É muito ruim que a Globo exiba mulheres fazendo falsas denúncias de violência doméstica em suas novelas

É muito ruim que a Globo exiba mulheres fazendo falsas denúncias de violência doméstica em suas novelas

Nos últimos anos, campanhas que tiveram início na internet ganharam o mundo offline. Iniciativas como #ChegaDeAssédio#ChegaDeFiuFiu, #PrecisamosFalarSobreAborto e #MeuPrimeiroAssédio deram visibilidade às diferentes formas de violência contra a mulher, e tiveram impacto, também, fora das telas, criando debates necessários e urgentes sobre o tema.

Atualmente, de acordo com um levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil é o quinto país num ranking mundial de feminicídio, o que mostra a importância de discutir e criar mecanismos para combater a violência de gênero. Nesse sentido, é ruim e um desserviço que a Globo exiba duas mulheres fazendo falsas denúncias de agressão em suas novelas.

De acordo com a coluna de Maurício Stycer, em “Rock Story”, Mariane (Ana Cecília Costa) vai mentir que Gui (Vladimir Brichta) teria batido nela, uma ideia que seria dada por Lázaro (João Vicente de Castro). Já em “A Força do Querer”, Cibele (Bruna Linzmeyer) discutirá com Ruy (Fiuk), que a segurará pelo braço. Em seguida, ela irá à delegacia e dirá que que ele “quase quebrou” o braço dela.

Essa é a mesma emissora que há poucas semanas incentivava suas funcionárias a denunciar o assédio no ambiente de trabalho, que suspendeu José Mayer de seus folhetins por tempo indeterminado, após a denúncia de assédio sexual da figurinista Susllem Meneguzzi, e que discutiu a violência doméstica em um dos programas do aclamado “Amor&Sexo”. 

Não só isso, quando olhamos com mais atenção para as estatísticas envolvendo a violência contra a mulher, é difícil entender a decisão dos autores das novelas a dar prosseguimento com narrativas tão desalinhadas com a realidade.

Para se ter uma ideia, segundo a ONG Action Aid, a cada hora, cinco mulheres morrem nas mãos de seus maridos e parceiros no mundo todo. Somente no Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de um milhão de mulheres são vítimas de violência doméstica todos os anos no país. 

Indo além, de acordo com o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, uma pessoa é estuprada no país a cada 11 minutos. A cada 4 minutos, uma mulher dá entrada no SUS vítima de violência. Em 2014, estima-se que mais de 47 mil pessoas tenham sofrido essa violência no Brasil, um número que pode ser ainda muito maior, já que esse crime é pouco reportado. Calcula-se que somente entre 7,5% e 10% delas chegam a formalizar uma acusação

São dados que chocam, ainda assim, ignorados pela maior emissora do país, que em meio a bons progressos feitos em sua programação, poderia usar seu poder para conscientizar o público sobre a violência contra a mulher. Pois ao mostrar duas personagens fingindo denúncias de agressão, o canal reforça um velho estereótipo de que as mulheres são descontroladas e que mentem para poder ficar ou se vingar dos homens amados. É exatamente essa ideia perigosa que impede que muitas procurem auxílio para sair de relacionamentos abusivos ou a denunciar seus agressores. Suas dores sempre parecem ‘irreais’, ‘menores’ e ‘sem importância’ para que sejam levados a sério.

Isso tudo não é para dizer que não é possível que haja mulheres que mintam sobre agressões. Isso pode acontecer na vida real. O problema é que isso raramente acontece. E quando duas novelas acabam abordando essa temática, ela faz um desserviço e banaliza as dores de vítimas e sobreviventes.

É triste que a Globo vá por esse caminho. É o tipo de capítulo de novela que ninguém quer ver no ar.


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