Dos guetos para o mainstream

Dos guetos para o mainstream

Que o reality show “RuPaul’s Drag Race” popularizou a cultura drag entre uma nova geração de jovens é fato. Há oito temporadas, o programa leva ao mainstream esta arte que até pouco tempo era renegada aos guetos urbanos. O responsável por isso é RuPaul, de 55 anos, que em agosto estreia a aguardada segunda temporada de RuPaul’s All Stars Drag Race“.

A cultura drag envolve vários elementos, que vão da arte à luta por visibilidade e desconstrução de preconceitos. Neste universo, a música tem papel fundamental. RuPaul mostrou-se visionário também nesse quesito, ao lançar, em 1992, seu primeiro single “Supermodel (You Better Work)”. O nome da faixa acabou sendo um prenúncio do título que RuPaul recebeu, em 1994, ao se tornar a primeira drag supermodelo, após participar da campanha de uma marca de cosméticos.

Lançado na época em que o grunge e o rap eram os estilos musicais em alta, “Supermodel (You Better Work)” ganhou grande popularidade entre o público gay e status de hino dance. O videoclipe, um tributo de RuPaul à sua infância e carreira, fez sucesso na programação da MTV. Até o Nirvana, banda expoente do grunge, se rendeu. Kurt Cobain, vocalista do grupo, elegeu o single de RuPaul como uma de suas músicas preferidas de 1993. A admiração rendeu até uma foto nos bastidores do MTV Video Music Awards 1993.

Foto: Popsugar.com
Foto: Popsugar.com

“Supermodel (You Better Work)” não foi um smash hit nos charts, garantindo a 45º posição na Billboard 100 e a 2º posição na Billboard Hot Dance Club Songs. Mas não são os números e os charts que determinam o legado de um trabalho. Elementos da canção reverberam em nossa cultura até hoje. “Sashay! Shantay!”, termos popularizados no reality “RuPaul’s Drag Race”, estão na letra da música e são referências à cena drag americana, do final da década de 1980 e começo da década de 1990, representada pelos drag ballrooms, de Nova Iorque, que podem ser vistos no documentário “Paris Is Burning”, de 1990, dirigido por Jennie Livingston.

Em 2003, um cover da canção pode ser ouvido no filme “The Lizzie McGuire Movie”, interpretado por Taylor Dayne. Em 2007, Victoria Beckham desfilou ao som de “Supermodel (You Better Work)” durante a turnê “The Return of the Spice Girls”. Britney Spears também utilizou a música como referência em “Work Bitch”, primeiro single do álbum “Britney Jean”, de 2013.

O single foi o carro chefe do primeiro álbum de RuPaul “Supermodel of the World”, lançado em 1993.  De lá para cá, vieram oito álbuns de estúdio, que preenchem uma lista que soma compilações, trilhas sonoras e remixes. A lista completa com o nome e data de lançamento de todos eles, você encontra no final do texto.

Seus álbuns incorporam o ritmos em alta na época do lançamento, sem perder a essência dance das décadas de 1970 e 1980. Foi em 2009, com o álbum “Champion”, que promovia a primeira temporada de “RuPaul’s Drag Race”, que a produção musical de RuPaul voltou a ganhar os holofotes. “Champion” mistura o dance, o electro pop, o R&B e o hip-hop. O grande destaque é a canção “Cover Girl”, que até hoje é tema de “RuPaul’s Drag Race” e ganhou um featuring com Bebe Zahara Benet, drag ganhadora da primeira temporada do reality.

Imagem: Bebe, Rebecca e Nina. Reprodução YouTube
Imagem: Bebe, Rebecca e Nina. Reprodução YouTube

O álbum alcançou a 12ª posição na Billboard Dance/Electronic Albums e lançou outros quatro singles, além de “Cover Girl”: “Jealous of My Boogie”, “Devil Made Me Do It”, “Tranny Chaser” e “Champion”. O álbum traz questões sexuais e sociais em sua tracklist. Em “Tranny Chaser”, RuPaul canta sobre homens heterossexuais, com curiosidades sexuais sobre mulheres transexuais. Já “Let’s Turn the Night” foi escrita durantes os protestos pela “Proposição 8”, na Califórnia, que impedia a união homoafetiva. Hoje, a “Proposição 8” foi invalidada e milhares de casais já oficializaram o união perante o Estado.

Em 2011, ano da terceira temporada de “RuPaul’s Drag Race”, chegou ao mercado “Glamazon”, sexto álbum de estúdio de RuPaul. Atingiu a 11º posição no Billboard Dance/Electronic Albums e teve como singles as músicas “Superstar”, “Responsitrannity”, “I Bring the Beat”, “The Beginning” e “Glamazon”, esta última ganhou um videoclipe com a participação das três finalistas da quarta temporada do reality, Sharon Needles, Phi Phi O’Hara, e Chad Michaels. 

RuPaul, em 2013, ao lado de Lady Gaga, participou de um dos momentos que ficarão marcados na história da cultura pop. No especial de Ação de Graças, “Lady Gaga and The Muppets’ Holiday Spectacular”, a dupla cantou a música “Fashion!”. A escolha musical não poderia ser outra, e RuPaul deu um show, com seu “charisma, uniqueness, nerve, and talent”.

