Documentário brasileiro reúne histórias de mulheres negras; confira entrevista com a diretora Day Rodrigues

06. setembro 2016 Cinema 0
Documentário brasileiro reúne histórias de mulheres negras; confira entrevista com a diretora Day Rodrigues

Ser mulher negra no Brasil é sentir na pele o peso do machismo, do racismo e da invisibilidade social. Para ajudar a romper com essa dura realidade e trazer novas perspectivas a essas mulheres, será lançado no dia 12 de setembro o documentário “Mulheres Negras: Projetos de Mundo”, dirigido por Dayane Rodrigues, a Day, e Lucas Ogasawara.

(Imagem de abertura: Leandro Noronha da Fonseca)

Por meio de depoimentos de diversas mulheres, o filme reconta a história do Brasil até chegar aos tempos atuais. E nesses tempos, o silêncio não será mais o lugar ocupado por elas, como afirma a própria Day em entrevista ao Prosa Livre. “As mulheres negras têm história e voz”.

O projeto chega em meio a iniciativas que têm dado maior visibilidade e protagonismo para essas mulheres. No campo do entretenimento, Beyoncé e seu “Lemonade” celebram a identidade das negras americanas, inspirando inclusive trabalhos similares, como aquele feito por um grupo de mulheres trans, por exemplo. Aqui no Brasil, Taís Araújo levou ao seriado “Mister Brau” discussões sobre feminismo e racismo, além de usar sua plataforma para discutir essas mesmas questões, seja em suas redes sociais, seja nas entrevistas que concede.

Mas além disso, as mulheres negras têm se unido na internet e fora dela, criando espaços de fortalecimento e de luta. E o documentário “Mulheres Negras: Projetos de Mundo” vem para somar a tudo isso.

Confira abaixo nossa entrevista com Dayane Rodrigues, diretora da obra:

Prosa Livre: Como surgiu o documentário? Qual foi a inspiração para que ele ganhasse forma?

Day Rodrigues: O documentário foi resultado de um trabalho artístico, para um curso de Gestão Cultural. Eu precisava desenvolver alguma pesquisa em torno das temáticas que envolvem produção cultural e seus desdobramentos. Daí, percebi a necessidade de pautarmos outras narrativas para além do lugar de poder, dito pelo homem branco, hétero, cis, rico e classe média. Eu queria pensar do meu lugar de fala, de mulher negra. Então, somei o meu ativismo pela luta antirracista e uma conversa com a Djamila [Ribeiro, filósofa e secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo], que me orientou: ‘você precisa estudar as feministas negras, porque elas têm projetos de mundo, que englobam todas as outras camadas da sociedade’. Fiquei com essa ideia na cabeça: como seria pensar o mundo a partir das nossas perspectivas? E assim surgiu a ideia do filme, contei para o meu amigo e diretor de audiovisual Lucas Ogasawara, que topou na hora; e assim, fizemos essa parceria.

PL: Como foi o processo de escolha das mulheres que participaram do filme?

DR: Por ser um filme independente, eu precisei pensar como seria fazer essa produção sem orçamento. Daí, pensei logo em mulheres que estavam próximas de mim, e com quem eu já tivesse uma troca em torno dessas temáticas. Com grande parte delas, levei em consideração a nossa amizade e/ou parceria, seja de trabalho ou de ativismo. Porém, o fato mais importante foi pensar como essas mulheres se posicionam contra os discursos hegemônicos. Num primeiro momento, pensei naquelas que estão dentro das Universidades e tratam do feminismo negro em suas pesquisas; depois, ao conversar com algumas pessoas, me dei conta da importância de estarmos atentas e atentos às manifestações contra o racismo numa poesia de rap, no grafite e em relatos do cotidiano. Pois, como costumo dizer: a pessoa negra conhece o racismo de longe; algumas vezes, só tem dificuldade de contextualizá-lo nas estruturas sociais.

PL: Algum depoimento marcou mais? Por quê?

DR: Essa pergunta é difícil. Todas as entrevistas foram marcantes e importantes para o processo de decupagem [processo de escolha de imagens], quando eu pude descrever cada sentimento e interrogação delas. Ao invés de escolher quem mais marcou, prefiro dizer da entrevista da minha mãe, que está no filme também. Essa foi a única entrevista não feita por mim. Foi uma escolha mesmo. E para engrandecer o documentário, foi quem nos ensinou sobre preconceitos, com relatos cheios de emoção e consciência, apesar de não estar em movimentos sociais ou na Academia.

PL: Quais foram as dificuldades enfrentadas para a execução do documentário?

DR: Os relatos e depoimentos foram muito potentes e precisos. São oito entrevistadas, com mais ou menos uma hora de entrevista, cada uma. Sendo assim, como o filme tem 25 minutos, ter que cortar algumas partes doía no coração; por outro lado, o cinema é cirúrgico, pede atenção e preciosismos. E isso deixa a obra muito mais interessante.

PL: Você também passou por experiências similares das mulheres apresentadas? Se sim, poderia falar sobre elas?

