa os sentimentos de todos nós.

Contudo, Queen Bey está longe de ser a única artista negra a ser esnobada no Grammy Awards. Desde 1959, quando a premiação começou, até hoje, apenas 10 músicos negros levaram ‘Álbum do Ano’:

    • Stevie Wonder: em 1974, com “Innervisions”, em 1975, com “Fulfillingness’ First Finale”, e em 1977, com “Songs in the Key of Life”;
    • Michael Jackson: em 1984, com “Thriller”;
    • Lionel Richie: em 1985, com “Can’t Slow Down”;
    • Quincy Jones: em 1991, com “Back on the Block”;
    • Natalie Cole: em 1992, com “Unforgettable With Love”;
    • Whitney Houston: em 1994, com a trilha sonora de “O Guarda-Costas”;
    • Lauryn Hill: em 1999, com “The Miseducation of Lauryn Hill”;
    • Outkast: em 2004, com “Speakerboxx/The Love Below”;
    • Ray Charles: em 2005, com “Genius Loves Company”;
  • Herbie Hancock: em 2008, com “River: The Joni Letters”.

Ou seja, fica claro que o Grammy possui um problema de raça, tal qual o Oscar, maior prêmio da indústria cinematográfica.

Embora não se saiba quem são as pessoas que integram a Recording Academy, não fica difícil acreditar, que assim como em qualquer indústria, a maioria dos membros sejam homens brancos e mais velhos, como especula o Vox:

“As estruturas de poder da indústria musical, assim como as estruturas de poder de qualquer indústria nos Estados Unidos, são cheias de pessoas da geração baby boom, as quais estão estão envelhecendo, que talvez sejam superadas em números por jovens, mas que têm um tendência a votar em bloco e promover o tipo de coisa que apetece seus ouvidos”.

E isso interfere totalmente no resultado dos melhores do ano, já que, pelas regras de votação da Recording Academy, todos os integrantes têm o direito de votar nas quatro principais categorias, além de outras 20, que são opcionais. Isso permite que pessoas sem muito conhecimento em hip-hop, por exemplo, deixe de votar em determinado álbum e/ou artista, para favorecer outro álbum e/ou artista que ele goste mais ou que tenha mais familiaridade.

“Pessoas famosas tendem a ganhar mais votos de membros da Academia que as conhecem, independente da qualidade de seus trabalhos”, afirmou o jornalista Rob Kenner, que faz parte de um dos comitês que analisam as submissões ao Grammy Awards. “Isso é especialmente verdade em categorias específicas, como o reggae e, a uma menor extensão, o hip-hop, já que muitos membros da Academia (que tendem a ser mais velhos que o público do rap) talvez não conheçam tão bem os melhores lançamentos de um determinado ano”.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que realiza o Oscar todos os anos, ao menos, mudou seu sistema de votação e começou a mexer em seu corpo de membros para diversificar as obras e artistas indicados na premiação. Mas isso não aconteceu antes de dois anos seguidos de protestos contra a falta de diversidade no evento.

Talvez, seja necessário que o Grammy siga o mesmo caminho, para que os artistas indicados e que recebem os prêmios, os recebam mesmo por mérito. Claro que Adele e seu “25” possuem muitos méritos e merecem ser reconhecidos, mas quando essa será a realidade para artistas negros, os quais ano após ano vêem seus esforços não receberem as mesmas honrarias?

A esperança que fica é a de que essa tenha sido a última vez que Beyoncé foi esnobada pelo Grammy, e que ela não precise gravar um álbum de jazz e esperar uma vida toda (como Herbie Hancock ou Ray Charles, o qual só recebeu o prêmio após sua morte), para ter seu talento finalmente reconhecido pela indústria musical. Afinal, ela já esperou tempo demais.