“Born Naked”, sétimo álbum de estúdio, coincidiu com a sexta temporada de “RuPaul’s Drag Race”, em 2014, e presenteou o mundo com a dançante “Sissy That Walk”, que se tornou hino obrigatório nas pistas ao redor do mundo. O álbum debutou na 85º posição na Billboard 200, melhor desempenho desde “Supermodel of the World”, que atingiu a 109º posição, em 1993. “Born Naked” rendeu os singles “Geronimo”, “Sissy That Walk” e “Modern Love”. Frankmusik, Michelle Visage e La Toya Jackson são nomes que colaboraram com Mama Ru na produção deste álbum.

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Videoclipe de Sissy That Walk. Reprodução YouTube

Aproveitando o buzz da sétima temporada de “RuPaul’s Drag Race”, RuPaul divulgou o seu oitavo álbum “Realness”, em 2015. Atingiu a sexta posição na Billboard Dance/Electronic Albums. A tracklist conta com nomes como Michelle Visage, Rebecca Romijn, Dave Audé e Frankmusik. Paralelamente, o álbum “RuPaul Presents: CoverGurlz2” traz uma compilação de canções com o cast da sétima temporada de “RuPaul’s Drag Race”. São 14 covers de músicas já lançadas em outros álbuns de RuPaul.  A faixa “New York City Beat”, com participação de Michelle Visage, ganhou videoclipe. Já “The Realness (feat. Eric Kupper)” foi a trilha da prova do runway look, da oitava temporada de “Rupaul’s Drag Race”. O videoclipe conta com a presença das finalistas Bob The Drag Queen, Kim Chi e Naomi Smalls.

Em clima de festa, RuPaul lançou, no final de 2015, o álbum “Slay Belles”, o nono de sua carreira e o segundo disco com músicas natalinas. Entre os colaboradores do trabalho estão Michelle Visage, Big Freedia, Ellis Miah, Siedah Garrett e Todrick Hall, famoso youtuber norte-americano e jurado da segunda temporada de “RuPaul’s All Stars Drag Race”. Todrick lançou recentemente seu álbum visual “Straight Outta Oz”, com participações de Nicole Scherzinger, Bob The Drag Queen, Alaska 5000, Willam Belli, Perez Hilton e Pentatonix. “Slay Belles” brinca com as palavras “slay”, gíria LGBT para “arraso” e “bells”, substituída por “belles”, significando algo como “mulheres que arrasam”.

2016 foi o ano de lançamento do disco “Butch Queen”, o décimo da carreira de RuPaul. O trabalho conta com a participação de Ellis Miah, Ts Madison e Taylor Dayne. A faixa “U Wear It Well” foi usada para promover a oitava temporada de “Rupaul’s Drag Race”. O videoclipe traz uma compilação de todos os looks usados por RuPaul na passarela do reality. O álbum atingiu a terceira posição na Billboard Dance/Electronic Albums e ficou em 46º na US Billboard Independent Albums.

“Butch Queen” é uma homenagem ao mundo das drags. A faixa “Category Is… (featuring Vjuan Allure)” transporta quem ouve para os drag balls vistos no documentário “Paris ir Burning”. De acordo com uma entrevista para a Billboard, RuPaul conta que quando estava iniciando seu trabalho como drag queen, ele tinha mentores que ensinaram sobre Tennessee Williams, Tallulah Bankhead, Truman Capote e Federico Fellini. Hoje, o reality cumpre essa função entre os mais novos, carentes por referências.

A produção musical de RuPaul tem suas justificativas comerciais, sim. É também mais um produto, entre tantos outros que a eterna supermodel of the world espalha pelo mundo. Porém, é inegável a sua contribuição para a cultura drag, na humanização de pessoas antes vistas apenas como personagens midiáticos e teatrais. É também um serviço para o empoderamento de mulheres, homossexuais, transexuais e travestis, que saem dos guetos e se sentem representados na indústria do entretenimento, historicamente misógina e machista, mas isso é assunto para outro texto…

Álbuns de estúdio:

  • Supermodel of the World (1993)
  • Foxy Lady (1996)
  • Ho, Ho, Ho (1997)
  • Red Hot (2004)
  • Champion (2009)
  • Glamazon (2011)
  • Born Naked (2014)
  • Realness (2015)
  • Slay Belles (2015)
  • Butch Queen (2016)

Compilações, trilhas sonoras e remixes:

  • RuPaul is Star Booty (1986)
  • Starrbooty: Original Motion Picture Soundtrack (2007)
  • Rupaul’s Go-Go Box Classics (1998)
  • RuPaul Presents: The CoverGurlz (2014)
  • RuPaul Presents: CoverGurlz2 (2015)
  • ReWorked (2006)
  • Drag Race (2010)
  • SuperGlam DQ (2011)
  • Butch Queen – Ru-Mixes (2016)

No Spotify é possível ter acesso ao material.