DR: Sim. Eu fui a mulher negra boa para a amizade e sexo, por muito tempo, aos olhos de alguns homens com quem me relacionei. E entender como fui descartada muitas vezes somente para o sexo, me fez compreender como a soma de racismo e machismo desconfiguram o nosso amor-próprio. Daí, o filme foi um processo de cura, para mim. Afinal, da minha graduação em Filosofia, do trabalho como produtora e daquilo que já realizei pela escrita, lembro de violências explícitas, sobre a legitimidade da minha capacidade intelectual. O filme traz essa resposta.

PL: Em julho, o TEDx fez um evento no qual a maioria das palestrantes eram mulheres negras, que falaram sobre suas experiências, suas dores e amores. O documentário chega pouco tempo depois dele, também colocando mulheres negras no protagonismo. Na sua opinião, por que é importante dar espaço para que elas falem?

DR: Porque na história do Brasil, dos estereótipos e hipersexualização da mulher negra, pela dita mulata, ou pelo lugar de subalternidade, quando se submete a mulher negra para papéis de empregada doméstica e babá, na dramaturgia, o machismo e racismo não admitem a nossa presença em espaços de poder e construção de pensamento. Logo, se pensamento é poder e a oratória e os livros são fundamentais para viabilizar a divulgação de um discurso, é fundamental ter mulheres negras em espaços de fala, sim.

PL: Você acredita que existe uma mudança acontecendo na forma como a sociedade vê as mulheres negras? Por quê?

DR: Não consigo imaginar ainda se houve uma mudança. Porém, vejo muitos grupos e coletivos de mulheres negras ganhando força, basta lembrar da “Marcha das Mulheres Negras”, em Brasília, em novembro do ano passado. Assim como a “Marcha”, também de mulheres negras, em São Paulo, no mês de julho. Nesses dois momentos, gritar o nome de Claudia Ferreira da Silva e Luana Barbosa dos Reis traz as nossas lutas, para estarmos vivas. Pois, essas duas mulheres foram brutalmente assassinadas, pelas marcas profundas da contemporaneidade: genocídio da população negra.

PL: Quem você espera alcançar com seu filme e o que espera realizar com ele?

DR: Eu gostaria de alcançar, principalmente, outras mulheres negras. Para empoderar outras mulheres, que assim isso se multiplique para uma mudança radical, de que não aceitamos mais tanta humilhação. Para isso, basta buscar saber sobre a hashtag #EuEmpregadaDoméstica, da rapper e professora de história Preta-Rara (entrevistada para o filme), teve mais de cem mil curtidas em sua fan page, em menos de uma semana. Tudo porque, esse foi um meio que encontrou para fazer uma campanha de denúncias, desde a falta de direitos trabalhistas, assédio sexual e a desumanização do tratamento, pela violência da cultura escravocrata refletida no comportamento das patroas. A casa grande e a senzala ganham outras dinâmicas, em peno Brasil moderno do século XXI. E o filme vem dizer que os nossos passos vêm de longe e nós temos voz.

PL: Como o audiovisual pode contribuir para combater o racismo e outras formas de preconceito?

DR: Os roteiros e argumentos precisam contar as histórias sem a perspectiva da democracia racial. Rever tal demanda é urgente. Ou vamos continuar acreditando nessa falácia e as mortes diárias da população negra continuam como problema somente nosso. Precisamos de outras e outros personagens, e não pela diversidade a partir do homem branco, mas pelo diverso intrínseco em qualquer grupo étnico-racial.

PL:  Em uma cena do trailer, Monique Evelle fala sobre o momento em que criou consciência de que era mulher e negra. O que significa esse processo de identificação?

DR: Infelizmente, significa entender que o Brasil é um país racista e tenta camuflar, pela miscigenação, quem somos nós. Ao mesmo tempo, quando nos damos conta que estamos na base da pirâmide social, com os piores postos de trabalho, abandonadas pelos maridos, desqualificadas em meios acadêmicos e todos os preconceitos decorrentes, não sobra dúvidas, carregamos muitas dores. Ainda assim, quando nos reconhecemos como mulher e negra, poder se amparar com outras tem garantido a reflexão sobre os nossos projetos de mundo.

PL: O que o público pode esperar do documentário?

DR: As mulheres negras têm história e voz.

SERVIÇO:

Documentário: “Mulheres Negras: Projetos de Mundo”
Lançamento: 12/9/2016, às 19h
Local: Centro Cultural Olido – Avenida São João, nº 473
Entrada: gratuita.

FICHA TÉCNICA:

Direção: Day Rodrigues e Lucas Ogasawara
Argumento, entrevistas, roteiro e produção: Day Rodrigues
Roteiro, fotografia e montagem: Lucas Ogasawara
Depoimentos: Aldenir Dida Dias, Ana Paula Correia, Andréia Alves, Djamila Ribeiro, Francinete Loiola, Luana Hansen, Monique Evelle, Nenesurreal, Preta-Rara. Músicas: Sandro Bueno e Mauro Marianno.
Músicas: Sandro Bueno e Mauro Marianno
Diagramação: Tatiana Cardoso
Color grading: Maísa Joanni
Mixagem: Laurent Mis
Maquiagem: Gabriela Souza
Comunicação: Leandro Noronha da Fonseca e Juliana Gonçalves
Assessoria de Imprensa: Pret@ Digital


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