É capacitismo quando: não vemos pessoas com deficiência em novelas, filmes e seriados

É capacitismo quando: não vemos pessoas com deficiência em novelas, filmes e seriados

(Texto realizado com a assistência da Mila Correa)

Hoje, 3 de dezembro, é Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, data que visa criar uma reflexão sobre a falta de oportunidades e de tratamento igualitário para essas pessoas.

Para chamar a atenção para a questão, um movimento foi iniciado na internet com a hashtag #ÉCapacitismoQuando, que visa explicar como se dá a discriminação contra pessoas com deficiência, já que ela nem sempre acontece de maneira explícita (assim como tantas outras).

Capacitismo é o termo utilizado para se referir ao preconceito contra pessoas que tenham algum tipo de deficiência.

Coletivamente, todos poderíamos fazer algo para tornar a sociedade mais inclusiva e mais respeitosa, como cobrar rampas nas calçadas para pessoas que usam cadeiras de rodas, parar de definir alguém por conta de sua deficiência (chamar de ‘cadeirante’, por exemplo) ou usar imagens de pessoas com deficiência ‘motivá-lo’ a parar de reclamar da vida e buscar seus sonhos. Este último é bem problemático, especialmente porque transforma esses indivíduos como objetos de inspiração.

Como bem explicou a falecida jornalista australiana Stella Young, em uma palestra na plataforma TED:

“Neste caso, estamos objetificando as pessoas com deficiência em benefício das pessoas sem deficiência. O propósito dessas imagens é inspirar você, motivar você, para então podermos olhar para elas e pensar: ‘bem, por pior que seja a minha vida, poderia ser pior. Eu poderia ser aquela pessoa’. Mas e se você for aquela pessoa?”

A mídia e o entretenimento podem fazer muito para discutir e dar visibilidade às questões das pessoas com deficiência, além de humanizar esses indivíduos a partir das histórias que são contadas. Contudo, infelizmente, assim como a sociedade em geral, elas falham na representação de pessoas com deficiência.

Em tempos de pedidos por mais diversidade em novelas, filmes e seriados, essa demanda deveria incluir o grupo, que vale dizer, corresponde a 23,9% (45,6 milhões) da população brasileira, segundo uma pesquisa do IBGE. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum tipo de deficiência.

E ainda assim, quando ligamos nossas televisões ou vamos aos cinema, nós ainda não vemos essas pessoas, o que faz com que pensemos a deficiência como uma coisa distante ou menos comum do que realmente é.

De acordo com um estudo realizado sobre diversidade nos filmes, realizada pela Iniciativa de Mídia, Diversidade e Mudança Social, da Escola Annenberg de Jornalismo e Comunicação, da Universidade do Sul da Califórnia (USC), apenas 2,4% dos personagens das 100 maiores produções de 2015 eram pessoas com deficiência, um percentual muito baixo quando comparado à proporção de pessoas que vivem com alguma deficiência nos Estados Unidos: 18,7% da população americana. E ainda dentro desse recorte há outro problema: além da maioria ser secundária, sem grande peso para a narrativa, 81% dos personagens eram homens, 71,7% eram brancos e nenhum era LGBT.

Ou seja, as mensagens transmitidas são de que: a) pessoas com deficiência não merecem ter suas histórias contadas; b) para Hollywood, mulheres só podem ser vistas se forem jovens, magras, brancas e sem nenhuma deficiência; c) pessoas de minorias étnicas que vivem com deficiência não enfrentam nenhum desafio ou sequer ganham a oportunidade de ver suas histórias; d) LGBTs com deficiência não existem (ps: eles existem, sim!).

Uma outra pesquisa, feita neste ano pela ONG GLAAD, mostra que somente 1,7% dos personagens nas séries de televisão possuem algum tipo de deficiência, e segundo um levantamento  da Ruderman Family Foundation, 95% das pessoas sem deficiência interpretam esses personagens. Isso no faz pensar que, não bastasse não verem suas histórias na TV, esses indivíduos também não conseguem trabalho.

Embora eu não tenha conseguido achar pesquisas sobre representação de pessoas com deficiência nas novelas brasileiras, é seguro afirmar que nem de longe estamos vendo-as nas nossas produções nacionais. E quando finalmente fazem parte das tramas, também há problemas: suas histórias são reduzidas à deficiência que o personagem possui, ou para elevar a narrativa do personagem que não a possui. Igualmente ruim: muitas vezes a deficiência vem como “castigo” para tornar a pessoa que era ruim em um ser humano melhor. Basta lembrar, por exemplo, da personagem Luciana, de Alinne Moraes, em “Viver a Vida”. Antes do acidente que a deixou tetraplégica, ela era uma moça egoísta e mimada, mas que foi redimida, em seguida, por conta da deficiência.

É por isso que, não somente hoje, Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, mas todos os outros dias do ano, precisamos lutar e pedir pela visibilidade desse grupo, que carece não só de representação, mas de direitos e respeito.