Falta diversidade em “Game of Thrones” – e tudo bem falar sobre isso

Falta diversidade em “Game of Thrones” – e tudo bem falar sobre isso

A menos que você tenha dormido debaixo de uma pedra, você provavelmente soube que “Game of Thrones” voltou à programação da HBO para a sétima temporada (e as mulheres arrasaram no primeiro episódio). A reestreia no último domingo (16) bateu recordes de audiência e fez todo mundo falar sobre isso. Inclusive John Boyega.

O ator, conhecido por seu papel em “Star Wars: O Despertar da Força”, deu uma entrevista para a revista GQ americana, para a qual falou algo muito óbvio, mas que ainda deixa muitos fãs do seriado incomodados na internet: “GoT” não possui um elenco muito diverso.

“Não há negros em ‘Game of Thrones’. Você não vê uma pessoa negra em ‘Senhor dos Anéis'”, disse o artista britânico. “Eu não vou dar dinheiro para ver apenas um tipo de pessoa na tela. Porque você vê, todos os dias, pessoas diferentes, de diferentes origens, diferentes culturas. Mesmo se você for racista, você precisa viver com isso”.

Como bem apontado pelo site Omelete, na verdade, há alguns personagens negros no seriado da HBO: Missandei (Nathalie Emmanuel) e Verme Cinzento (Jacob Anderson). Outros atores negros passaram por “GoT”, mas nenhum que durasse tanto tempo. E, para ser sincero, muitos desses artistas, inclusive Nathalie e Jacob, deram vida a personagens que eram, em sua maioria, guardas ou empregados, reforçando alguns estereótipos envolvendo raça.

Mas a falta de diversidade não é um problema para Nina Gold, diretora de elenco da atração. Em junho, ela conversou com a revista Vanity Fair e disse o seguinte ao ser questionada sobre o assunto:

“Embora esses sejam mundos de fantasia, existem tribos, famílias e dinastias. Uma vez que você coloca uma marca na tela para os Targaryens ou Starks, você precisa ser fiel ao… Eu não consigo achar a palavra, mas à autenticidade de tentar torná-los uma família”, justificou.

“Nos livros, os Targaryens são essas pessoas brancas com cabelos prateados e olhos violetas. Os Starks são meio duros, como os povos no norte inglês são. Os Lannisters são dourados, não são? Nós acreditamos que estamos seguindo os livros, basicamente. Acho que eu não sei o que dizer sobre isso, porque não é como se não houvesse diversidade no elenco de ‘Game of Thrones’. Nós tornamos o Verme Cinzento e Missandei em personagens com profundidade. Eu acredito de verdade na diversidade ao escolher o elenco, e eu sempre acreditei. Eu não acho que preciso defender isso”.

Claro, se a série tem uma clara falta de diversidade, em parte, esse problema vem dos livros que deram origem a ela. A saga literária escrita por George RR Martin também foi criticada por apresentar poucos personagens de minorias étnicas. Em um post em seu blog, o escritor se defendeu.

“A Westeros de quase 300 A/C não é nem um pouco tão diversa quanto os Estados Unidos do século 21, claro. Mas, dito isso, eu tenho alguns ‘personagens de cor’ que terão papéis maiores em ‘Winds of Winter [sexto livro de ‘GoT’]. Admito que esses são personagens secundários e terciários, mas não sem importância”.

“Game of Thrones” tem um problema de falta de diversidade, o que não é nenhuma mentira ou coisa de ‘quem vê problema em tudo’, como vi muita gente comentar na internet. Aliás, para justificar essa falha no seriado, muitos justificaram dizendo que tanto a produção quanto os livros se baseiam na Europa medieval. E isso fica bem claro, obrigado por dizer o que está na cara.

Mas, ainda assim, estamos falando de obras de ficção, cujos personagens poderiam ser todos azuis e a história ainda faria sentido. É mais fácil para “Game of Thrones” ter dragões em sua narrativa (que não existiram na Idade Média, vale dizer) do que personagens negros? Essa não é uma crítica restrita ao seriado, mas à saga literária também. Pessoas negras, latinas, asiáticas, indígenas e árabes sempre existiram. Ou seja, não seria improvável ou impossível que eles participassem da série. E essa mesma crítica pode ser feita a tantas outras produções com elencos predominantemente – ou exclusivamente – formado por artistas brancos.

Por fim, a falta de diversidade não é para dizer que “Game of Thrones” seja ruim (embora, eu discorde de várias escolhas tomadas pelos roteiristas – o estupro de Sansa é um deles). Parece que muitos fãs acreditam que essa crítica estaria desqualificando todo o universo que foi construído ao longo de quase uma década. “GoT” continua sendo uma série que possui personagens e narrativas muito interessantes e atraentes, mas que possui essa falha. E, sim, é uma falha.

É uma loucura ainda cobrarmos por diversidade em 2017. Agora nos resta apenas aguardar o próximo episódio.


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